quarta-feira, 12 de março de 2014

A história de Karla e Caio

ISABEL CLEMENTE
09/03/2014 10h00 - Atualizado em 10/03/2014 12h41

Era maio de 2009, Karla e Nelson procuravam uma casa para morar no Rio. Hospedados temporariamente na casa dos pais dele, faziam as buscas por um novo lar nos classificados. Tinham decidido deixar para trás a vida pacata em Praia Seca, distrito de Araruama, na região dos Lagos do Rio de Janeiro.
Entre "ficadas", namoro e vida a dois sob o mesmo teto, Karla e Nelson se conheciam havia mais de 20 anos. E Nelson, aos 40, queria ser pai. Todos os amigos já tinham filhos. Aos 37 anos, Karla também achava que seria mãe, sem pressa. "Eu seria mãe eventualmente, sabe? E ele tinha certeza que era a hora, que teria um filho homem", diz, rindo, ao se lembrar do doce embate. Nelson perguntava sério para ela: "Preta, você tá escondendo meu filho? Você tá grávida?"
Como a questão já estava resvalando para uma obsessão do companheiro, Karla diz que resolveu fazer contas para apaziguar os ânimos. Pretendia engravidar no segundo semestre de 2009, a tempo de ter um bebê geminiano em 2010. "Como se eu pudesse programar o mundo, a vida, porque eu tinha um pouco disso de achar que tudo aconteceria sempre do jeito que eu queria...", diz.
Karla e Sinho - famílias inspiradoras (Foto: Arquivo pessoal)
Nelson era técnico especializado e contratado de uma petrolífera italiana, a Saipem. Havia recebido meses antes uma proposta muito boa para trabalhar embarcado no exterior. Era um homem decolando profissionalmente num mercado em ascensão: o petrolífero. Depois de um intenso treinamento na Holanda, incluindo cursos de escape submarino - para o caso de o helicóptero cair no mar -, ele começou a trabalhar na costa de Angola. Sua rotina incluía um mês no mar, um mês em terra.
No dia 31 de maio de 2009, depois de um churrasco de despedida na casa dos pais, Nelson embarcou pela segunda vez para o novo posto no exterior. A rota da primeira viagem incluíra Lisboa. Desta vez, para sua "maior comodidade", como informou a empresa, ele passaria por Paris rumo à Angola. Karla e Nelson se atrasaram por causa da festinha familiar e chegaram tarde no aeroporto Internacional do Galeão, no Rio de Janeiro. Ele foi um dos últimos a embarcar no voo 447 da Air France rumo a Paris. Por pouco, não perdeu o avião. "Ele se despediu com lágrimas nos olhos ao abraçar o irmão. Ele nunca tinha ficado assim. Nunca. Viajava toda hora, estava acostumado a embarcar. Agora essa cena dói demais porque ganhou outro significado", afirma Karla.
De dentro do avião, ele ainda telefonou para a mulher e contou, um tanto preocupado com a noite pela frente que "todas as crianças do voo" estavam atrás de sua cadeira. "Eu ouvi a zoeira das crianças pequenas, disse 'que delícia', relaxa e dorme", diz Karla.
Às 6h30 do dia seguinte, o celular de Karla tocou.  "Eu cheguei a pensar que era ele, ligando pra me avisar que chegou, porque ele era esse reloginho, mas era meu sogro, perguntando qual era o número do voo do 'Cisquinho', como ele chamava o filho, e pedindo para eu ligar a televisão".
Aquele dia não teria fim. O voo 447 desaparecera com 228 pessoas a bordo.
Por alguns dias, os familiares das vítimas ficaram num hotel oferecido pela companhia aérea. Karla voltou para casa de onde continuou torcendo pelas teorias conspiratórias. Quem sabe o avião havia sido sequestrado? Quem sabe uma aterrissagem forçada num deserto qualquer? Poderia estar perdido. Se pousou no mar, Nelson era treinado. Nadava muito bem. Qualquer explicação improvável seria melhor do que a verdade. "Nem sei te dizer quantas vezes me perguntei por que ele não perdeu aquele voo, por que eu não me atrasei", diz Karla.
Equipes da Marinha e da Aeronáutica retiram do mar destroços do avião da Air France, em junho de 2009 (famílias inspiradoras) (Foto: Divulgação/Aeronáutica)
Quando partes da fuselagem do avião foram encontradas boiando no Oceano Atlântico, Karla enfim compreendeu: Nelson não iria voltar. Ela só não sabia ainda que ele partira deixando com ela um pouco de si. Karla descobriria dias depois estar grávida do filho que o marido acreditava estar escondido nela.
Nelson e Karla se conheceram ainda adolescentes, em 1985, quando ele chegou com a família (quatro irmãos e os pais) de Brasília para morar no mesmo prédio dela. Três anos depois aconteceu o primeiro beijo do casal. "Ele era mais do que meu namorado, um super amigo".
Nelson era o sujeito calado, alto, olhos claros e pele muito alva, um tipo caucasiano. Gostava de roupas escuras e brincos. Certa vez, foi confundido com skinhead, segundo Karla. Era sério até para brincar. Um tio querido dos sobrinhos.
Eu conheci Karla na adolescência. Estudamos na mesma escola, mas nunca na mesma turma, só frequentávamos juntas o ginásio atrás de uma partida de handebol. Ela era muito melhor do que eu, aliás. Jogava na linha e no gol.  Agarrar em handebol não é para fracos. Karla era a irreverente, ria de si e dos outros. Essencialmente "do bem". Depois da escola, cursou três anos de Medicina - coisa que eu não imaginava - mas descobriu a tempo não ter vocação para ser médica. Hoje, ao revê-la, ambas adultas, independentes, com profissão definida e filhos, reencontro o mesmo bom humor. Dou boas gargalhadas com suas histórias no Facebook. Karla é feliz. Adora ser mãe. Se você perguntar de onde ela tirou forças para enfrentar tudo o que passou, a resposta é uma só: "Caio, Caio, Caio". Ela não perdeu a sagacidade nos comentários nem a boa vontade com a vida, apesar das adversidades que enfrentou. Detalhe: tampouco desenvolveu medo de avião.
Caio bebê - famílias inspiradoras (Foto: Arquivo pessoal)
"Quando descobri minha gravidez, eu lembro que havia uma hesitação nas pessoas. Eu tinha que dar a notícia completa dizendo 'ei, estou grávida e é legal! Pode ficar feliz', porque as pessoas estavam prontas para chorar comigo", diz. "Tenho uma certa habilidade para lidar com a felicidade".
Perder uma pessoa amada tão próxima é uma das mais dolorosas experiências humanas. Está no topo dos sofrimentos. Quando a morte é inesperada, é preciso ainda enfrentar o choque inicial, depois o vazio e, enfim, a nova realidade. O luto, uma dor quase física que ameaça nunca chegar ao fim, não tem prazo de duração mas um dia acaba. Tudo dependerá da maneira como você for lidar com essa perda, o que envolve personalidade, estilo de vida, fé. Havia dias em que Karla simplesmente achava que Nelson estava viajando. Em outros, remoía diálogos que gostaria de reescrever.
"Passei boa parte da gravidez desconectada. Não estava exatamente dentro da situação. Não sei se foi uma maneira de lidar com o choque. Eu tinha crises de desespero que depois passavam e eu seguia meu dia a dia normalmente", diz Karla. Foi um período difícil aquele. Mas nunca teve pena de si, porque ficara viúva e grávida. "Eu não podia mergulhar numa tristeza profunda. Eu tinha questões muito práticas para resolver. Eu não tinha onde morar, perdi o plano de saúde e me descobri grávida. Nenhum plano me aceitou. Eu precisava trabalhar e muito", afirma.
Agente concursada da Polícia Civil do Rio desde 2002, Karla passou a cobrir plantões extras para aumentar a renda de R$ 5 mil brutos pago por sua função. Contou com ajuda financeira da mãe. Ela já não tinha pai havia três anos e o irmão, médico, morava em Cuba. O processo de indenização a ser paga pela Air France consumia tempo em desgastantes reuniões, Karla preferia se afastar da confusão. Havia um menino crescendo dentro dela. No dia 25 de janeiro de 2010, um dia depois do aniversário de Nelson, Caio Maximus nasceu. Karla chorou um choro leve, ela me diz, e nunca mais sentiu aquela tristeza pesada novamente. Era o início do seu reencontro com a felicidade.
Caio e Karla - famílias inspiradoras (Foto: Arquivo pessoal)
"Mãe, pega o Benjamim Tennison pra mim?", gritou Caio de dentro do box.
"Onde está, filho?"
"Tá no sofá, embaixo da almofada amarela".
Karla encontrou o Ben 10 exatamente onde o garotinho disse que estaria. Aos 4 anos, Caio é assim: chama seus heróis preferidos pelo nome, é organizado - "mais do que a mãe", ela diz – e gosta tanto de legumes e frutas quanto o pai. "Não me puxou", ela afirma, em tom confessional. O corpo longilíneo também é herança paterna. "Eu rio sozinha ao vê-lo andar de cuequinha pela casa. É muito engraçado, o corpo do Nelson", diz Karla. Possui ainda o mesmo gênio forte do pai e opinião sobre quase tudo. Falante, esperto, como só as crianças sabem ser, faz ressurgir nela energia de onde não esperava, como nas voltas dos plantões de 24 horas na Delegacia de Polícia.
Pai do Caio - famílias inspiradoras (Foto: Arquivo pessoal)
"Anda logo, mãe. Hoje é dia de novidade!", diz o menino, numa sexta pela manhã pulando ao redor dela. No plantão de uma agente de polícia acontece de tudo: perseguições pela rua, atendimentos de pessoas misteriosas, gente confusa, gente suspeita e até queixas de roubo de guarda-chuvas ou peixe cru.
"Você junta os cacos e se apressa, porque sexta é o dia mais divertido na escola e você não quer atrapalhar a pessoa", ela comenta, em post no Facebook, para amigos.
Às vezes Caio pergunta "eu sou preto, mamãe?". Ela tenta explicar. "Você é café com leite, misturado. Mamãe é negra, tem pele preta, papai é branco. Você está no meio do caminho. Essa explicação de cor, raça e identidade é complicada, sempre delicada".
Mais delicada ainda foi outra batalha que Karla enfrentou em 2011, dessa vez, na Justiça. Em 2003, Karla matou um homem. Era feriado de 1º de maio. Depois do plantão na delegacia, ela seguiu para uma festa de amigos num condomínio próximo à sua casa. Já na confraternização, uma briga do lado de fora chamou a atenção dos convidados. Houve tiros. Um puxou arma para tentar acertar o outro, deu dois tiros e errou. Um jovem em fuga abriu a porta da garagem e invadiu a festa onde Karla estava. Atrás dele, apareceu um homem armado, sem camisa, descalço, alterado e gritando.
"Pensei "é ladrão, vai matar, vai fazer alguma coisa", e peguei minha arma. Ele me viu, veio na minha direção e mirou em mim", diz Karla, reconstruindo a cena fatídica. Ela sacou a pistola e foi mais rápida. Como num faroeste, atirou primeiro.
Karla se lembra de ter visto o amigo, dono da casa, abaixado tentando proteger os filhos de 2 e 5 anos do homem armado. "Eu fiquei tranquila diante da cena. Eu não estava bebendo, pedi exames toxicológicos e alcoolemia em mim e nele. Chamei o Instituto de Criminalística, a polícia, aí me disseram que o cara era PM...", diz. "Fato é que não teve comportamento de policial".
Na vida real, quando uma pessoa aponta arma para a outra, não tem suspense ou música de fundo como no cinema. É atirar ou morrer. "Eu sei que matar e morrer é um risco inerente à minha profissão, mas na prática a coisa é muito diferente. Fiquei mal", afirma. "Eu não sei se ele ia matar alguém lá dentro, mas estava com o dedo no gatilho e apontou para mim, na frente de todo mundo. Não deu tempo para nada".
Foi nessa época que Karla e Nelson decidiram se mudar para Praia Seca, em Araruama. Ela conseguiu ser transferida para a delegacia da área. Lá, fizeram novas amizades com pessoas em busca de uma rotina de paz e tranquilidade num lugarejo marcado pela presença de pescadores e aposentados. Nessa época, ela se formou em Direito numa faculdade particular em Cabo Frio e empreendeu uma busca espiritual. “Só me fez bem", diz. Nelson, ex-mecânico de ar condicionados, continuou fazendo cursos de especialização e acumulando experiência no ramo petrolífero. Como trabalhava embarcado, poderia morar em qualquer lugar. Quando chegou 2009, ele queria um só lugar: voltar para o Rio. Era hora de ser pai.
Mesmo "na estrelinha', Nelson é uma referência para Caio. Karla fez questão de construir isso para o filho. Papai nadava, por isso ele vai nadar também. Histórias do passado são contadas e recontadas para explicar a vida que permitiu a Caio nascer.
Caio é oficialmente filho de Nelson desde janeiro de 2012. O caminho até a mudança na certidão de nascimento foi árduo. Karla precisou fazer dois exames de DNA no menino. O indesejado conflito com os sogros, autores dos pedidos que complicaram o processo pelo reconhecimento da paternidade, esgarçou os laços dessa relação. Com os cunhados e cunhadas, em compensação, a aproximação só aumentou.
Caio - Batman - Famílias inspiradoras (Foto: Arquivo pessoal)
Marx, irmão mais novo de Nelson, e sua mulher Tânia, com os filhos Vítor e Léo, são "a família" de Caio. Sentiram muito a morte de Nelson e ficaram emocionados com a gravidez. Pediram para participar desde o início e compõem, com a dinda Luciana ou "mãe dinda", como Caio fala de vez em quando, o círculo de amor em torno desses dois. São eles que aparecem para cobrir Karla quando ela dá plantão ou precisa de ajuda. Sem falar no vira-lata Toussaint, o outro filho de Karla. Esse arranjo familiar existe graças a comprometimento e amor. "Luciana é muito presente, desde a gravidez, quando me levava às consultas e me ajudava com questões práticas como enxoval. Nada daquilo eu havia planejado para mim, obviamente, mas desamparada, nunca me senti. Estava acolhida pelos amigos", diz.
Graças a uma declaração de vida marital que Karla e Nelson haviam registrado em 1998, ela foi imediatamente reconhecida pela seguradora da Air France como viúva de Nelson. Com o dinheiro da indenização, construiu uma casa de três quartos num bairro da Zona Oeste do Rio, onde mora com o filho.

O corpo de Nelson foi resgatado das cadeias montanhosas submarinas, a mais de 4 mil metros de profundidade, dois anos depois do acidente, em 2011, na última expedição empreendida pela Air France na tentativa de encontrar todas as vítimas. Cinquenta nunca foram achadas. No mesmo ano, Karla foi a julgamento e saiu absolvida pelo tribunal do júri. Ficou caracterizada legítima defesa e até a Promotoria pediu sua absolvição. No dia 7 de novembro de 2011, a família fez uma cerimônia para enterrar Nelson. Era o fim de um capítulo triste da história de Karla, mas outro bem animado já tinha começado.

Cadê o beijo na boca?

IVAN MARTINS
12/03/2014 07h00 - Atualizado em 12/03/2014 07h55

Entre as várias coisas que acontecem depois que a gente se casa, há uma, chatíssima, que eu nunca vi discutida: os beijos na boca terminam. É isso mesmo. Você viu seus amigos casados se agarrando como faziam antigamente? Quando foi a última vez que você e seu ilustre marido trocaram um beijo de língua sensual e demorado? Se foi no mês passado, está tudo bem. Se você nem consegue se lembrar, não se assuste. Parece ser assim com todo mundo. A escritora americana Nora Ephron, que viveu até os 71 anos e teve três casamentos, disse que acontece com todos os casais.
Eu me pergunto por que é assim. O sexo depois do casamento se torna menos frequente, mas a qualidade da transa aumenta muito. Com a intimidade, as pessoas ficam mais à vontade, perdem a vergonha e começam a fazer e dizer o que gostam. Tudo se torna mais intenso e mais profundo. Melhora, enfim.
Com o beijo, não. Eles são longos e molhados no início, e repetem-se o tempo todo. Funcionam, no frescor da paixão, como a forma mais intensa e direta de preparação ao sexo. Depois somem. Reaparecem mornos de ternura no dia de aniversário ou cegos de desejo quase no clímax do sexo. E é só. Aquele beijo apaixonado e comovido que se trocava no meio da rua desaparece como os pares de meia, em algum lugar secreto do guarda-roupa do casal.
Nem precisa dizer como os beijos fazem falta, né? É provável que não exista nada tão íntimo. Sei que a garotada anda fazendo um esforço heróico para banalizar essa manifestação de intimidade humana, mas eles não conseguirão. Beijar 10 ou 20 na mesma noite equivale a não beijar ninguém. A mistura de todas as bocas não soma, emocionalmente, uma única boca bem beijada. Para usufruir um beijo plenamente é preciso desejá-lo com antecedência, é preciso querer a pessoa que está em volta daquela boca. Há uma parte física e uma parte emocional nas línguas que se tocam. A física é óbvia, mas é a emocional que dirige o processo e faz disparar o coração, assim como os outros sistemas físicos de preparação. Quando você beija alguém que deseja, alguém que já está na sua imaginação, o beijo equivale a abrir uma porta para dentro da pessoa, e de você mesmo. Pode-se ficar três horas ou três semanas pensando naquele momento. Um beijo anônimo não leva a lugar nenhum, porque a porta que ele abre não tem endereço.
       
Beijos fazem tanta falta durante o casamento que a primeira coisa que as pessoas fazem depois de se separar é beijar na boca, ardentemente. Sexo elas tinham, mesmo num casamento arruinado. Mas beijo na boca, não. Esse tem de ser resgatado, reconquistado, celebrado com champagne. Quem passou muito tempo sem beijo na boca sabe como é gostoso voltar a encostar um corpo na parede e beijar com pressa e sem limite. Se você estiver encantado pela pessoa, não há nada melhor. Mesmo o sexo que vem depois talvez não equivalha, emocionalmente, a esse momento de conquista e de aceitação. O beijo, mais até que a penetração, oferece a forma mais direta de expressar ternura. Eu abro a minha boca e me ofereço sem barreiras, eu aceito você dentro de mim, com afeto e com luxúria. Não é à toa que as prostitutas não beijam na boca. Há coisas que o dinheiro não compra.
Eu tenho poucas dúvidas de que os beijos estão por trás da maior parte dos casos de infidelidade. Depois de um tempo de estabilidade, quando os beijos já sumiram da relação, tudo com que o sujeito ou a mulher sonham, às vezes literalmente, é estar nos braços de alguém que se deseja, beijando de forma sôfrega e apaixonada. O sexo nas relações clandestinas muitas vezes não passa de um cenário elaborado em que a peça de satisfação essencial é o beijo longo e molhado que se dá no amante, aquele que deixa os joelhos moles e faz o corpo estremecer.
Não sei se existe remédio para a falta de beijos nas relações duradouras. Talvez seja um exagero de romantismo pedir que eles persistam. Pode ser que gente que dorme junta, discute sobre o lixo da cozinha e racha o seguro de saúde perca a vontade de fazer certas coisas. Haveria uma troca: eu ofereço a minha presença, minha ajuda e a minha lealdade, mas não terei mais vontade de beijar você. Parece justo?
De uma coisa, porém, eu estou seguro – as pessoas não deveriam abrir mão dos beijos e nem permitir que a falta deles empobreça seu casamento de uma forma irremediável. Quando o casal perceber que os beijos sumiram, talvez seja hora de inventar alguma coisa capaz de recuperá-los. Sexo morno é fácil de esquentar. De vídeos pornôs a casas de suingue, há uma indústria especializada em oferecer novas formas de desejo aos casais que estão se repetindo. O beijo talvez seja diferente. Ele contém uma dose elevada de romantismo e se nutre de um erotismo mais sutil. Para beijar seu par como antes, talvez seja preciso olhar para ela ou para ela de uma forma nova, como se vocês tivessem acabado de se conhecer. Isso é possível? Talvez criando situações novas, em cenários novos, com gente nova ao redor. Vale a pena o esforço? Eu acho que vale. Muitos casamentos bacanas acabam porque as pessoas passam tempo demais discutindo e tempo de menos se beijando. Qualquer coisa que ajude a inverter essa situação deve ser bem-vinda.

'Rolezeiros' têm mais poder de compra do que os jovens das classes alta e baixa juntos

Renato Meirelles

Renato Meirelles

Especial para o UOL
O Brasil mudou. E não foi hoje. A estabilidade econômica do Plano Real,  seguida pelo intenso processo de distribuição de renda impulsionado, antes de tudo, pela geração de emprego e pelo aumento real do salário mínimo, fez com que milhões de brasileiros saíssem da miséria e entrassem no que se convencionou chamar de nova classe média brasileira, ou classe C. Falamos aqui de classe econômica, e não social. Falamos de 54% dos brasileiros, que movimentam por ano mais de R$ 1 trilhão.
A ascensão econômica permitiu às famílias perceberem que a vida poderia ficar mais confortável com a aquisição de bens e serviços, até então inalcançáveis. A compra dos produtos e o acesso a ambientes nunca antes frequentados significaram a materialização das mudanças e melhoria nas condições de suas vidas. Isso levou não apenas ao aumento do consumo, mas à democratização dos espaços de consumo como aeroportos, shoppings e restaurantes.

ACESSO AO ESTUDO

Cansamos de encontrar exemplos de mecânicos, faxineiras e operários da construção civil que falam, com orgulho, do primeiro universitário da família
A expansão econômica do Brasil deu-se por meio da redução das históricas desigualdades. Ou seja, quem sempre ganhou menos passou a ganhar mais. A renda da mulher cresceu mais do que a do homem, a do nordestino mais do que a do sulista, a do negro mais do que a do branco.
Essa reviravolta social começa a ter forte impacto entre os brasileiros que não tiveram a oportunidade de conviver com a hiperinflação ou com o medo do desemprego. Chamaremos de Geração C os jovens da nova classe média brasileira.
Suas famílias perceberam também que gastar em educação dos filhos é um excelente investimento. Não só no jovem, mas em toda a família. Ouvi de uma mãe: "melhor pagar escola do que o INSS". A sabedoria popular traduziu o que nossas pesquisas no Data Popular mostram em números: a cada ano estudado, o salário aumenta, em média, 15,7%.
Os jovens também têm essa percepção. Para eles, o estudo garante o acesso ao mercado de trabalho e à tão sonhada estabilidade na vida, diminuindo a vulnerabilidade e garantindo um futuro próspero, sem tantas incertezas. Ao estudar, é como se tivesse a sensação de que possui armas para lutar e batalhar numa arena que continua desigual.

DISCRIMINAÇÃO

Jovens acreditam que se vestindo melhor serão bem atendidos nas lojas, terão mais chances em uma entrevista de emprego ou sofrerão menos batidas da polícia
Mais conectados e escolarizados que seus pais, os jovens mudaram e se tornaram referência dentro de casa. São os "provedores de conteúdo" da família brasileira.
Em nossas pesquisas, cansamos de encontrar exemplos de mecânicos, faxineiras e operários da construção civil que falam, com orgulho, do primeiro universitário da família. Sem nenhuma vergonha afirmam: "tudo o que eu quero saber, pergunto ao meu filho".

Ostentação e rolezinhos

Essa expansão da classe média aproximou a periferia do universo das marcas "premium". A grande maioria das pessoas prefere produtos de qualidade e acredita que o consumo de marcas "tangibiliza" a melhora de qualidade de vida, celebrada no funk ostentação.
A utilização de roupas e produtos de marca cumpre outro papel: a redução do preconceito a que esses jovens são, cotidianamente, expostos. Eles acreditam que se vestindo melhor serão bem atendidos nas lojas, terão mais chances em uma entrevista de emprego ou sofrerão menos batidas da polícia.
Os episódios dos "rolezinhos" mostram bem isso.  Os personagens são os mesmos que adquirem suas roupas de marcas nesses centros de compras. Barrar este público é dizer para essa importante parcela de consumidores - que têm poder de consumo de R$ 130 bilhões, mais que a soma das classes alta e baixa -, que eles não são bem-vindos. Cabe a indústria de shoppings enxergar esse fenômeno como uma oportunidade, tratando os jovens de periferia com a mesma generosidade que recebem os calouros de administração da USP.

DESIGUALDADE

Quem sempre ganhou menos passou a ganhar mais: a renda da mulher cresceu mais do que a do homem, a do nordestino mais do que a do sulista, a do negro mais do que a do branco
Os "rolezinhos" nada mais são do que encontro de jovens e expõe, no mundo real, ídolos completamente desconhecidos pelas classes AB, mas com milhares de seguidores nas redes sociais. Essas celebridades escolheram o shopping - um local seguro, climatizado e com várias opções de consumo - para se encontrarem com seus fãs com o propósito, inicialmente, de lazer e diversão.
Cerca de 16,6 milhões de jovens vão aos shoppings pelo menos uma vez ao mês. A média nacional é de 3,3 vezes ao mês. Portanto, não é surpresa nenhuma a marcação dos encontros num shopping próximo às suas residências.
Com quase um terço do eleitorado, a Geração C veio para mudar o Brasil. Nasceram conectados, estudaram mais que seus pais, trabalham, acreditam ser protagonistas de sua própria história e estão mais preocupados com o futuro do que são gratos pela melhoria do passado. Esses jovens estão obrigando a velha guarda a rever os seus conceitos. Quem ganha com isso é o Brasil.

terça-feira, 11 de março de 2014

O livro dos segredos

José Casado, O Globo
Celso Furtado acabara de falar para uma plateia de estudantes. À saída topou com Mário Schenberg. O acaso reunia, ao pé de uma escada, um economista e um físico teórico dos mais influentes no país no século XX.
— Celso, posso fazer uma pergunta?
— Mas é claro, Mário.
— Ouvi tudo e fiquei pensando: esse negócio de economia é ciência mesmo?
Seguiram em frente, morrendo de rir.
A maioria dos economistas — ensina o professor Antonio Delfim Netto — sonha criar uma “ciência”, construir uma “religião”: uma “ciência econômica” que acredita em leis naturais que governam o funcionamento do sistema e, portanto, são independentes da história, da geografia, da psicologia etc.
O Brasil tem servido como laboratório de múltiplas hipóteses e teoremas, nos quais a vida real fica restrita, quando muito, a uma nota de rodapé. Aqui, os economistas conseguiram uma posição única de influência no centro de decisões. Da ditadura à democracia, ampliaram e preservam o domínio de áreas-chave do Estado.
Os poderes extraconstitucionais do Copom (Comitê de Política Monetária, do Banco Central) resultam dessa situação singular. Criado há 18 anos por “circular” (nº 2.698), é integrado por oito pessoas. Não há registro público de expressão do pensamento individual. Tem-se apenas uma Ata coletiva de quatro mil palavras.
Metade do texto é consolidação de índices conhecidos. O restante destina-se a uma espécie de catecismo ou formulário de “orações” e “ensino” dos dogmas da política monetária. A linguagem é cifrada, com quebra-cabeças estéticos. Aos distraídos sugere o fenômeno da construção de uma teologia da economia brasileira.
Uma leitura bem-humorada das Atas das últimas 34 reuniões (de 27 de janeiro de 2010 a 26 de fevereiro passado) permite vislumbrar a tentativa de se escrever um livro dos segredos.
Ultrapassadas as pérolas de obviedade (“a política monetária deve contribuir para a consolidação de um ambiente macroeconômico favorável em horizontes mais longos”), surge uma nuvem estática: “A aversão ao risco mostrou certa elevação...” É um dos inúmeros trechos repetidos há quatro anos. Escreve-se:
“Riscos baixos para a inflação subjacente no curto prazo tendem a reduzir incertezas em relação ao comportamento futuro da inflação plena” (setembro de 2010).
Reescreve-se: “Riscos baixos para a inflação subjacente no curto prazo tendem a potencializar os efeitos das ações de política monetária” (janeiro de 2014).
Na tortura do idioma, ecoa um sotaque de telemarketing: “A se confirmar a perspectiva de intensificação das pressões sobre o mercado de fatores, a probabilidade de que desenvolvimentos inflacionários localizados venham a apresentar riscos para a trajetória da inflação poderia estar se elevando.” E adverte-se:
“O Copom segue monitorando com particular atenção o comportamento das expectativas de inflação, que se elevaram no trecho intermediário do horizonte de projeção.”
Os oito do Copom talvez sintam alguma superioridade sobre os mortais. No coletivo anônimo, só se comunicam com a sociedade numa língua que ninguém entende.
A propósito, a próxima reunião está marcada para uma terça-feira simbólica: 1º de abril.

domingo, 9 de março de 2014

sexta-feira, 7 de março de 2014

Caribe busca indenização do Reino Unido por escravidão

KINGSTON - Mais de 150 anos depois das potências coloniais europeias decidirem parar com seu próprio tráfico de escravos, uma coalização de países do Caribe está considerando medidas legais para exigir uma compensação financeira e uma desculpa formal.

É previsto que os líderes do Caribe se reuniram na próxima semana em São Vicente de Las Granadinas e estudem a proposta das compensações elaborada por uma empresa britânica.
O tema das compensações foi discutido no Caribe durante vários anos e as opiniões estão divididas. Alguns veem a indenização como um tipo de Justiça tardia, enquanto outros como um reclamo vazio e uma distração dos problemas sociais modernos dos países caribenhos.

Entre os estados europeus que sequestraram pessoas na África e as venderam como escravos nas Américas estão o Reino Unido, França, Espanha, Portugal, Holanda, Noruega, Suécia e Dinamarca.

— Apesar disso, o Reino Unido enfrenta a maior quantidade de processos porque foi o principal potência colonizadora e escravocrata do Caribe — disse o advogado britânico que assessora os países do Caribe.

O governo britânico afirmou que acompanha o movimento dos protestos.

— A escravidão foi e é horrível. O Reino Unido condena incondicionalmente a escravidão e está comprometido a eliminá-la — disse um porta-voz do governo.
Especialistas legais afirmam que a demanda tem poucas chances de ser bem sucedida.


Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/mundo/caribe-busca-indenizacao-do-reino-unido-por-escravidao-11805745#ixzz2vHQPJe6e 
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quinta-feira, 6 de março de 2014

Amigas são para sempre

IVAN MARTINS
05/03/2014 12h35 - Atualizado em 05/03/2014 12h36

Um homem precisa de amigas, tanto quanto de amigos. Sei que circula por aí um dogma que diz que amizade entre homem e mulher é impossível, mas trata-se de bobagem. Meninas que cresceram ao seu lado podem ser suas amigas pelo resto da vida. Ex-casos, ex-namoradas e ex-mulheres viram amigas sensacionais. Mulheres que nunca deram para você, apesar da sua enorme insistência, também podem ser boas amigas, desde que você tenha desistido de transar com elas. O único tipo de mulher que dificilmente será sua amiga é aquela que você abertamente deseja comer. Neste caso, os sentimentos são mais complicados.
Você sai com uma pessoa assim e se percebe flertando em vez de conversar. Uma parte de você quer só amizade, mas a outra fica imaginando coisas. Tudo o que você diz passa por um filtro que tem a intenção velada de seduzir. Parece gostoso, mas não é. A gente sai desses encontros frustrado, com a autoestima derrubada, seja homem ou mulher. Acho que a nossa construção psicológica não suporta essa dubiedade. Se é tesão, há formas diretas de lidar com ele. Se for amizade, o desejo não deveria estar no caminho. Não se pode fingir que um é o outro.

Há quem acredite em amizade colorida, aquele tipo de relação que no sábado à tarde é de amizade e no meio da noite vira sexo. Eu desconfio desses arranjos. Acho que amigos de cama e mesa são uma lenda urbana. Funciona, talvez, e limitadamente, entre duas pessoas tranquilas do ponto de vista emocional. Casadas e felizes, por exemplo. Gente que já tem um porto seguro. Amizade colorida entre gente sozinha e carente? Duvido. Minha impressão é que nesse tipo de situação alguém sempre leva menos do que gostaria. Mais cedo ou mais tarde explode o ressentimento – e a cobrança – que nunca ocorreria entre amigos verdadeiros.
A amizade tem um componente generoso que não existe nas relações que envolvem sexo. Estas, até prova em contrário, tendem a ser egoístas. Se a minha amiga arrumar alguém no meio da balada, eu voltarei para casa sozinho sem dar bronca. Mas, se a gente passou a tarde se comendo, com a barriga dela encostada na minha, como ser altruísta? Se ela sair com outro cara ficarei puto, ficarei triste e, na primeira oportunidade, tentarei dar o troco. Neste caso, estaremos numa relação erótica disfuncional, não de amizade.

Amizade, por definição, é simples, mesmo quando a longa convivência dá margem a sentimentos contraditórios. A gente ama e detesta os amigos. A gente os admira, mas ninguém melhor que nós para falar mal deles. A gente tem queixas e percebe neles um mar de defeitos. Mas, diante de uma injúria, botamos o coração na mão para defendê-los. É neles que a gente confia, é para eles que a gente liga, é do temperamento deles – tão diferente do nosso – que a gente sente falta. É daquela opinião honesta e fundamentada que a gente precisa quando a barra pesa.

Desde que eu comecei a escrever colunas, em 2009, ficou evidente para mim a importância do ponto de vista feminino na vida masculina. De uma forma muito concreta, as amigas me dão outra visão do mundo. Apesar das nossas aspirações igualitárias ou feministas, o planeta ainda funciona dividido em dois tipos de percepções, a masculina e a feminina. Viver sem uma delas seria uma perda irreparável. É fundamental ouvir o que as mulheres têm a dizer sobre as nossas relações – afetivas, de trabalho, familiares. Elas são especialistas em coisas intangíveis. Têm um olhar sobre o comportamento humano que é diferente do olhar dos homens. Nem sempre a percepção delas é correta, mas operar no mundo sem ela seria como andar de carro à noite com apenas um farol aceso.

Há outra coisa que torna a amiga importante: ela é diferente da sua mulher. Não tem com você a mesma atitude de controle e proteção que é a cara das nossas relações duradouras. Com a amiga você fala de tudo, para ela você conta tudo. Se exibe, até. Experiências pessoais que você não dividiria com a sua mulher podem ser contadas para a amiga. Ela vai rir de você, vai chamar você de escroto e vai dar tapas indignados no seu ombro, mas estará do seu lado. Mesmo que seja – como muitas vezes é – para defender sua mulher quando você estiver reclamando da vida doméstica. As amigas de verdade tomam o lado da patroa. Talvez porque intuam do que você realmente precisa.

Há ciúme nesse tipo de relação de amizade? Claro, mas não é da mesma espécie do ciúme carnal. Você fica incomodado em dividir a intimidade da sua amiga com aquele novo macho possessivo com quem ela desfila feliz da vida. Se irrita secretamente em saber que depois de um assalto ela ligou para ele e não para você. Ela, por seu lado, mal disfarça o incômodo ao ouvir você discorrer entusiasmado sobre a bunda da perua que ela detesta. Um pedaço de vocês talvez gostasse de ocupar mais espaço e colocar certas pessoas para fora da vida do outro, mas, nesse caso, com esse poder, vocês já não seriam amigos. É uma contradição insolúvel.

Outra coisa que talvez não tenha solução é a beleza. Ela tira homens e mulheres do prumo. Lança uma luz inesperada sobre situações que você imaginava ter sob controle.

Aquele churrasco de domingo vai esticando até a noite e você não consegue tirar os olhos dos ombros sardentos da amiga, embora não se sinta no direito de dizer metade do que passa pela sua cabeça. Ou ela, que sai para tomar café com o amigão do peito, e se percebe, no meio da conversa, hipnotizada pelos olhos e pelas mãos do sujeito, fazendo contas inconfessáveis sobre o horário em que poderia voltar para casa antes do namorado telefonar.

Esses sentimentos são humanos. Contra eles, talvez sejamos obrigado a adotar defesas contra nós mesmos. Melhor não jantar sozinho com a amiga de quem você não consegue tirar os olhos. Melhor recusar o convite para conhecer o novo apartamento do querido que deixa você daquele jeito. Sobretudo quando se está feliz com alguém.

A esta altura da vida, todos sabemos que a chance de transar com uma pessoa amiga e ser gostoso é mínima. Há muitos sentimentos esquisitos envolvidos. Mesmo que o sexo seja bom, a possibilidade de que não leve a nada é de nove contra um. Caso contrário, já não seríamos amigos, certo? Melhor então não avançar o sinal. Quando o desejo estiver subindo a cabeça e você sentir que vai por em risco uma boa amizade, lembre: toda pessoa precisa de amigos do outro sexo! Infelizmente, eles só conseguem exercer a função vestidos. Sem roupa se transformam em outra coisa. É possível que fiquem lindos, mas são menos importantes na nossa vida.
Caros leitores e leitoras: como estarei de férias ao longo do mês de março, dedicado à preparação do meu próximo livro, serão publicados neste espaço, algumas crônicas do meu livro Alguém Especial que ainda não saíram na internet. Espero que gostem! Até a volta.