quarta-feira, 13 de maio de 2015

Um intervalo mágico

IVAN MARTINS
13/05/2015 - 08h03 - Atualizado 13/05/2015 11h36

Uma amiga que se separou há menos de seis meses ligou para me contar que está perdidamente apaixonada. Amando, disse ela. Morri de inveja do cara, (que laçou em tempo recorde uma das mulheres mais interessantes que eu conheço), e dela, que conseguiu se resolver internamente de forma tão rápida. Nem todo mundo tem a sorte de fechar o balanço e reencontrar o amor antes de encarar outro Ano Novo sozinho. Ela teve.
Fico me perguntando qual é o tempo necessário para cicatrizar e começar de novo.
Intervalo mágico 1 (Foto: Cacaosousa de Oliveira)
Uma moça que eu conheço terminou o casamento de forma dramática e levou alguns anos para botar os sentimentos no lugar. Outra está no terceiro marido e nunca se permitiu empacar entre um e outro, com ou sem traumas. Logo, o tempo de imersão parece depender da intensidade dos sentimentos, da personalidade e da situação vivida por cada um – mas também da imprevisível interferência do destino.
Não adianta sair do casamento ou de um namoro com a disposição de fazer a troca na próxima semana. Esse negócio não funciona assim. Sexo se arruma com facilidade. Gente para sair e conversar também. Mas um sentimento que permaneça depois que a pessoa foi embora - e parece ligá-lo magicamente a ela - não se acha com facilidade. Por esse, a gente tem de esperar alguma coisa imponderável, que acontece ao mesmo tempo dentro e fora de nós. O acaso vai pôr gente legal no caminho, mas nós temos de estar prontos para elas. Em geral não estamos.

Por questões que me parecem mais culturais do que genéticas, os homens têm uma experiência bem frustrante com esse tipo de coisa.
Somos nós que, depois de uma ruptura atordoante, voltamos instantaneamente ao mercado. Buscamos, antes de mais nada, alívio para a dor intolerável. Muitos ingênuos ainda acreditam ser possível substituir um amor por outro assim, do dia para noite. A vida está aí para ensinar que não. Laços verdadeiros demoram a se romper. A ausência de um rosto não se preenche com outro rosto, nem outra voz, nem mesmo um corpo mais bonito. Podemos nos distrair e até nos comover com novas pessoa, mas se apaixonar é difícil. Esquecer, impossível. Por isso os homens afobados voltam atrás da ex feito bumerangue. Queimaram a largada.
Antes que o tempo transcorra e nos modifique, tudo o que ocorre é apenas um ensaio, uma preparação.
As mulheres – também por questões culturais – tendem a lidar com isso melhor. Se resguardam, esperam, vestem o luto de uma forma que boa parte dos homens se recusa a fazer. Com isso, sofrem mais no início, mas se recuperam de forma mais rápida e mais profundamente. É uma cicatrização feita com tempo e cuidados, de dentro para fora, não a negação masculina e afobada do sofrimento. Quando a convalescência afetiva dessas mulheres termina, elas estão prontas, realmente prontas, para encher a boca e dizer “eu amo”, como faz agora a minha amiga.
Isso não significa – para homens ou mulheres – que o tempo do luto tenha de ser apenas recato e solidão. É possível conhecer pessoas, gozar e ser feliz na intimidade delas. Beijos na boca são bons em qualquer estação do ano, dormir abraçado ainda é a forma mais humana de adormecer. No intervalo mágico ou triste entre um amor e outro, podem ocorrer encontros inesquecíveis.
O que as pessoas não deveriam é imaginar – esperar, na verdade – que os intervalos de ternura e de erotismo se transformem, magicamente, num sentimento que apague o passado e inaugure o futuro. Atração física não é amor, desejo não é amor, prazer na companhia do outro também não. Essas coisas são boas e importantes, mas não substituem o sentimento intenso e vasto que liga dois seres humanos de forma duradoura.
Então, qual é mesmo o tempo certo para voltar a amar? Ninguém sabe.
O que eu sei – ou acho que sei – é que não cabem dois amores na mesma pessoa. Enquanto um estiver lá, não haverá espaço para outro. Teremos prazer, riremos alto, se tivermos sorte diremos palavras cheias de paixão e sentimentos, mas não será amor. Não ainda. Pode vir a ser, pode tornar-se, mas será preciso ter paciência com o outro e consigo mesmo. Corações partidos e pernas quebradas não se consertam de um dia para o outro. É simples e complicado assim.
http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2015/05/um-intervalo-magico.html 

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