terça-feira, 26 de abril de 2016

Se eu fosse um homem, branco, hétero, magro, europeu e católico

RUTH MANUS
27 Janeiro 2016 | 10:59

Talvez minha vida fosse mais fácil.

Às vezes- muitas vezes- me flagro pensando que a vida seria mais fácil se eu tivesse nascido homem.
Não que eu ache que a vida de um homem seja fácil. Mas, se eu fosse homem, eu sentiria, simplesmente, que devo menos ao mundo.
Haveria menos fiscalização sobre meu corpo, sobre minha vida afetiva, sobre minha roupa, sobre meus planos. Haveria sim, mas haveria menos.
E eu poderia andar à noite com menos medo, poderia ser avaliada no trabalho somente pela minha competência, poderia me sentir um pouco mais dona de mim mesma.
Mas, para a vida ser mais fácil, não bastaria só ser homem. Eu teria que ser um homem hétero.
Porque se eu fosse um homem que amasse outro homem, talvez o medo de andar na rua à noite persistisse. E o medo de não ser aceito numa entrevista de trabalho também.
E se eu fosse um homem que amasse outro homem, talvez eu tivesse que continuar fingindo, tantas vezes, ser o que não sou, por saber que o que sou não é o que acham que eu deveria ser.
Talvez a vida fosse mais fácil se eu fosse um homem hétero. Mas ainda assim não bastaria.
Eu precisaria ser magro. Porque se eu fosse um homem obeso, a vida não seria exatamente tranquila.
Eu continuaria sendo julgado pelo meu corpo, como sou como mulher. Fiscalizariam meu prato. Condenariam meu comportamento, certos de que minha condição física, além de condenável, era uma simples opção.
Homem. Heterossexual. Magro. Sim. A vida já estaria mais fácil. Mas não bastaria.
De que adiantaria tudo isso, se, ao chegar nos EUA, eu fosse latino-americano? Ou, ao chegar na Europa, eu  fosse africano? Os olhares dos policiais na imigração “pode ser traficante”, “vai tentar ficar de forma ilegal”, “deve ter vindo trabalhar sem autorização”. Seria como o olhar de “será que ela vem para se prostituir?”
Não. Não funciona.
A vida seria mais fácil se eu fosse um homem, heterossexual, magro, europeu. Mas não de qualquer parte da Europa. A Alemanha não me abraçaria se eu fosse romeno. A Inglaterra não me desejaria se eu fosse bósnio. A França não me admiraria se eu fosse português.
Pois bem. Homem, hétero, magro e um “bom” europeu.
Mas não bastaria.
De que me adiantaria tudo isso, ainda que nascido na França, mas tendo pais negros, pele negra, origens negras? Me aceitariam em qualquer emprego? Me olhariam tranquilamente enquanto circulo no comércio?  Me indicariam ao Oscar? Não, minha vida não seria fácil.
Seria preciso ser homem. Ser hétero. Ser magro. Ser um “bom” europeu. Ser branco. Talvez assim a vida caminhasse melhor.
Mas não se eu usasse um turbante. Ou um kipá. Nem se eu carregasse minha estrela de Davi no pescoço. Era preciso, além de tudo, ser cristão e de preferência católico.
Homem. Heterossexual. Magro. Europeu. Branco. Católico.
Talvez. Talvez assim a minha vida começasse do zero, e não do negativo. Talvez assim, eu pudesse lidar só com os problemas da vida- doença, falta de grana, desamores, desemprego, mortes na família. Talvez assim, eu tivesse só as preocupações que a gente deveria ter na vida, sem esses “pequenos” bônus de medo e de constrangimento.
Eu não nasci homem. Nasci mulher, latino-americana. Poderia ter nascido negra. Poderia me descobrir homossexual. Posso me tornar obesa. Nenhuma vida é fácil. Sobretudo, nenhuma vida é fácil num mundo que criou tantas regras de merda.
É privilégio ser homem? Ser hétero? Ser magro? Ser europeu? Ser branco? Ser cristão? Alguém é culpado por ser ou não ser? Alguém é vilão ou mocinho por ser o que é?
Claro que não. Mas é preciso- talvez indispensável- não perder de vista a complexidade da vida daqueles que nos cercam. É preciso parar de insistir em olhar tão insistentemente somente para os nossos problemas e ter um mínimo de empatia. E perceber que quanto menos entraves há na nossa vida, maior é o nosso dever moral de fazer algo para derrubar os obstáculos que impedem os outros de viver normalmente. É preciso em alguma medida, fazer o mínimo que nos cabe para ajudar a desconstruir esse lixo de estrutura na qual estamos inseridos.

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Me perdoem por estar tão longe

RUTH MANUS
13 Abril 2016 | 07:52

E por tentar estar presente com tão pouco.

Venho pedir que me desculpem
Por todos os dias em que eu não estou
Por todos aniversário aos quais eu não vou
Pelas tantas vezes em que a ligação falhou
Por ter que ser tão menos do que realmente sou

Venho dizer o quanto sinto
Por todos os almoços em que meu lugar sobra
Por ainda não ter visitado a casa nova
Por não ter ajudado com as coisas da obra
Por tantas vezes colocar o amor de vocês à prova

Eu juro que queria
Queria ter ajudado a sarar todas as doenças
Queria poder ser verdadeira presença
Queria segurar aquelas sacolas imensas
Queria fazer massagem nas suas costas tão tensas

Venho me desculpar
Por todos os copos de água que eu não busquei
Por toda louça suja que eu não lavei
Por todas as piadas que eu não contei
Por todas as dores que eu não abracei

Eu juro que queria
Segurar os cabelos de quem vomitava
Segurar o elevador para quem demorava
Segurar a onda de quem tanto chorava
Segurar as mãos sem precisar dizer nada

Me perdoem
Por ser uma imagem na tela do celular
Por ser um áudio que eu nunca termino de gravar
Por ser uma história que nunca dá tempo de contar
Por ser uma ausência com a qual vocês aprenderam a lidar

Me desculpem
Pelos tropeços dos quais não ri
Pelos pensamentos que eu não li
Me desculpem
Por saber o quanto minha falta dói por aí
E por não saber fingir
Que ela não dói
Igualmente
Sempre
E tanto
Aqui.

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Livre, respeitada e do bar

RUTH MANUS
20 Abril 2016 | 10:29

Pelo direito de ser E DE NÃO SER bela, recatada e do lar.


Quando a gente acha que já teve náuseas suficientes nos últimos dias, surge uma reportagem sobre a esposa do Michel Temer, intitulada “bela, recatada e do lar”. Antes de tudo, que fique claro, não vejo nenhum problema se uma mulher quiser ser bela, recatada e do lar. Como disse Simone de Beauvoir, “que a liberdade seja a nossa própria substância”. Toda mulher é livre para escolher o caminho que torna-a realizada. Isso só se torna um problema quando um dos maiores veículos de informação do país coloca- ainda que de forma velada- essas características como padrão a ser seguido, e coroam a reportagem dizendo que Temer é um homem de sorte.
Precisamos olhar para isso. Pensar sobre isso. Precisamos repensar esse encardido conceito de “bela”. A boa e velha mulher objeto que tem seu valor diretamente relacionado ao quão agradável ela é aos olhos alheios. O fato de que a primeira análise de uma mulher sempre será a respeito da sua aparência (mesmo quando ela está apresentando um projeto no trabalho ou esperando o ônibus no ponto) é algo que o feminismo tenta extirpar há décadas. Mas o mundo não está interessado em mostrar que a beleza da mulher está muito além da estética.
Mulher bonita é a mulher que luta, meus queridos.
Na sequência temos a mulher “recatada”. Essa é a tal mulher que “se dá o respeito” aos olhos machistas e conservadores.  São esses mesmos olhos que acham que a mulher que saiu de saia curta contribuiu para o próprio estupro. Recatada é a mulher que sabe ficar em silêncio em uma discussão “de homem”. A mulher que “se recolhe à própria insignificância”. A mulher que se recolhe.
Não. Nós não vamos nos recolher. E isso é só o começo.
E a cereja do bolo: “do lar”. Quando a expressão “do lar” significa trabalhar cuidando da casa, ela é uma característica fantástica e honradíssima, para homens ou para mulheres.  Cuidar da casa é exaustivo, necessário e relevante. Mas quando “do lar” vem depois de “recatada”, sabemos que não se trata de zelar da casa. Trata-se de “não se expor”, de “ser uma boa esposa”, de “ocupar seu lugar de mulher”.
Lugar de mulher. Lugar de mulher é onde ela quiser, amigo.
É no bar, tomando whisky. É em casa, lendo jornal e comendo amendoim. É em plataforma de petróleo. É na sala de aula, assistindo e lecionando. É em pista de skate. É na câmara dos deputados.  É dirigindo táxi. É na rua, à noite, sozinha. É no mundo.
“Bela, recatada e do lar” não é só uma reunião de características um tanto quanto antiquadas. É uma ideologia. É a mulher da qual o Temer gosta. E da qual o machismo gosta. Não se enganem amigas, o que estamos assistindo no Brasil não é apenas uma disputa pelo poder. O que nós estamos vendo é, além de tudo, uma tentativa de mudança ideológica em muitos campos. Mudança essa que coloca a mulher, a família, os trabalhadores, os gays, os negros e tantos outros no lugar que eles julgam adequado. Isso se chama retrocesso e isso dá medo. Mas, sabem como é, o medo nunca nos impediu de lutar.
Michel Temer é um homem de sorte? Pode ser que seja. Assim como o marido (ou mulher) de uma engenheira. De uma militante feminista. De uma faxineira. De uma stripper. De uma professora de biologia. Mas a existência de uma mulher não serve para ser mero acessório da felicidade de um cônjuge. A nossa existência serve para fazer sentido por si só. Para não se encaixar em modelos ultrapassados. Para tomarmos nossos porres, lermos nossos livros, fazermos nossas viagens, escolhermos nossos caminhos. Para sermos livres e respeitadas, seja no lar ou seja no bar. Nós somos muito mais do que eles querem que a gente seja. E é bom que eles estejam prontos para isso.

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O alto preço de viver longe de casa

RUTH MANUS
24 Junho 2015 | 11:28

Muito além do valor do aluguel.

Voar: a eterna inveja e frustração que o homem carrega no peito a cada vez que vê um pássaro no céu. Aprendemos a fazer um milhão de coisas, mas voar… Voar a vida não deixou. Talvez por saber que nós, humanos, aprendemos a pertencer demais aos lugares e às pessoas. E que, neste caso, poder voar nos causaria crises difíceis de suportar, entre a tentação de ir e a necessidade de ficar.
Muito bem. Aí o homem foi lá e criou a roda. A Kombi. O patinete. A Harley. O Boeing 737. E a gente descobriu que, mesmo sem asas, poderia voar. Mas a grande complicação foi quando a gente percebeu que poderia ir sem data para voltar.
E assim começaram a surgir os corajosos que deixaram suas cidades de fome e miséria para tentar alimentar a família nas capitais, cheias de oportunidades e monstros. Os corajosos que deixaram o aconchego do lar para estudar e sonhar com o futuro incrível e hipotético que os espera. Os corajosos que deixaram cidades amadas para viver oportunidades que não aparecem duas vezes. Os corajosos que deixaram, enfim, a vida que tinham nas mãos, para voar para vidas que decidiram encarar de peito aberto.
A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas.
E começamos a viver um roteiro clássico: deitar na cama, pensar no antigo-eterno lar, nos quilômetros de distância, pensar nas pessoas amadas, no que eles estão fazendo sem você, nos risos que você não riu, nos perrengues que você não estava lá para ajudar. É tentar, sem sucesso, conter um chorinho de canto e suspirar sabendo que é o único responsável pela própria escolha. No dia seguinte, ao acordar, já está tudo bem, a vida escolhida volta a fazer sentido. Mas você sabe que outras noites dessa virão.
Mas será que a gente aprende? A ficar doente sem colo, a sentir o cheiro da comida com os olhos, a transformar apartamentos vazios na nossa casa, transformar colegas em amigos, dores em resistência, saudades cortantes em faltas corriqueiras?
Será que a gente aprende? A ser filho de longe, a amar via Skype, a ver crianças crescerem por vídeos, a fingir que a mesa do bar pode ser substituída pelo grupo do whatsapp, a ser amigo através de caracteres e não de abraços, a rir alto com HAHAHAHA, a engolir o choro e tocar em frente?
Será que a vida será sempre esta sina, em qualquer dos lados em que a gente esteja? Será que estaremos aqui nos perguntando se deveríamos estar lá e vice versa? Será teste, será opção, será coragem ou será carma?
Será que um dia saberemos, afinal, se estamos no lugar certo? Será que há, enfim, algum lugar certo para viver essa vida que é um turbilhão de incertezas que a gente insiste em fingir que acredita controlar?
Eu sei que não é fácil. E que admiro quem encarou e encara tudo isso, todo dia.
Quem deixou Vitória da Conquista, São José do Rio Preto, Floripa, Juiz de Fora, Recife, Sorocaba, Cuiabá ou Paris para construir uma vida em São Paulo. Quem deixou São Paulo pra ir para o Rio, para Brasília, Dublin, Nova York, Aix-en-provence, Brisbane, Lisboa. Quem deixou a Bolívia, a Colômbia ou o Haiti para tentar viver no Brasil. Quem trocou Portugal pela Itália, a Itália pela França, a França pelos Emirados. Quem deixou o Senegal ou o Marrocos para tentar ser feliz na França. Quem deixou Angola, Moçambique ou Cabo Verde para viver em Portugal. Para quem tenta, para quem peita, para quem vai.
O preço é alto. A gente se questiona, a gente se culpa, a gente se angustia. Mas o destino, a vida e o peito às vezes pedem que a gente embarque. Alguns não vão. Mas nós, que fomos, viemos e iremos, não estamos livres do medo e de tantas fraquezas. Mas estamos para sempre livres do medo de nunca termos tentado. Keep walking.

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/o-alto-preco-de-viver-longe-de-casa/ 

Eles estão de volta!

domingo, 17 de abril de 2016

Domingo, 17 de abril de 2016: uma reflexão sobre o Brasil

Do Blog do Lucas Figueiredo

O que passa na cabeça de um corrupto e de um corruptor? Dorme tranquilo de noite? No restaurante, quando pede ao garçom um vinho de R$ 10 mil reais, sua consciência sussurra algo como “seu luxo é alimentado com dinheiro desviado de escolas, hospitais, estradas”? Ele sofre em algum momento ou é 100% cinismo. O que sente o corrupto?

Nos meus 25 anos de jornalismo, muitas vezes eu me fiz essas perguntas. Tentei ir além, buscando respostas com os corruptos que conheci. Foram vários. Com alguns deles, fontes que cultivei durante anos, cheguei a desfrutar de certa intimidade. Frequentava suas casas, conhecia seus filhos, comíamos à mesma mesa, o que nos permitia, a eles e a mim, falar com mais transparência. Sondei suas almas. Rodei a América do Sul, fui aos Estados Unidos e à Europa para falar com corruptos. Alguns se deixaram revelar parcialmente, porém nunca encontrei uma resposta completa para minhas questões.

Em 1994, no governo Itamar Franco, fiz minha primeira reportagem investigativa sobre corrupção. Um caso clássico: obras superfaturadas do Ministério dos Transportes tocadas por empreiteiras gigantes – Odebrecht, Andrade Gutierrez, OAS, entre outras. (Reconhece esses nomes? Pois é…) Perdi as contas de quantas matérias escrevi que citavam essas e outras empreiteiras em episódios de desvio de dinheiro público. Posso nunca ter descoberto o que se passa nos corações e nas mentes dos corruptos, mas, a partir de certo momento, entendi como funcionavam os esquemas que alimentavam corruptos e corruptores.

Na segunda metade da década de 1990, já no governo Fernando Henrique Cardoso, o esquema das grandes empreiteiras estava tão manjado que os corruptos começaram a operar com agências de publicidade. Funcionou – e funcionou bem. Essa história está contada no meu livro O Operador – como (e mando de quem) Marcos Valério irrigou os cofres do PSDB e do PT, publicado dez anos atrás. Como o subtítulo do livro mesmo diz, ali também está contada a história de como o PT,ao chegar ao poder em 2003, se apropriou do esquema de corrupção dos tucanos (o mesmo modus operandi, os mesmos operadores, os mesmos laranjas, os mesmos bancos, os mesmos doleiros, os mesmos corruptores…).

Em matéria de corrupção, portanto, posso dizer que já bati tanto em Chico quanto em Francisco.
Tendo dedicado boa parte da minha atuação profissional às investigações de corrupção, tive um interesse especial pela operação Lava Jato, promovida pelo Ministério Público, pela polícia e pela Justiça federais. Conheço muitos dos personagens envolvidos, alguns deles muito bem aliás.

É inegável que as provas colhidas nas investigações revelam um gigantesco esquema criminoso encabeçado e guiado pelo PT. As bases de sustentação dos governos Lula e Dilma se fartaram com dinheiro grosso desviado da Petrobras. Não há dúvidas: o Partido dos Trabalhadores se corrompeu.
O esquema em que o PT se deliciou, é preciso dizer, não é novo: as empreiteiras, os doleiros e os burocratas são os mesmos que, há décadas, roubam em governos de direita e de centro. Os corruptores não têm ideologia.

Muitos petistas graúdos foram pegos com a boca na botija. Lula foi pego com a boca na botija.
O caso de Lula é, em particular, curioso. Ele cobrava por palestra US$ 200 mil (na cotação de hoje, R$ 704 mil), e sua agenda era cheia. Ou seja, ganhava uma fortuna por meios legais, porém enredou-se numa relação promíscua com grandes empreiteiras. Lula poderia, com o fruto de seu trabalho, ter comprado dezenas de sítios em Atibaia e dezenas de tríplex no Guarujá, mas preferiu render-se a um esquema de “agrados” inaceitáveis.

Lula se corrompeu. E precisa responder por isso na Justiça. (Como eu gostaria de ter uma conversa franca com Lula e ouvir dele uma explicação para ele ter se associado a alguns dos maiores corruptores do país…)
A bem da verdade, porém, é preciso dizer que Lula agiu do mesmo modo que Fernando Henrique Cardoso. Ao deixar a Presidência, FHC também se enredou em num esquema promíscuo com grandes empreiteiras que abarcava favores para membros de sua família e ocultação de patrimônio. Nesse ponto, Lula e FHC são farinha do mesmo saco.

Se é verdade que a Lava Jato mostrou que o Brasil está carcomido pela corrupção, é verdade também que a operação foi (e ainda é) conduzida de forma absolutamente seletiva, portanto viciada. Não é sério um juiz que vaza áudios de grampo em que um investigado que sequer é réu conversa com seu advogado. O nome disso é crime (as comunicações entre advogado e cliente são invioláveis). Não é sério um juiz que vaza o áudio de uma conversa íntima entre a nora de um investigado e um amigo dela, ou o áudio de uma conversa pessoal entre a mulher e o filho de um investigado, conversas que nada tinham a ver com a investigação. O nome disso é perseguição, linchamento moral.

Como juiz, Sérgio Moro se corrompeu. Tornou-se um justiceiro que se considera acima da lei. Assim como Lula, FHC, PT, PSDB, Odebrecht, OAS, Andrade Gutierrez, Moro precisa responder por seus desvios.
A Lava Jato tem outro defeito de origem. Foca apenas a corrupção praticada pela base do governo. É no mínimo escandaloso como as investigações deixam passar batido os corruptos de partidos de oposição. Quem em sã consciência acredita, por exemplo, que a Odebrecht, no mercado desde 1944, só fez parcerias criminosas com o PT e seus aliados? Quem engole a seletiva delação premiada dos executivos da Andrade Gutierrez, que por décadas foram associados ao PSDB e agora só se lembram das falcatruas cometidas no governo do PT?

Na Lava Jato, a PF, o MPF e a Justiça Federal tiveram grande competência ao se debruçarem sobre a corrução do PT, mas fecharam os olhos em relação à oposição. O alvo era Lula, e apenas Lula. Afinal, todos sabemos, Lula era um fortíssimo candidato à eleição presidencial de 2018.
A Lava Jato é uma operação contra a candidatura de Lula em 2018 e não um processo criminal de combate à corrupção. Se fosse diferente, as investigações também teriam como alvo Aécio Neves, citado diversas vezes nas delações premiadas mas jamais investigado.

O que explica que a maioria da população tenha abraçado a sanha anti-corrupção no PT, mas dê de barato as práticas corruptas dos adversários do PT? O que explica o ódio contra Dilma, uma presidente incompetente mas honesta, e a indiferença com o figura de Eduardo Cunha, detentor de contas não declaradas na Suíça, cujos recursos foram congelados por fortes suspeitas de terem sua origem em propinas da Petrobras? Resposta: a ação partidária de boa parte da mídia. De dia, de tarde e de noite, os brasileiros são bombardeados por propaganda anti-petista em jornais, TVs, rádios, revistas e portais da internet. O PT é pintado como um lobo mau cercado de chapeuzinhos vermelhos, vovós e valentes caçadores. A verdade, porém, é outra: não há heróis nessa história.

O nome disso é manipulação.

No campo da corrupção, o PT tem grandes pecados, mas também um mérito. Sob Lula e Dilma, o Estado pode finalmente investigar, denunciar e julgar corruptos e corruptores. Parafraseando Lula, nunca antes na história desse país isso tinha acontecido. O PT se corrompeu, è vero, mas nunca deixou de ser um partido republicano, nunca enquadrou a Polícia Federal, nunca calou o Ministério Público. Já os que querem o lugar do PT também se corromperam, mas nada tiveram de republicanos. Alguém imaginaria, por exemplo, que o procurador-geral da República de Lula ou de Dilma fosse chamada todo dia pela imprensa de “engavetador-geral da República”? Isso aconteceu com Fernando Henrique Cardoso. Alguém imaginaria numa administração do PT a existência de um esquema de mordaça do Ministério Público e da imprensa que impedisse o vazamento de qualquer notícia ruim. Isso aconteceu nos oito anos em que o tucano Aécio Neves governou Minas Gerais.

Hipocrisia é o nome do gesto dos que hoje manobram para tomar o poder do PT.
O que vamos assistir neste domingo nada tem a ver com a luta contra a corrupção. Trata-se da luta pelo poder – no caso da oposição, da luta dos que sempre estiveram envolvidos na corrupção, dos que nunca permitiram que a corrução fosse investigada, dos que não tiveram votos suficientes para serem eleitos em 2002, 2006, 2010 e 2014 e agora querem pegar um atalho na história para voltar ao Palácio do Planalto, e obviamente continuar operando com seus esquemas de corrupção.

E a presidente Dilma Rousseff? Qual o seu lugar nessa história? Bom, ela de fato se revelou de uma incompetência administrativa e de uma falta de compreensão da política ímpares. Dilma é uma péssima presidente. Porém, não há um único indício sequer, que dirá uma prova, de que ela seja corrupta. Entendo e me solidarizo com aqueles que contam os dias para que seu governo acabe. Porém, não posso aceitar que seu mandato seja interrompido antes do tempo regulamentar sem que haja prova de que ela tenha comedido crime de responsabilidade, condição cabal para o impeachment.

O impeachment é um instrumento radical. Tem potencial para deixar traumas políticos duradouros. Existe para casos extremos. E exige um motivo concreto: crime de responsabilidade. Em 1992, Fernando Collor sofreu impeachment porque cometeu crime de responsabilidade. Na época, descobriu-se que a reforma da casa que pertencia a ele e um carro de seu uso pessoal haviam sido pagos com dinheiro de fraude. Os recursos tinham saída de uma conta bancária aberta em nome de um “fantasma”, ou seja, uma pessoa que não existia. O nome disso é falsidade ideológica, ocultação de patrimônio, lavagem de dinheiro. É crime de responsabilidade. Já as pedaladas fiscais de Dilma (um recurso contábil ignóbil que é adotado como regra na administração púbica de A a Z no espectro político) pode ser considerado um desvio administrativo, mas nunca um crime de responsabilidade. Dilma é um desastre, mas, pelo que se viu até agora, depois de remexidas as entranhas de seu governo, não é corrupta. E se não é corrupta, se não cometeu crime de responsabilidade, o processo de impeachment é indevido. Em outras palavras, golpe de estado.

Há 31 anos, quando terminou a ditadura civil-militar, iniciamos um penoso período de transição democrática. Encontramo-nos ainda nesse período. Saímos da ditadura, mas ainda não alcançamos a democracia plena. Estamos em algum lugar entre uma coisa e outra. Muitos fatores impediram que terminássemos a viagem. Contudo, até pouco tempo atrás, pelo menos podíamos dizer que estávamos no caminho.

Neste domingo, 17 de abril de 2016, caso a Câmara dos Deputados aprove o início do processo de impeachment de Dilma sem que ela tenha cometido crime de responsabilidade, estaremos finalmente terminando a transição democrática. Não para conquistar a democracia plena, mas para voltar ao passado. Em todos os sentidos.

Michel Temer será um presidente sem legitimidade, terá chegado ao poder por meio de trapaça nas regras do jogo. E que ninguém se iluda: a corrupção continuará a grassar, pois os patrocinadores do impeachment, seja no campo dos que agora desembarcam do governo, seja no campo da oposição, são profissionais no desvio de verbas públicas.

O nome do impeachment é golpe de estado.


Neste domingo, o que está em jogo não é o combate à corrupção, mas sim a frágil democracia do Brasil.

https://lfigueiredo.wordpress.com/2016/04/16/domingo-17-de-abril-de-2016-uma-reflexao-sobre-o-brasil/ 

terça-feira, 12 de abril de 2016

O país do dedo em riste

IVAN MARTINS
23/03/2016 - 09h11 - Atualizado 30/03/2016 14h53

Tenho a impressão, por estes dias, que a minha vida privada está suspensa, esperando o desenlace da vida pública. Há coisas que eu deveria resolver, fazer, falar, ligar, mas simplesmente não dou conta. Espero por algo que não sei o que é. Parece que os sentimentos íntimos se tornaram reféns do que acontece em Brasília, em Curitiba, ou nas manchetes do jornal. A prioridade voltou-se para fora, abafando as questões de dentro. Enquanto isso, a ansiedade cresce em toda parte, entre todas as pessoas informadas, contaminando de tensão as conversas e invadindo os silêncios.
O Brasil virou o país do dedo em riste. É difícil escrever sobre afeto e relacionamentos enquanto ao meu redor floresce a intolerância. Outro dia, agrediram a filha de uma amiga minha e seu namorado, na avenida Paulista, porque ela pedalava uma bicicleta vermelha. A garota tem 18 anos e levou tapas e pontapés de uma turba alucinada, sob o olhar distraído de um policial. A intolerância verbal está se transformando em violência física. O incitamento ao ódio vai chegando ao seu desfecho natural.
Num universo assim polarizado, é fácil dividir o mundo entre os que concordam e os que discordam de nós. Deixei de falar com uma moça que andava me encantando depois que a vi dizendo coisas pesadas a favor do impeachment, no Facebook. Por causa desse assunto – e de Lula, Moro, Cunha – já discuti de forma exaltada com mais de um amigo. Outro dia, me peguei erguendo a voz ao telefone com a minha irmã. Uma estupidez. Agora, respiro fundo várias vezes ao dia para não deletar nas redes sociais pessoas que postam coisas opostas ao que eu penso. É duro conviver com o contrário quando as opiniões se radicalizam, mas talvez seja imprescindível.
Deve ser essa forma coletiva de agonia que os chineses antigos chamavam, ironicamente, de “tempos interessantes” - um inferno do qual a gente não consegue se esquivar. Liga a TV e a crise política está lá. Telefona para o amigo e ela aparece. Convida uma moça para sair, anda na rua, vai ao supermercado, e não há outro assunto. Uma hora você percebe que não vai se evadir. A discussão virá até você ainda que seja por baixo da porta, rastejando, como o fantasma de um filme de terror japonês. Melhor, então, informar-se e tentar ser parte da solução, não do problema.
Ontem, tive um momento de esperança ao ouvir o presidente Barak Obama discursar em Cuba. Depois de 56 anos de conflito, um presidente americano desembarcou na ilha de Fidel Castro como convidado, e fez um discurso maravilhoso. Exaltou as conquistas sociais e educacionais cubanas, elogiou o caráter altivo do seu povo, mas, ao mesmo tempo, defendeu o modelo americano de liberdades políticas e livre mercado. “Nós pensamos de forma diferente em muitas coisas”, disse Obama. “Mas, se vamos conviver como amigos, temos de falar sem hipocrisia”.
Essa frase cai como uma luva para o momento atual do Brasil. Mais que cubanos e americanos, nós, brasileiros, temos obrigação de nos entender minimamente, porque, ao contrário deles, compartilhamos o mesmo espaço geográfico e o mesmo destino. Não temos para onde correr. É nosso dever encontrar uma porta de saída para a crise estupenda em que nos metemos como país – e nada melhor para isso do que colocar as ideias na mesa, com educação e clareza.
É nesse espírito que eu quero falar das coisas que eu não acho razoáveis na cena política. Quem não concordar comigo, apresente a sua própria indignação. O essencial é manter o respeito e um mínimo de abertura mental. Num país que se encontra dividido como o nosso, é quase impossível que um grupo esteja totalmente certo e o outro inteiramente errado, não?
Vamos lá:
1. Não acho razoável que a presidente Dilma esteja sofrendo um processo de impeachment sem que haja contra ela uma evidência clara de crime, como prevê a Constituição. Estão tentando fazer um impeachment político, baseado na insatisfação da sociedade com a crise econômica e com a Lava Jato. Além de ser contrário a lei, esse artifício cria um precedente perigoso. Pode tornar frágeis os governos futuros. Não gostou, remove. Está em crise, tira. A jovem democracia brasileira não deve cair nessa armadilha, sob o risco de virarmos uma republiqueta instável.

2. Não acho razoável que no comando do processo de impeachment contra Dilma esteja Eduardo Cunha, político que está sendo julgado no Supremo por várias acusações de corrupção. As evidências contra ele se acumulam, na forma de gastos milionários no exterior e contas na Suíça, mas ele continua na presidência da Câmara, fazendo manobras diárias para tornar o impeachment possível. Cunha conta com o apoio dos que querem derrubar Dilma, e parece acreditar que se ela cair os seus próprios processos serão perdoados ou esquecidos. Algo de bom pode sair de uma barganha dessas?
3. Não acho razoável que Dilma e o PT sejam investigados até a medula enquanto seus adversários não são incomodados pela Justiça. Na operação Lava Jato, surgiram delações contra Aécio Neves sugerindo que ele teria em Furnas um esquema de corrupção similar ao que funcionava na Petrobrás, mas em benefício do PSDB. Por que não se investiga essa suspeita com rigor e com urgência? Corremos o risco de remover o PT do governo e colocar no seu lugar pessoas e partidos que fizeram a mesma coisa de que se acusa os petistas. Isso não teria cabimento. Com dois pesos e duas medidas não se faz um país melhor.
4. Não acho razoável que Lula ainda seja julgado pelo juiz Sergio Moro, que, por duas vezes, violou os seus direitos constitucionais. Primeiro, mandou conduzi-lo sob “condução coercitiva” (quer dizer, na marra, com show de polícia e de TV) para prestar depoimento, sem que Lula tivesse antes se negado a falar. A lei é bem clara quando diz que só pode ser levado à força quem se recusa a depor. Depois, o juiz divulgou um monte de conversas privadas de Lula ao telefone (inclusive com seu advogado, o que é gravíssimo), embora a lei proíba claramente, terminantemente, a divulgação de conversas grampeadas pela Justiça. Um juiz que por duas vezes violou a lei contra um cidadão não oferece a ele – nem à sociedade – a garantia de um julgamento isento. Que se troque o juiz ou se mande Lula ao Supremo, se ele vier a assumir o cargo de ministro. Todo mundo tem direito a um julgamento justo, mesmo o líder popular mais importante do país.
5. Não acho razoável o processo de demonização a que Lula tem sido submetido. Pedaços da imprensa passaram os últimos anos atacando o ex-presidente da maneira mais brutal, contribuindo para criar em torno dele uma camada de ódio que agora se tornou palpável. Isso não se justifica. Lula foi bom presidente por dois mandatos. Conduziu um período de prosperidade e harmonia, com todas as liberdades públicas. Mesmo agora, sob um raio-x incessante de investigações, o que se tem contra ele é relativamente pouco: a reforma, bancada por empreiteiras, de um sítio que talvez pertença à sua família; e a reforma de um apartamento que talvez viesse a ser adquirido por ele, também com o envolvimento de empreiteiras. Se vierem a ser provadas num julgamento isento, essas acusações podem destruir a carreira política de Lula e talvez ameaçar a sua liberdade. Mas certamente não o transformam num monstro de múltiplas cabeças que precisa ser destruído a qualquer custo, com ou sem o amparo da lei.
6. Não acho razoável que a violência se instale no discurso e na prática política brasileiros. Isso foi deixado para trás quando o país emergiu da ditadura. As pessoas não podem dizer que “petistas têm de morrer”, como se tem ouvido ultimamente. Isso é crime, assim como são criminosas as agressões que se multiplicam por aí contra pessoas vestindo a cor errada. Me contaram ontem que um rapaz levou uma pedrada na cabeça em Brasília porque estava na rua com uma gravata vermelha. No sábado, um conhecido me disse que levou uma bofetada de um homem idoso porque estava distribuindo panfletos contra o impeachment, em São Paulo. Violência atrai violência e quando essas coisas começam ninguém sabe onde vão parar. Melhor que não comecem.
Era isso que eu tinha a dizer.
Ah, mais uma coisa: no sábado passado, fui com uma amiga assistir no Sesc Belenzinho, aqui em São Paulo, ao show de Tiganá Santana, um jovem músico baiano de talento e elegância enormes. Antes de começar a cantar, ele pediu a atenção do público para dizer umas palavras em favor da tolerância. Sugeriu que nestes tempos difíceis as pessoas tentassem ser sábias e justas, que evitassem reproduzir no Brasil os erros monumentais dos séculos XX e XXI, cujas consequências se veem no mundo todo. Eu aplaudi no teatro, assim que ele terminou de falar, e aplaudo novamente agora. Este texto foi escrito no espírito que Tiganá sugeriu.

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2016/03/o-pais-do-dedo-em-riste.html