sexta-feira, 8 de novembro de 2013

O cúmulo da ousadia: a mãe queria ser a primeira

ISABEL CLEMENTE
03/11/2013 10h07 - Atualizado em 05/11/2013 16h46

O plano estava traçado e, em tese, parecia simples. Precisava apenas colocá-lo em prática. Muitas mulheres já tinham feito isso antes dela. Nem precisava de tanta coragem assim, vai. A bem da verdade, ela não conhecia nenhuma história parecida, mas queria acreditar nelas. A utopia é a arma dos fortes e a audácia, a antesala do ineditismo. É só agir naturalmente, pensou, e bateria seu próprio recorde.
Ensaiava a semana toda diante do espelho sua estratégia subversiva. Estava prestes a pecar, disse para si mesma, sorrindo com o canto da boca. Ela levantaria calmamente, olharia um a um e diria “boa noite, boa noite e boa noite“, com aquele jeito Julie Andrews. E, naquela noite, ela seria a primeira a dormir.
Pensando bem, fora de uma canção, ninguém diz três “boa noites“ sem gerar comoção, algazarra e gritaria. Soaria como provocação e o resultado óbvio seriam crises, choros, crianças repentinamente carentes e marido inesperadamente irritado.
Melhor não chamar a atenção. Levantaria em silêncio absoluto, como quem vai buscar um copo d`água na cozinha e não voltaria mais. Simples assim e sem avisar, com sobrancelhas levemente arqueadas a la Greta Garbo para reforçar o ar de sua determinação. Riu sozinha e alto. Até todo mundo se dar conta, ela estaria dormindo, ancorada num sono profundo e restaurador. Missão cumprida com louvor. Talvez eles ficassem comovidos pensando “ela deve estar mal mesmo, melhor deixar“. E ficariam todos em silêncio obsequioso, velando o cansaço da mamãe.
Mas havia uma hipótese plausível e perigosa. Alguém suspeitaria de ato tão sub-reptício e, nas melhor das intenções, chegaria perto perguntando “mamãe, você tá bem?“ Daí mamãe teria que acordar para responder que "sim, estou viva, obrigada, meu bem", e já era.
Talvez fosse melhor sair da sala dando uma desculpa.“Vou ali no quarto buscar um livro e já volto“. O “já volto“ deixaria os filhos e o marido ocupados com uma satisfação vaga enquanto ela mudaria a camisola, escovaria os dentes, apagaria a luz, fecharia a porta e deitaria para dormir. Havia um risco embutido nessa estratégia também. Distraídos, deixariam o tempo passar e sem mamãe dizendo que é hora de dormir e encerrar a brincadeira, ninguém se daria conta do que precisava fazer. A hora avançaria impiedosa trazendo cansaço e irritação para dentro de casa. O pai ia tentar abreviar o ritual do sono, crianças bateriam o pé insistindo em lanchinhos, para depois escovar dentinhos, limpar bumbumzinhos, mudar roupinhas, contar historinhas e a crise estaria instalada. Péssima ideia, péssima ideia.
E se ela simplesmente admitisse com a maior naturalidade? Gente, estou muito cansada, não estou a fim de esperar vocês dormirem, nem de dar lanche, resolver conflitos, elaborar cardápios, escovar os dentes, contar história, fazer massagem, trazer água, apagar a luz, levar ao banheiro, apagar a luz de novo. Hoje não, tá bom? Só hoje...Preciso dormir neste exato momento e o exato momento acabou de passar. Viram só? Hoje vocês se viram sem mim, né? Não posso ouvir miado, chilique, resmungo, chorinho, choradeira, criança implorando, beijinho...nada". 
Restaria ao marido referendar o discurso e, às crianças, colaborar, sem protestar.
O espelho lhe dizia, porém, que essa sonhada reação da família era um tanto improvável.
E se ela se levantasse, desse um beijo em cada uma das crianças e sussurrasse no ouvido delas assim “tenho um plano"? Eu vou me esconder embaixo das cobertas e ninguém fala nada. Quando papai perguntar, vocês dizem "mamãe está dormindo há muito tempo, ué".
Criança adora ser cúmplice de travessura. Dormir antes de todos seria a suprema travessura da mamãe. Daí o pai seria o único a não ser avisado com antecedência. As meninas seriam compreensivas e facilitariam todo o procedimento do sono. Ele nem notaria a ausência da mulher. 
Sonhando acordada, voltou a encarar o espelho procurando uma solução mais plausível, mais natural pelo menos. 
E se ela avisasse ao marido, companheiro e cúmplice de toda a história? Faria a pior cara de cansaço do mundo para suscitar pena? Não. Falaria logo irritada para mostrar que não tem negociação? Faria uma cara boazinha como quem dá uma informação irrelevante?
“Não esquece de oferecer um lanchinho. beijo“. 
Tudo bem simples, tudo natural, como na velha canção?
Também não.
Decidiu ser direta e solene. Sem intimidade, ficaria mais fácil, apostou. E discursou como se estivesse em cadeia nacional: 
“São 21 horas, horário de Brasília, e percebo que nenhuma das crianças está com pinta de que vai dormir tão cedo. Diante dessa situação incontornável, anuncio que vou me deitar. Não quero ser seguida por quem quer que seja. Apertem o botão de unfollow neste minuto. Não venham tirar dúvidas comigo, a não ser que seja um caso de vida ou morte. O uso da suíte está suspenso a partir de agora porque o barulho da porta pode me acordar. Não gostaria de ouvir chuveiro, descarga, gritos, choros, gargalhadas meu nome ou minha alcunha nem em sussurro, porque sussurros, descargas e chuveiradas me acordam. Tenho o sono leve e, se eu não conseguir descansar, terei um piripaque ou quem sabe até um treco. Piripaques e trecos podem transformar uma doce mãe num monstro horroroso. Nenhum de vocês gostaria de encarar esta figura verde diariamente. É inaceitável que eu tenha atingido este estado de fadiga. Desta forma, espero que respeitem minha decisão, soberana, individual, mas capaz de beneficiar a coletividade em muito pouco tempo. Vocês notarão uma melhora geral no meu estado de espírito e no meu humor logo pela manhã. Tenho um altíssimo poder de regeneração. Só peço uma chance. Grata pela atenção e pela compreensão de todos vocês. Boa noite“.
Surpresos, crianças e marido ficaram em silêncio absoluto e a mãe dormiu feliz, umas dez horas seguidas e, mesmo dormindo demais, acordou sem dores de cabeça, nas costas ou no pescoço. Um milagre. 
Agora a vida como ela é.
Passava das oito da noite e eu disse inesperadamente como quem teve uma ideia inédita.
“Já sei! Vou dormir“.
Como se tivesse ouvido uma piada, meu marido gargalhou. A filha mais velha, que não me levou a sério, comentou para si mesma “até parece“. Impávida, como quem diz “me aguardem“, rumei para o quarto. Fechei a porta, apaguei a luz e me joguei de roupa e tudo na cama como um soldado ferido de guerra. Sem banho ou jantar. Respirei fundo. Senti o lençol abraçando meu corpo, o colchão se moldando à minha alma. Todos os meus músculos disseram "aaaahh..." e um estranho silêncio se fez. Por pouco tempo. Em minutos, ouvi gritos, correria, brigas de meninas, criança chamando do banheiro, criança acabou de fazer algo no banheiro, caramba, ninguém vai limpar? O pai gritou que estava a caminho e eu percebi que ninguém tinha me levado a sério. A confusão do lado de fora não era compatível com meus planos. De repente, a porta do quarto foi escancarada, um faixo de luz entrou junto com uma pequena criatura de 4 anos que chegou bem perto do meu rosto e ficou me observando na penumbra, tentando identificar meus verdadeiros sentimentos. Senti seu hálito infantil. 
“Mamãe?“ - ela sussurrou.
Silêncio.
"Mamãe?" - disse a criança, elevando o tom e respirando bem perto de mim. 
“Ma-mãe?“ - disse, impaciente.
Silêncio.
“MAMA-NHE!!!“ - gritou, tentando abrir meu olho com os dedinhos.
“Estou dormindo“, resmunguei.
“Mamãe, deixa de bobeirinha“.
Eu sabia. Era ousadia demais.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Os chavões mais influentes da República

LUÍS ANTÔNIO GIRON
07/11/2013 08h24 - Atualizado em 07/11/2013 08h31

O chavão é o ácido sulfúrico da língua. Ele desfigura a dignidade das palavras até torná-las imprestáveis. O processo do surgimento do chavão no uso cotidiano é mais rápido que percepção das pessoas possa captar – e que a vã teoria política pode imaginar. A vida política – do poder e do contrapoder, para usar a distinção do sociólogo espanhol Manuel Castells – consiste no maior aterro sanitário de palavras desgastadas e inócuas disfarçadas de retórica persuasiva.
Em 2013, os políticos e manifestantes brasileiros produziram toneladas de entulho verbal. Se o modelo da democracia está desmoralizado, muito se deve à linguagem vazia e aos clichês que só servem para encobrir ou distorcer a verdade. Elaborei uma lista dos 20 chavões mais influentes do ano. Influentes menos porque são importantes, mas porque foram produzidos por cidadãos importantes. Nós fomos, portanto, obrigados a ouvir o que eles disseram. O chavão está no poder. O pior é que, se o poder for derrubado, o chavão vai voltar ao palanque como se nada tivesse acontecido. No país da mediocridade, o lugar-comum vence todas as eleições.
Aliança programática – A curiosa associação do governado Eduardo Campos (PSB) com a líder ecológica Marina Silva foi batizada com um dos clichês mais saborosos da temporada. A “aliança programática” desafia a lógica e demonstra que a união de elementos contraditórios. Num ato falho, Marina chamou-a também de “aliança pragmática”. Exemplo: “Marina e eu formamos um aliança programática para mudar o Brasil”.
Autoralidade – É bonito o deputado falar que seu programa de metas tem “autoralidade”. As velhas palavras “autoria” e “autoridade” parecem ter perdido o verniz. A autoralidade de um projeto soa mais nobre que a autoria e, ao mesmo tempo, indica autoridade. “O governador mostrou autoralidade no seu programa de metas.”
Bom Senso – Um grupo de jogadores de futebol criou um movimento para protestar contra o excesso de jogos nos campeonatos do Brasil, a que denominou “Bom Senso Futebol Clube”. Mas o bom senso parece também encobrir outros objetivos, como justificar decisões truculentas ou lunáticas. “Com a atenuação das penas no processo do Mensalão, o bom senso irá prevalecer”.
Caso emblemático – Nos dias de hoje, nenhum discurso no Congresso Nacional pode ter credibilidade – e autoralidade – se não contiver a expressão: “caso emblemático”. O emblema do caso fornece credibilidade ao assunto tratado. “O Mensalão é um caso emblemático na história da corrupção da República.”
Clamor das multidões – É o caso de um antigo chavão que voltou a ser usado tão logo a população invadiu as ruas para protestar no país inteiro a partir de junho. Os políticos ficaram de orelha em pé e arranjaram uma maneira de ficar bem com seus possíveis eleitores. “Precisamos ouvir o clamor das multidões”.
Consultoria – Se você adotar um vereador e escrever a ele para “consultá-lo”, terá cometido um escorregão de etiqueta. Não existe mais consulta, e sim consultoria. As pessoas não dão consultas, elas “prestam consultoria”. “Consultoria” é uma palavra tão popular que passou a ser usada até em consultório médico. “Eu gostaria de marcar uma consultoria com o doutor Sérgio.” Ou: “Será que posso agendar uma consultoria com o vereador Bastos?”
Contabilidade criativa – A expressão do economista Delfim Netto para definir os métodos heterodoxos que o governo forjou para fazer equilibrar suas contas se tornou um clichê instantâneo – e útil. Hoje, qualquer tecnocrata ou governante oportunista adota a contabilidade criativa para qualquer fim. “Para atingirmos nossa meta no superávit primário, lançaremos mão da contabilidade criativa”. 
Diferenciado, diferencial – A frase “fulano é um político diferenciado” , “juiz diferenciado”, “governador diferenciado” tem que conquistar a mente e a alma dos eleitores. A inauguração de uma grande obra por algum governante não pode ser “diferente”. Em vez disso, ela tem de ter um diferencial. “Diferença” caiu de moda. “O diferencial do governo Dilma é que suas obras têm caráter social”. 
O gigante acordou” – Podemos tirar este tremendo chavão da cornucópia de bobagens que as multidões gritou nas ruas nos protestos que “varreram o país” (outro chavão). Muita gente começou a celebrar o fato de que o Brasil, na figura do gigante adormecido do Hino Nacional, estava começando a despertar. Mas, pelo jeito, ele só se espreguiçou em junho para emendar na soneca de agosto. “O povo tomou as ruas – e o gigante acordou!” 
 
Governança – Eis um termo em moda total. Há a tal “governança corporativa”, há a “inovação na governança” e mesmo a “governança responsável”. Não há diferença no emprego diário entre os vocábulos “governança”, “governo” e “governabilidade”. Os três significam rigorosamente a mesma coisa: nada. “Em benefício da governança pública, é preciso restaurar o pacto da governabilidade”. Seja lá o que o pacto signifique, soa bonito, sobretudo se ele teve autoralidade.
A intimidade é inviolável” – O grupo Procure Saber começou a desgastar essa frase ao defender a censura prévia às biografias não-autorizadas em nome do “direito à privacidade”, para pressionar os políticos a não aprovarem a lei que libera os autores a escrever biografias com liberdade. A frase pode ser lida assim: “Não somos censores. Queremos royalties pelo uso de nossa imagem e do nossos nomes”. 
Manifestação pacífica – Foi um clichê que se tornou inócua no instante em que a primeira manifestação aconteceu, com a presença de grupos de baderneiros, como os Black-blocks e os Anonymous. Daí nasceu um clichê do clichê: “A manifestação começou pacífica e terminou em quebra-quebra”.
Mobilidade urbana – Expressão usada por nove entre dez ongueiros e prefeitos que querem dar um verniz de contemporaneidade a projetos de reformulação do trânsito nas grandes cidades. Em geral, quando um prefeito diz que vai dar ênfase à mobilidade urbana, ele enche as ruas de corredores de ônibus e dá às incorporadoras o direito de construir torres gigantescas ao longo das avenidas. A “mobilidade rural”, apesar de existir em tese, não faz parte do radar dos prefeitos. “Quero privilegiar a mobilidade urbana nos locais de maior circulação de trânsito”. 
“No que se refere...” – A presidente Dllma Rousseff tem usado com tanta insistência a expressão, que ninguém mais consegue pensar que ela não seja de autoria (ou autoralidade) dela. Hoje, em Brasília, o cordão dos puxa-sacos adotou-a para fazer suas palestras ou mesmo bater papo nos restaurantes. “No que se refere à cidadania e à sociedade civil, temos segurança em dizer que a camada do pré-sal é sustentável”. 
 
Prospectar – Antigamente o verbo indicava o ato de se sobressair ou de procurar algo. Mas ganhou nobreza e popularidade quando o governo começou a prospectar a camada do pré-sal. A palavra, porém, foi se desgastando. O empresário Eike Batisa, por exemplo, prospectou jazidas de petróleo na Bacia de Campos e, quando não achou nada, enfureceu seus investidores; eles provavelmente não querem mais ouvir falar da palavra “prospectar”. Hoje o verbo é usado para os mais variados objetivos. Os lobbistas gostam de prospectar cenários positivos para suas ações. Políticos prospectam currais eleitorais. “Os headhunters prospectam talentos para o RH”.
Pacificar – Esse verbo ficou famoso com as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) do Rio de Janeiro, e invadiu outros registros de linguagem. Hoje, uma favela pode ser pacificada, assim como um partido, uma mulher descontrolada no trânsito ou um casal em divórcio litigioso. “Tenho certeza de que José Serra será pacificado quando lhe oferecermos a possibilidade de se candidatar ao Senado”.
Pôr em perspectiva – Nenhum político, consultor ou palestrante para gerentes corporativos analisa ou interpreta alguma coisa. Eles colocam algo em perspectiva. O que quer dizer isso, nem mesmo eles sabem. “Sinalizando uma tendência, vamos por a questão da cidadania sustentável em perspectiva”. 
Precificar – Não há mais preço, e sim precificação. Você pode precificar uma obra para participar de uma licitação ou um leilão, precificar um garoto ou uma garota de programa ou precificar um modelo de geladeira em várias lojas. Em muitas autarquias, o lema é o seguinte: “Todo homem não tem um preço. Tem uma precificação.”
Sustentabilidade – Eis um chavão que se tornou um arquiclichê, tão desgastado foi pelos ambientalistas e principalmente pelos detratores da ecologia, que fizeram questão de usar a expressão ad nauseam. A sustentabilidade pode ser usada em todas as situações, até nas insustentáveis. Exemplo: “A Rede Sustentabilidade possui assinaturas suficientes para uma candidatura sustentável de Marina Silva.
 “Vamos investigar todas as fraudes” –  Eis aí uma declaração-valise de grande impacto que todos os governantes e políticos brasileiros utilizam, com o adendo: “doe em quem doer”. Quanto a por em prática, a história é outra. Em geral, ela significa o contrário do que propõe. 

Luís Antônio Giron escreve às quintas-feiras

Eu!

Suponha que eu estivesse bêbado, na França, com amigos e encontra-se uma lhama! 

Faria o mesmo!!


Bem isso!

Meu passado me condena

Sem comentários pra fase "Triton"


quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Por Guimarães Rosa

"O mundo do rio não é o mundo da ponte"

"A colheita é comum mas o capinar é sozinho"

Juro

Não tenho mais saco pra pós!