Afeto e desejo são sentimentos gêmeos. Em alguns momentos da existência eles se ignoram, em outros parecem inseparáveis. Na vida dos homens, mais do que das mulheres, eles são como rios paralelos que às vezes se esbarram, mas raramente se encontram. Por isso é tão mais difícil para os homens encontrar prazer e sentimentos duradouros. Por isso não conseguem estar inteiros nas relações – porque vivem divididos por dentro.
Acho que essa dificuldade explica parte das contradições que os homens exibem o tempo inteiro. “Ele disse que estava apaixonado, mas logo depois mostrou que não estava”: era o desejo falando, sem o amparo duradouro do sentimento. “Ele foi embora, mas voltou logo depois, dizendo que me amava”: o corpo da outra precisou estar ausente para o sujeito perceber os próprios sentimentos. “Ele parecia tão interessado quando eu não queria, depois que eu me apaixonei ele sumiu”: o desejo enlouquece com o que ainda não tem, e pode se cansar rapidamente depois de saciado. Afetos são mais constantes e duradouros.
Nenhum desses comportamentos é exclusivamente masculino, mas eles são mais visíveis nos homens – embora a gente escute reclamações, cada vez mais frequentes, de que as mulheres estão agindo de forma igualmente egoísta e superficial. Num mundo ordenado cada vez mais profundamente pela lógica da posse e do consumo, ninguém está imune a se portar como colecionador serial de corpos e pessoas descartáveis. Pode ser, mas o convívio sugere que mulheres ainda são mais atentas aos próprios sentimentos, e que eles falam mais de perto com as sensações delas de prazer.
Dou um exemplo: mesmo homens maduros podem se descobrir à beira de um colapso nervoso ou de uma depressão enquanto se relacionam, simultaneamente, com um bando de mulheres. O sujeito está péssimo, mas continua ali, tentando resolver sua angústia num mar de... mulheres. É mais difícil achar uma mulher numa situação dessas. Mesmo aquelas que poderiam abusar do corpo ou do carisma agem de outra forma. Uma rápida peneira afetiva faz com que o bando de candidatos ou fiquetes seja reduzido a um (ou dois) que tenham significado emocional. O resto dança. As mulheres são menos propensas a se perder num mar de corpos. Os homens, para o bem e para o mal, parecem às vezes ter nascido para isso - ainda que os corpos sejam somente imaginários.
Outro dia, uma aluna de jornalismo que está fazendo um trabalho de conclusão de curso me fez a pergunta de um milhão de reais: o que é o amor para você? Na hora, claro, eu respondi bobagens prolixas. Horas depois me ocorreu uma resposta mais simples, que tem a ver com o assunto do qual estamos tratando. Amor é foco. Amar é sentir que a vida se condensa em torno de um sentimento e de uma pessoa, e por isso se torna deliciosamente simples, tanto quanto intensa. As dúvidas e os problemas recuam para o segundo plano. O tédio, o medo, a confusão se dissolvem num grande sentimento claro e límpido. Ele é como o facho de luz que atravessa uma lente e se transforma, do outro lado, num único ponto rutilante.
Essa definição de amor significa o contrário da multidão de corpos. Ela é sinônimo de escolha e singularização. Talvez por isso seja difícil de atingir, e ainda mais difícil de manter. O desejo que se desloca de um corpo para outro, sem passar pelo filtro rigoroso e constante do afeto, é o contrário da seleção. Ele não implica em renúncia nenhuma, e talvez não leve a lugar algum.
Não sei se o desejo inquieto dos homens algum dia será coletivamente diferente, mas, pessoalmente, individualmente, ele muda. Com o passar do tempo, cresce de maneira imperceptível a vinculação entre sentimento e desejo na vida dos homens. O sujeito não se torna necessariamente mais constante, mas o desejo dele começa a ser subordinado a critérios que as mulheres talvez reconheçam, por serem afetivos – ele deseja quem conhece melhor, deseja mulheres de quem gosta. Aquela dona escultural de quem ele nem sabe o nome é uma delícia, mas não é com ela que ele sonha embaixo do chuveiro. O desejo profundo passa a incluir formas de intimidade e acolhimento. Continua volátil, ainda insiste em ser voraz, mas cada vez está mais vinculado aos afetos. Os rios do amor e do desejo cuidadosamente se aproximam. Talvez uma vida não seja suficiente para que se juntem, mas quem realmente sabe?
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)
http://revistaepoca.globo.com/Sociedade/ivan-martins/noticia/2012/10/os-rios-dentro-de-nos.html
Economista que não economiza em palavras... Porque mesmo sem motivo eu gosto de falar.
quarta-feira, 31 de outubro de 2012
domingo, 28 de outubro de 2012
Tão típico
Sair de Beaga com aquele calor insuportável e chegr em SP com chuva, vento e frio.
Detalhe: aeroporto fechado por mais de uma hora, espera de 40min sobrevoando Campinas.
:/
Detalhe: aeroporto fechado por mais de uma hora, espera de 40min sobrevoando Campinas.
:/
sexta-feira, 26 de outubro de 2012
Meta outstanding
Mais um livro pra meta! A menina que brincava com fogo, da coleção millenium. Agora só falta o terceiro!
quarta-feira, 24 de outubro de 2012
Nicole e os sodomitas
É duro dizer não aos fetiches masculinos
IVAN MARTINS
A gente nunca sabe se as declarações das celebridades são sinceras ou se têm apenas o objetivo de atrair atenção e causar reboliço na imprensa. Feita essa ressalva gigante, fiquei impressionado ao ler na internet a entrevista da modelo Nicole Bahls, na semana passada. Com franqueza incomum, ela explicou a um repórter que seus namorados a trocam por outras mulheres porque – em suas próprias palavras - ela não gosta de “dar o bumbum”. “Tem um monte de mulher por aí fazendo isso”, ela disse. “Como eu não gosto de dor, perco o namorado.”
Bonita e famosa como é, suspeito que Nicole não tenha dificuldade em substituir os malvados sodomitas que de maneira tão insensível a deixam na fila. Acho, também, que embora seja inevitável rir desse de assunto, ele é sério. Constitui um problema de relacionamento que incomoda milhões de mulheres brasileiras. Nunca vi uma estatística, mas pressinto que boa parte das amantes, namoradas e esposas deste país precisam driblar, diariamente, a mesmíssima insistência vivenciada por Nicole: homens lascivos querendo fazer sexo anal. Nelas. Diante da pressão, as moças recusam ou ganham tempo. De vez em quando, um fetichista impaciente vai embora. Acho que essa forma de pecado dolorosa deve ser a segunda principal questão na vida dos nossos casais. A primeira, claro, é quem lava a droga da louça.
No passado, mulheres como Nicole poderiam proteger seu patrimônio invocando a lei. Por inspiração do império britânico, onde reinava a chatíssima rainha Vitória, a sodomia foi proibida em quase toda parte no século XIX, junto com outras formas de perversão como bestialismo e... o sexo oral. Conhecidas como Leis da Sodomia, essas proibições tinham a intenção principal de impedir homens gays de fazerem sexo entre si, mas se aplicavam também a casais heterossexuais. No mundo anglo-saxão, que influenciava o comportamento oficial da elite no resto do planeta (sempre houve o comportamento paralelo), qualquer forma de sexo que não fosse reprodutivo era considerada antinatural. Os últimos 15 estados americanos a abolir as Leis da Sodomia o fizeram em 2003. Isso é ontem em termos de história.
As primeiras sensações Sentimentos demais Pornografia de verdadeOrgasmão e orgasminhoA moda dos bichosOs homens que odeiam as feministas O escândalo das vaginasCom a ajuda dos amigosO conforto do outroAmores clandestinosGarota Sputnik Noites de invernoSincericídioComo dizer adeus Afinidades essenciaisDormir de conchinhaQuem é o pai? Alma de cornoOs traficantes do amorSurra de cama Casos inacabadosComo agora não existem mais proibições legais, tudo o que acontece no mundo do sexo pode ser livremente negociado no interior dos casais. E aí é que a coisa aperta. A cultura masculina brasileira é profundamente fetichista. Não basta olhar a bunda da mulher, é preciso tomar posse dela. Quanto mais linda a paisagem, maior a exigência de corrompê-la. Essa lógica de posseiro é tão centrada no desejo masculino que ignora a anatomia e a cabeça das mulheres. Algumas simplesmente não têm condição física de acomodar o prazer masculino. O esfíncter não é igual em todas elas, assim como os homens brasileiros, beneficiados pela miscigenação, são enormemente desiguais entre si. Tamanhos, neste caso, são os documentos essenciais da negociação.
Há também a questão psicológica. Muitas mulheres não sentem prazer anal. Outras não suportam nem a ideia de sexo nesse compartimento. Têm nojo, repulsa, sei lá. Sendo homens, tendo a resistência que temos a ser tocados no local em que a mamãe passou talquinho, não deveríamos estranhar essa objeção. Mas estranhamos. Crescemos ouvindo na sala de casa, daquele tio simpático e depravado, que não há nada mais gostoso que submeter uma mulher à retidão da nossa fantasia – e que ela, embora chore como se estivesse sendo machucada, adora. Movidos pela nossa luxúria, nos recusamos a acreditar que as mulheres realmente não gostam ou não querem “dar o bumbum”. Tendemos a achar, lá no fundo, que a resistência delas é uma espécie de trava emocional, uma neurose, um defeito de software que um dia, com muita persistência, será consertado na conversa. Ou na marra.
É preciso admitir que a fabulosa lenda do sexo anal tem dois pés na realidade. Um são as mulheres que realmente gostam dessa modalidade de prazer. Elas existem e nem são tão poucas. Movem-se com discrição entre os homens e entre as próprias mulheres porque a nossa moral sexual condena tudo aquilo que secretamente exalta. As moças sodomitas têm vergonha e sabem que podem ser discriminadas por moralistas e por feministas. Quando um homem esbarra numa delas, às vezes de forma totalmente inesperada, descobre logo de cara que aquele tio pervertido era um idiota – quando elas gostam, a dor não é parte importante do processo. O prazer se faz com jeito e delicadeza masculinas.
O outro pé da lenda é dado pelas mulheres que cedem, embora não gostem. Elas também são muitas. O marido insiste há tanto tempo, a relação anda meio morna, então vai lá – qualquer coisa para ver os olhos do sujeito brilhando de novo. Com o tempo elas se acostumam. Ou então há o medo de perder, medo de que o cara – como diz Nicole Bahls – vá buscar por aí o que não tem em casa. Neste caso, elas tomam um pilequinho, ou acendem um cigarrinho, e meio anestesiadas torcem para que o sujeito termine logo.
As feministas dirão que isso é um horror, mas a verdade é que as pessoas fazem muita coisa desprazerosa pelo outro. Elas suportam nove meses de gravidez, por exemplo. Ou cozinham e fazem faxina quando gostariam de se atirar no sofá. Os homens trabalham em empregos horrendos por anos a fio, 10, 12, 13 horas por dia, para manter a casa e a família. Quando alguém cai doente, o outro cuida, embora seja chato. Todas essas coisas são feitas, ao menos em parte, por amor. Muito na nossa vida envolve sacrifício. Eu não quero sugerir com isso que as mulheres tenham de ceder ao desejo dos seus homens e virar de costas apenas porque gostam dele. Mas acredito que se elas decidirem fazer isso terão suas razões. Assim como estarão inteiramente corretas se disserem não. É o corpo delas. É o bumbum delas. Talvez não exista nada mais íntimo e pessoal.
IVAN MARTINS
A gente nunca sabe se as declarações das celebridades são sinceras ou se têm apenas o objetivo de atrair atenção e causar reboliço na imprensa. Feita essa ressalva gigante, fiquei impressionado ao ler na internet a entrevista da modelo Nicole Bahls, na semana passada. Com franqueza incomum, ela explicou a um repórter que seus namorados a trocam por outras mulheres porque – em suas próprias palavras - ela não gosta de “dar o bumbum”. “Tem um monte de mulher por aí fazendo isso”, ela disse. “Como eu não gosto de dor, perco o namorado.”
Bonita e famosa como é, suspeito que Nicole não tenha dificuldade em substituir os malvados sodomitas que de maneira tão insensível a deixam na fila. Acho, também, que embora seja inevitável rir desse de assunto, ele é sério. Constitui um problema de relacionamento que incomoda milhões de mulheres brasileiras. Nunca vi uma estatística, mas pressinto que boa parte das amantes, namoradas e esposas deste país precisam driblar, diariamente, a mesmíssima insistência vivenciada por Nicole: homens lascivos querendo fazer sexo anal. Nelas. Diante da pressão, as moças recusam ou ganham tempo. De vez em quando, um fetichista impaciente vai embora. Acho que essa forma de pecado dolorosa deve ser a segunda principal questão na vida dos nossos casais. A primeira, claro, é quem lava a droga da louça.
No passado, mulheres como Nicole poderiam proteger seu patrimônio invocando a lei. Por inspiração do império britânico, onde reinava a chatíssima rainha Vitória, a sodomia foi proibida em quase toda parte no século XIX, junto com outras formas de perversão como bestialismo e... o sexo oral. Conhecidas como Leis da Sodomia, essas proibições tinham a intenção principal de impedir homens gays de fazerem sexo entre si, mas se aplicavam também a casais heterossexuais. No mundo anglo-saxão, que influenciava o comportamento oficial da elite no resto do planeta (sempre houve o comportamento paralelo), qualquer forma de sexo que não fosse reprodutivo era considerada antinatural. Os últimos 15 estados americanos a abolir as Leis da Sodomia o fizeram em 2003. Isso é ontem em termos de história.
As primeiras sensações Sentimentos demais Pornografia de verdadeOrgasmão e orgasminhoA moda dos bichosOs homens que odeiam as feministas O escândalo das vaginasCom a ajuda dos amigosO conforto do outroAmores clandestinosGarota Sputnik Noites de invernoSincericídioComo dizer adeus Afinidades essenciaisDormir de conchinhaQuem é o pai? Alma de cornoOs traficantes do amorSurra de cama Casos inacabadosComo agora não existem mais proibições legais, tudo o que acontece no mundo do sexo pode ser livremente negociado no interior dos casais. E aí é que a coisa aperta. A cultura masculina brasileira é profundamente fetichista. Não basta olhar a bunda da mulher, é preciso tomar posse dela. Quanto mais linda a paisagem, maior a exigência de corrompê-la. Essa lógica de posseiro é tão centrada no desejo masculino que ignora a anatomia e a cabeça das mulheres. Algumas simplesmente não têm condição física de acomodar o prazer masculino. O esfíncter não é igual em todas elas, assim como os homens brasileiros, beneficiados pela miscigenação, são enormemente desiguais entre si. Tamanhos, neste caso, são os documentos essenciais da negociação.
Há também a questão psicológica. Muitas mulheres não sentem prazer anal. Outras não suportam nem a ideia de sexo nesse compartimento. Têm nojo, repulsa, sei lá. Sendo homens, tendo a resistência que temos a ser tocados no local em que a mamãe passou talquinho, não deveríamos estranhar essa objeção. Mas estranhamos. Crescemos ouvindo na sala de casa, daquele tio simpático e depravado, que não há nada mais gostoso que submeter uma mulher à retidão da nossa fantasia – e que ela, embora chore como se estivesse sendo machucada, adora. Movidos pela nossa luxúria, nos recusamos a acreditar que as mulheres realmente não gostam ou não querem “dar o bumbum”. Tendemos a achar, lá no fundo, que a resistência delas é uma espécie de trava emocional, uma neurose, um defeito de software que um dia, com muita persistência, será consertado na conversa. Ou na marra.
É preciso admitir que a fabulosa lenda do sexo anal tem dois pés na realidade. Um são as mulheres que realmente gostam dessa modalidade de prazer. Elas existem e nem são tão poucas. Movem-se com discrição entre os homens e entre as próprias mulheres porque a nossa moral sexual condena tudo aquilo que secretamente exalta. As moças sodomitas têm vergonha e sabem que podem ser discriminadas por moralistas e por feministas. Quando um homem esbarra numa delas, às vezes de forma totalmente inesperada, descobre logo de cara que aquele tio pervertido era um idiota – quando elas gostam, a dor não é parte importante do processo. O prazer se faz com jeito e delicadeza masculinas.
O outro pé da lenda é dado pelas mulheres que cedem, embora não gostem. Elas também são muitas. O marido insiste há tanto tempo, a relação anda meio morna, então vai lá – qualquer coisa para ver os olhos do sujeito brilhando de novo. Com o tempo elas se acostumam. Ou então há o medo de perder, medo de que o cara – como diz Nicole Bahls – vá buscar por aí o que não tem em casa. Neste caso, elas tomam um pilequinho, ou acendem um cigarrinho, e meio anestesiadas torcem para que o sujeito termine logo.
As feministas dirão que isso é um horror, mas a verdade é que as pessoas fazem muita coisa desprazerosa pelo outro. Elas suportam nove meses de gravidez, por exemplo. Ou cozinham e fazem faxina quando gostariam de se atirar no sofá. Os homens trabalham em empregos horrendos por anos a fio, 10, 12, 13 horas por dia, para manter a casa e a família. Quando alguém cai doente, o outro cuida, embora seja chato. Todas essas coisas são feitas, ao menos em parte, por amor. Muito na nossa vida envolve sacrifício. Eu não quero sugerir com isso que as mulheres tenham de ceder ao desejo dos seus homens e virar de costas apenas porque gostam dele. Mas acredito que se elas decidirem fazer isso terão suas razões. Assim como estarão inteiramente corretas se disserem não. É o corpo delas. É o bumbum delas. Talvez não exista nada mais íntimo e pessoal.
As três fatias do bolo eleitoral, por Elio Gaspari
Elio Gaspari, O Globo
Faltam poucos dias para o desfecho da eleição municipal e são fortes os sinais de que o PT terá o que comemorar. Qual a explicação para o desempenho dos companheiros se a economia vai devagar, quase parando, e a cúpula do partido de 2005 está a caminho do cárcere?
Aqui vai uma tentativa: desde 2002, quando Lula assinou a Carta aos Brasileiros e venceu a eleição incorporando pilares da política econômica de Fernando Henrique Cardoso, o PT move-se livremente sobre o campo adversário (quem quiser, pode dizer que ele vai à direita, mas essa imagem é insuficiente).
Já a oposição, petrificada, não consegue sair do lugar. Em alguns momentos, radicaliza-se, incorporando clarinadas do conservadorismo europeu e americano. O tema do aborto, do kit-gay e a mobilização do cardeal de São Paulo ao estilo da Liga Eleitoral Católica dos anos 30 exemplificam essa tendência (registre-se aqui a falta que faz Ruth Cardoso. Com ela, não haveria hipótese de isso acontecer.)
Admita-se que o eleitorado divide-se em três fatias. Uma detesta o PT e tem horror a Lula. Outra, no meio, pode ir para qualquer lado. O terceiro bloco gosta de Nosso Guia e não se incomoda quando ele pede que vote em seus postes.
Se um bloco se move e o outro fica parado, sempre que houver eleição, o PT prevalecerá.
Some-se à paralisia da oposição uma ilusão retórica. Desde 2010 suas campanhas eleitorais estruturam-se como pregações aos convertidos. O sujeito tem horror a Lula, ouve os candidatos que o combatem e fica duas vezes com mais raiva. Tudo bem, mas continua tendo apenas um voto.
Já o PT segue uma estratégia oposta. Sabe que os votos de esquerda vêm por gravidade e vai buscar apoios alhures.
A crença de que o julgamento do mensalão seria uma bala de prata para a oposição revelou-se falsa. Já as crendices petistas segundo as quais o Supremo tornou-se um tribunal de exceção ou que o impacto de suas sentenças seria irrelevante são um sonho maligno.
As condenações podem ter sido eleitoralmente insuficientes para derrotar os companheiros, mas não foram irrelevantes. O PT deve prestar atenção à voz do Supremo, pois a Corte não é uma mesa-redonda de comentaristas esportivos. Ela é o cume de um poder da República.
Eleição não absolve réu, assim como o Supremo não elege prefeito. Se Lula e o PT acreditarem que o eleitorado respondeu ao Supremo, estarão repetindo o erro dos generais que viam nos resultados dos pleitos da década de 70 uma legitimação indireta do que se fazia, com seu pleno conhecimento, nos DOI-Codi.
O comissariado deveria ter a honestidade de admitir que acreditou na impunidade dos mensaleiros. Resta-lhe agora o vexame de reformar o estatuto do partido, que determina a expulsão dos companheiros condenados em última instância.
A oposição tem dois anos para articular uma agenda que lhe permita avançar sobre a plataforma petista. Ela não precisa se preocupar com a turma que detesta Lula, essa virá por gravidade, assim como os adoradores de Nosso Guia continuarão seguindo-o.
Fazendo cara feia para os programas sociais do governo, para as políticas de ação afirmativa nas universidades e para a expansão do crédito popular, ela organizará magníficos seminários. Eleição? É coisa de pobre.
Faltam poucos dias para o desfecho da eleição municipal e são fortes os sinais de que o PT terá o que comemorar. Qual a explicação para o desempenho dos companheiros se a economia vai devagar, quase parando, e a cúpula do partido de 2005 está a caminho do cárcere?
Aqui vai uma tentativa: desde 2002, quando Lula assinou a Carta aos Brasileiros e venceu a eleição incorporando pilares da política econômica de Fernando Henrique Cardoso, o PT move-se livremente sobre o campo adversário (quem quiser, pode dizer que ele vai à direita, mas essa imagem é insuficiente).
Já a oposição, petrificada, não consegue sair do lugar. Em alguns momentos, radicaliza-se, incorporando clarinadas do conservadorismo europeu e americano. O tema do aborto, do kit-gay e a mobilização do cardeal de São Paulo ao estilo da Liga Eleitoral Católica dos anos 30 exemplificam essa tendência (registre-se aqui a falta que faz Ruth Cardoso. Com ela, não haveria hipótese de isso acontecer.)
Admita-se que o eleitorado divide-se em três fatias. Uma detesta o PT e tem horror a Lula. Outra, no meio, pode ir para qualquer lado. O terceiro bloco gosta de Nosso Guia e não se incomoda quando ele pede que vote em seus postes.
Se um bloco se move e o outro fica parado, sempre que houver eleição, o PT prevalecerá.
Some-se à paralisia da oposição uma ilusão retórica. Desde 2010 suas campanhas eleitorais estruturam-se como pregações aos convertidos. O sujeito tem horror a Lula, ouve os candidatos que o combatem e fica duas vezes com mais raiva. Tudo bem, mas continua tendo apenas um voto.
Já o PT segue uma estratégia oposta. Sabe que os votos de esquerda vêm por gravidade e vai buscar apoios alhures.
A crença de que o julgamento do mensalão seria uma bala de prata para a oposição revelou-se falsa. Já as crendices petistas segundo as quais o Supremo tornou-se um tribunal de exceção ou que o impacto de suas sentenças seria irrelevante são um sonho maligno.
As condenações podem ter sido eleitoralmente insuficientes para derrotar os companheiros, mas não foram irrelevantes. O PT deve prestar atenção à voz do Supremo, pois a Corte não é uma mesa-redonda de comentaristas esportivos. Ela é o cume de um poder da República.
Eleição não absolve réu, assim como o Supremo não elege prefeito. Se Lula e o PT acreditarem que o eleitorado respondeu ao Supremo, estarão repetindo o erro dos generais que viam nos resultados dos pleitos da década de 70 uma legitimação indireta do que se fazia, com seu pleno conhecimento, nos DOI-Codi.
O comissariado deveria ter a honestidade de admitir que acreditou na impunidade dos mensaleiros. Resta-lhe agora o vexame de reformar o estatuto do partido, que determina a expulsão dos companheiros condenados em última instância.
A oposição tem dois anos para articular uma agenda que lhe permita avançar sobre a plataforma petista. Ela não precisa se preocupar com a turma que detesta Lula, essa virá por gravidade, assim como os adoradores de Nosso Guia continuarão seguindo-o.
Fazendo cara feia para os programas sociais do governo, para as políticas de ação afirmativa nas universidades e para a expansão do crédito popular, ela organizará magníficos seminários. Eleição? É coisa de pobre.
terça-feira, 23 de outubro de 2012
Pavor aristocrático na reta final
Por Paulo Moreira Leite - Época
A iminência de uma derrota histórica na cidade que consideravam sua reserva de mercado têm levado alguns observadores a fazer um trabalho vergonhoso em defesa da candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo.
Em vez de defender José Serra, o que seria natural na reta final da eleição, eles procuram levantar o fantasma da ameaça de um avanço da hegemonia do PT no país inteiro. Enquanto acreditavam que seu candidato era favorito, diziam que a polarização política era ótima, que o conflito ideológico ajudava a formar a consciência do eleitor. Mas agora, diante de pesquisas eleitorais constrangedoras, querem mudar o jogo de qualquer maneira.
É um comportamento arriscado e pode ser contraproducente.
Do ponto de vista democrático, o PT só chegou ao poder de Estado, em qualquer instância, pelo voto direto. Bem ou mal, é o único dos grandes partidos brasileiros – já existentes na época — que pode exibir essa condição.
Claro que você pode discutir a recusa em votar em Tancredo Neves, em 1984. Pode dizer que foi radicalismo, esquerdismo, sei lá. Mas é possível reconhecer que naquele momento da transição os petistas defenderam um princípio de respeito a vontade popular que vários adversários – por uma esperteza que em vários casos pouco tinha a ver com patriotismo desinteressado – logo iriam trocar por um cargo no ministério.
Essa postura conservadora contra Haddad retoma os velhos fantasmas do perigo vermelho, tão primitivos como tantas mitologias de quem saiu colonizado pelos anos de Guerra Fria. Reflete um medo aristocrático de quem imaginava que tinha transformado São Paulo em seu quintal eleitoral e agora se vê sem respostas para as grandes parcelas da população.
Depois de criticar o PT pelos Céus de Marta Suplicy, a campanha tucana fala em Céus do Serra. Depois de criticar o bilhete único, o PSDB aderiu a ele. Criticou Haddad pelo bilhete único mensal, mas agora lançou sua própria versão do mesmo bilhete. Depois de passar a campanha pedindo que a população tivesse pena de Gilberto Kassab, nossos analistas descobrem que o continuismo não está com nada e, para não perder embalo, dizem que é uma tendência para 2014 e já ameaçam Dilma. Pelo amor de Deus: aqui a pouco, vai-se brigar pelos direitos autorais do Bolsa Família, não é mesmo?
Levantar o fantasma de um perigo difuso e ameaçador é um dos mais conhecidos truques da comunicação moderna. Revela desprezo pelo conhecimento e pela inteligência do eleitor, procurando convencer a população com argumentos inconscientes, de natureza emocional.
A postura pode ser resumida assim: quando não dá mais para falar em bolo nem em brioches, como fez Maria Antonieta diante da plebe rude, vamos para lágrimas e o sentimentalismo.
O pensamento aristocrático e conservador do século XIX, quando a aristocracia descobriu que o voto popular poderia produzir resultados desagradáveis e inesperados, foi construído assim. Pensadores como Gustave Le Bon afirmavam, literalmente, que a multidão “ou não conseguia raciocinar, ou só conseguia racionar de forma errada.”
O truque principal, nesse comportamento, era evitar referências claras e diretas. Por motivos fáceis de explicar, nunca se diz: perigo de que? Por que?
Grita-se: “eu tenho medo,” como fez Regina Duarte, em 2002. Mas pelo menos ela tinha sido a namoradinha do Brasil…
Como bem lembrou Fernando Rodrigues, a partir de 1994 o PSDB tornou-se um partido rico e poderoso.
Deixou essa condição, pela vontade livre e direta do eleitorado. Em nenhum momento o PSDB deixou de ter colunistas e articulistas de pena amiga para descrever suas virtudes perante a população, com uma generosidade jamais exibida em relação a nenhum outro adversário.
A dificuldade é que, em sua passagem pelo poder federal os tucanos não deixaram nenhuma recordação duradoura na defesa dos mais pobres e dos assalariados em geral. Foi por isso que perderam três eleições consecutivas, sem jamais exibir concorrentes competitivos.
Em 2002, quando o governo de FHC chegou ao fim, sua popularidade era negativa. A inflação passara dos dois dígitos, o desemprego havia disparado, a economia estava num abismo financeiro e é claro que, já então, culpava-se o perigo vermelho por isso.
Quanto aos métodos de governo, não sejamos ingênuos nem desmemoriados. Se você não quer usar a palavra aparelhamento, poderia falar, então, em engaiolamento tucano.
É um sistema realmente eficiente, já que, em quatro anos, promoveu:
a) mudanças nas regras eleitorais estabelecidas pela Constituição;
b) um esquema conhecido como mensalão, matriz dos demais;
c) um procurador geral da República dos tempos de FHC era conhecido como “engavetador”geral da República;
Embora goste de lembrar que o PT votou contra o Plano Real assinado por Itamar Franco, o PSDB prefere esquecer que, ao retornar ao governo de Minas Gerais, o ex-presidente rompeu com FHC e chegou a mobilizar a PM para impedir que Brasília privatizasse a usina de Furnas.
Foi para tentar derrotar Itamar, político muito popular no Estado, que o PSDB inventou o mensalão de Marcos Valério, colocando de pé um esquema que arrecadou mais de R$ 200 milhões para as agências ligadas ao esquema. Nem assim o esquema funcionou e, como acontece nas democracias, venceu o candidato que era melhor de voto.
Mesmo derrotado – a democracia tem disso, né, gente? – o PSDB empurrou a dívida do esquema com a barriga, com ajuda de verbas liberadas – olha a coincidência ! – pelo mesmo cofre do Visanet. Quando Aécio recuperou o governo de Minas, Valério voltou a ser premiado com novos recursos, informa Lucas Figueiredo, no livro O Operador. Conforme demonstrou a CPI dos Correios, dirigida por aliados do PSDB, havia farta distribuição de recursos públicos na campanha tucana.
Num lance de peculiar ousadia, foram retirados R$ 27 milhões da própria Secretaria da Fazenda do Estado.
A verdade é que o mensalão mineiro foi feito com tanta competência – ou seria melhor empregar o termo periculosidade? – que jamais foi descoberto. Até surgiram denúncias, mas eles nunca foram investigados.
Chegou-se ao mensalão mineiro por causa do braço petista de Marcos Valério. Se não fosse por ele, nem saberíamos que teria existido.
Isso é que engaiolamento, vamos concordar. Funciona mesmo depois que o PSDB deixou o poder. Enquanto o Supremo condena o mensalão petista com argumentos deduzidos e não demonstrados, os tucanos seguem no pão de queijo. Ninguém sabe, sequer, quantos serão julgados. Nem quando.
Agora vamos reconhecer: Fernando Haddad assumiu a liderança folgada nas pesquisas como um bom candidato deve fazer. Veio do zero, literalmente, e ganhou eleitores na medida em que tornou-se conhecido.
O apoio de Lula não é importante, apenas, porque lhe garante um bom patamar de votos. Essa é uma visão eleitoreira da política. Esse apoio mostra que é um candidato com origem e história e isso é importante. Dá uma referência ao eleitor.
Num país onde os sábios da década passada adoravam resmungar com frases feitas sobre a falta de partidos “legítimos”, com “história”, com “programa,”etc, é difícil negar que o PT fez sua parte. Você pode até achar uma coisa detestável. Pode dizer que o PT é um partido anacrônico, que “traiu o discurso ético” e só faz mal ao país. Mas tem de admitir que não é Haddad, como Dilma já mostrou em 2010, quem tem problemas com a própria história.
E isso, na construção de uma democracia, é um bom começo. Falta, agora, a outra parte. Caso as urnas confirmem o que dizem as pesquisas de intenção de voto, a vitória de Haddad só irá demonstrar a dificuldade da oposição em mostrar que poderia fazer um governo melhor.
O debate político é este. O resto é propaganda.
http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/10/23/pavor-aristocratico-na-reta-final/
A iminência de uma derrota histórica na cidade que consideravam sua reserva de mercado têm levado alguns observadores a fazer um trabalho vergonhoso em defesa da candidatura de José Serra à prefeitura de São Paulo.
Em vez de defender José Serra, o que seria natural na reta final da eleição, eles procuram levantar o fantasma da ameaça de um avanço da hegemonia do PT no país inteiro. Enquanto acreditavam que seu candidato era favorito, diziam que a polarização política era ótima, que o conflito ideológico ajudava a formar a consciência do eleitor. Mas agora, diante de pesquisas eleitorais constrangedoras, querem mudar o jogo de qualquer maneira.
É um comportamento arriscado e pode ser contraproducente.
Do ponto de vista democrático, o PT só chegou ao poder de Estado, em qualquer instância, pelo voto direto. Bem ou mal, é o único dos grandes partidos brasileiros – já existentes na época — que pode exibir essa condição.
Claro que você pode discutir a recusa em votar em Tancredo Neves, em 1984. Pode dizer que foi radicalismo, esquerdismo, sei lá. Mas é possível reconhecer que naquele momento da transição os petistas defenderam um princípio de respeito a vontade popular que vários adversários – por uma esperteza que em vários casos pouco tinha a ver com patriotismo desinteressado – logo iriam trocar por um cargo no ministério.
Essa postura conservadora contra Haddad retoma os velhos fantasmas do perigo vermelho, tão primitivos como tantas mitologias de quem saiu colonizado pelos anos de Guerra Fria. Reflete um medo aristocrático de quem imaginava que tinha transformado São Paulo em seu quintal eleitoral e agora se vê sem respostas para as grandes parcelas da população.
Depois de criticar o PT pelos Céus de Marta Suplicy, a campanha tucana fala em Céus do Serra. Depois de criticar o bilhete único, o PSDB aderiu a ele. Criticou Haddad pelo bilhete único mensal, mas agora lançou sua própria versão do mesmo bilhete. Depois de passar a campanha pedindo que a população tivesse pena de Gilberto Kassab, nossos analistas descobrem que o continuismo não está com nada e, para não perder embalo, dizem que é uma tendência para 2014 e já ameaçam Dilma. Pelo amor de Deus: aqui a pouco, vai-se brigar pelos direitos autorais do Bolsa Família, não é mesmo?
Levantar o fantasma de um perigo difuso e ameaçador é um dos mais conhecidos truques da comunicação moderna. Revela desprezo pelo conhecimento e pela inteligência do eleitor, procurando convencer a população com argumentos inconscientes, de natureza emocional.
A postura pode ser resumida assim: quando não dá mais para falar em bolo nem em brioches, como fez Maria Antonieta diante da plebe rude, vamos para lágrimas e o sentimentalismo.
O pensamento aristocrático e conservador do século XIX, quando a aristocracia descobriu que o voto popular poderia produzir resultados desagradáveis e inesperados, foi construído assim. Pensadores como Gustave Le Bon afirmavam, literalmente, que a multidão “ou não conseguia raciocinar, ou só conseguia racionar de forma errada.”
O truque principal, nesse comportamento, era evitar referências claras e diretas. Por motivos fáceis de explicar, nunca se diz: perigo de que? Por que?
Grita-se: “eu tenho medo,” como fez Regina Duarte, em 2002. Mas pelo menos ela tinha sido a namoradinha do Brasil…
Como bem lembrou Fernando Rodrigues, a partir de 1994 o PSDB tornou-se um partido rico e poderoso.
Deixou essa condição, pela vontade livre e direta do eleitorado. Em nenhum momento o PSDB deixou de ter colunistas e articulistas de pena amiga para descrever suas virtudes perante a população, com uma generosidade jamais exibida em relação a nenhum outro adversário.
A dificuldade é que, em sua passagem pelo poder federal os tucanos não deixaram nenhuma recordação duradoura na defesa dos mais pobres e dos assalariados em geral. Foi por isso que perderam três eleições consecutivas, sem jamais exibir concorrentes competitivos.
Em 2002, quando o governo de FHC chegou ao fim, sua popularidade era negativa. A inflação passara dos dois dígitos, o desemprego havia disparado, a economia estava num abismo financeiro e é claro que, já então, culpava-se o perigo vermelho por isso.
Quanto aos métodos de governo, não sejamos ingênuos nem desmemoriados. Se você não quer usar a palavra aparelhamento, poderia falar, então, em engaiolamento tucano.
É um sistema realmente eficiente, já que, em quatro anos, promoveu:
a) mudanças nas regras eleitorais estabelecidas pela Constituição;
b) um esquema conhecido como mensalão, matriz dos demais;
c) um procurador geral da República dos tempos de FHC era conhecido como “engavetador”geral da República;
Embora goste de lembrar que o PT votou contra o Plano Real assinado por Itamar Franco, o PSDB prefere esquecer que, ao retornar ao governo de Minas Gerais, o ex-presidente rompeu com FHC e chegou a mobilizar a PM para impedir que Brasília privatizasse a usina de Furnas.
Foi para tentar derrotar Itamar, político muito popular no Estado, que o PSDB inventou o mensalão de Marcos Valério, colocando de pé um esquema que arrecadou mais de R$ 200 milhões para as agências ligadas ao esquema. Nem assim o esquema funcionou e, como acontece nas democracias, venceu o candidato que era melhor de voto.
Mesmo derrotado – a democracia tem disso, né, gente? – o PSDB empurrou a dívida do esquema com a barriga, com ajuda de verbas liberadas – olha a coincidência ! – pelo mesmo cofre do Visanet. Quando Aécio recuperou o governo de Minas, Valério voltou a ser premiado com novos recursos, informa Lucas Figueiredo, no livro O Operador. Conforme demonstrou a CPI dos Correios, dirigida por aliados do PSDB, havia farta distribuição de recursos públicos na campanha tucana.
Num lance de peculiar ousadia, foram retirados R$ 27 milhões da própria Secretaria da Fazenda do Estado.
A verdade é que o mensalão mineiro foi feito com tanta competência – ou seria melhor empregar o termo periculosidade? – que jamais foi descoberto. Até surgiram denúncias, mas eles nunca foram investigados.
Chegou-se ao mensalão mineiro por causa do braço petista de Marcos Valério. Se não fosse por ele, nem saberíamos que teria existido.
Isso é que engaiolamento, vamos concordar. Funciona mesmo depois que o PSDB deixou o poder. Enquanto o Supremo condena o mensalão petista com argumentos deduzidos e não demonstrados, os tucanos seguem no pão de queijo. Ninguém sabe, sequer, quantos serão julgados. Nem quando.
Agora vamos reconhecer: Fernando Haddad assumiu a liderança folgada nas pesquisas como um bom candidato deve fazer. Veio do zero, literalmente, e ganhou eleitores na medida em que tornou-se conhecido.
O apoio de Lula não é importante, apenas, porque lhe garante um bom patamar de votos. Essa é uma visão eleitoreira da política. Esse apoio mostra que é um candidato com origem e história e isso é importante. Dá uma referência ao eleitor.
Num país onde os sábios da década passada adoravam resmungar com frases feitas sobre a falta de partidos “legítimos”, com “história”, com “programa,”etc, é difícil negar que o PT fez sua parte. Você pode até achar uma coisa detestável. Pode dizer que o PT é um partido anacrônico, que “traiu o discurso ético” e só faz mal ao país. Mas tem de admitir que não é Haddad, como Dilma já mostrou em 2010, quem tem problemas com a própria história.
E isso, na construção de uma democracia, é um bom começo. Falta, agora, a outra parte. Caso as urnas confirmem o que dizem as pesquisas de intenção de voto, a vitória de Haddad só irá demonstrar a dificuldade da oposição em mostrar que poderia fazer um governo melhor.
O debate político é este. O resto é propaganda.
http://colunas.revistaepoca.globo.com/paulomoreiraleite/2012/10/23/pavor-aristocratico-na-reta-final/
quinta-feira, 18 de outubro de 2012
As primeiras sensações
Lembra do que você sentia quando tudo começou?
IVAN MARTINS
Faça o teste: as coisas que você se lembra de uma paixão antiga são aquelas que aconteceram no começo. Primeiras conversas, primeiro sexo, primeira viagem, primeira vez na casa da família. Se você for mulher, talvez se lembre de sensações, mais que de eventos: a expectativa, as surpresas, o prazer de conquistar e ser conquistada. Por alguma razão, esses momentos inaugurais ficam gravados na memória como uma espécie de trauma feliz. Eles se tornam a nossa referência, uma régua existencial contra a qual comparamos o que vem depois: maior, igual, melhor, diferente, pelo-amor-de-Deus!
Para o nosso azar, a régua continua medindo depois que nos metemos numa relação estável. Acasalados, nós temos amor, cumplicidade, transamos de forma intensa e regular. Nada, rigorosamente, nos faz falta. Mas a memória, como um farol oceânico quebrado, segue mandando flashes periódicos sobre os velhos tempos – e nós, miseravelmente, somos obrigados a admitir que aquela intensidade nos faz falta.
Gostaríamos, se isso fosse possível, de estar lá e cá ao mesmo tempo. Ter a paz profunda e protetora de agora, com as emoções aceleradas de então. Ter o gozo profundo e a segurança da intimidade conquistada, mantendo a surpresa e o arrebatamento do sexo inicial. No mundo ideal, a mulher amada e familiar, cuja presença faz nosso coração bater tranquilo, nos chamaria, no meio da noite, com uma voz estranha – e se abriria, magicamente, a possibilidade de transar com uma desconhecida.
Como o mundo ideal e a magia não existem, somos forçados a lidar com a realidade. Nela, temos de escolher, todos os dias, entre aquelas emoções iniciais e as outras, muito mais serenas, que nem sequer parecem emoções. Pense nisso: a gente se acostuma de tal forma ao conforto de uma relação estável que ela parece despida de sentimentos. O carinho e o afeto de tão presentes na rotina se tornam invisíveis. A gente só enxerga brigas, frustrações, irritações comezinhas. Qual o valor daquele abraço no meio da noite, que parece reparar alguma coisa que estivera quebrada ao longo do dia? Qual a importância daquele olhar de despedida matinal, que parece conter, simultaneamente, tantas mensagens de reafirmação? Quando a gente perde essas coisas, quando briga e fica sozinho, a importância da rede invisível se revela de forma instantânea. A alma nos cai aos pés, como dizem os espanhóis. Daí a dor inexplicável de quem achava que nada tinha a perder...
Não é bom subestimar o poder de sedução das primeiras emoções. Para muitos, - sobretudo aqueles com grande capacidade de seduzir -, as sensações iniciais são uma espécie de vício. Como uma droga, mesmo. A pessoa precisa da trepidação para sentir-se viva. Tem necessidade do estado de exaltação amoroso para estar bem. O resto, o que vem depois, o momento em que o rio se espraia, manso, depois da corredeira – isso não tem graça. Então é preciso estar sempre correndo atrás da novidade, da primeira vez, da empolgação e da descoberta. É um jeito de viver – acreditando que a próxima relação, essa sim, trará a paz que se andou buscando a vida inteira.
No livro Como pensar mais sobre sexo, que eu li outro dia e adorei, o filósofo Alain de Botton diz que a gente rotineiramente deseja coisas demais, contraditórias entre si. Depois de tentar sem muito sucesso sugerir fórmulas para superar a fadiga emocional dos namoros e casamentos prolongados, ele acaba concluindo que, no fundo, todos nós temos de fazer escolhas difíceis. Ou bem se vive como um adolescente cheio de tesão enquanto der, ou bem se abre mão de um punhado de coisas e tenta se construir relações duradouras e família, enquanto der. Sim, porque a vida e a biologia não vão parar, esperando que a gente se decida. O tempo avança e atropela as nossas hesitações.
Da minha parte, eu tento fazer força para não tomar como um fato da vida aquilo que eu tenho todos os dias. Tento lembrar que aquela criatura ali ao lado poderia estar em outro lugar, com outra pessoa, em vez de estar aqui, me mimando com o seu carinho e a sua zelosa atenção. Pensar essas coisas dá alguma insegurança, mas ela é boa. Ela ajuda a lembrar da importância do que a gente tem. Obriga a agir com mais atenção, com mais paciência, com mais delicadeza até no trato com a parceira. Com sorte, esse estado de alerta ajuda a fazer coisas que surpreendam e encantem. Propicia gestos que alimentem a paixão. Não como no começo, não exatamente como no tempo em que o amor era novo, mas o suficiente para lembrar que ele existe. Aqui e agora, não apenas no passado.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)
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