No fundo, estar "aqui" ou "lá", nem é o grande problema.
Tudo é questão de costume...
"Aqui" você acostuma com a presença.
Acostuma em ver Netflix a noite com a Ana
Em ter a cama arrumada
A sair com os amigos e tomar uma cerveja na 4a feira a noite.
Acostuma a comer costelinha com mandioca no almoço,
Que foi preparada especialmente porque você gosta disso.
A ver quem você gosta sempre. Tipo todo dia, se quiser.
"Aqui" você se acostuma com a proximidade.
Com a facilidade.
Com a agilidade.
Com ser "mimado".
Mas "lá", lá você também se acostuma.
Acostuma com a correria.
A ser um ótimo profissional.
A ajudar a desenvolver o seu time e fazer algo que você acredita e gosta.
Acostuma a achar as coisas caras,
Mas a entender que o seu salário no fim do mês é bem mais do que suficiente para pagar o que você quiser.
Quando vê, já está acostumado até com a distância
Com o avião no fim de quase toda sexta-feira.
Com o Whatsapp que tá sempre apitando
E os minutos ilimitados da TIM resolvendo vários problemas - nem que seja o da distância.
.
Mas o foda, o "foda" mesmo é voltar
E tentar dar algum sentido ao "aqui" e ao "lá"
Ao mesmo tempo
E conectar mundos diferentes
Mundos distantes
Mundos deliciosos
A entender que aquilo e quem você ama está de um lado
E que a mega carreira profissional está do outro.
Aí nessa hora, é difícil entender.
Muito.
Até que passe uns dias.
E você entra no ritmo.
E você se acostuma com tudo.
E quando vê, já é fim de semana e você está voltando.
E quando vê, jé acabou o fimde semana e você também está voltando.
Mas até lá, o meio do caminho, o "voltar", esse sim é o difícil e dolorido.
É. Nessa hora você sabe que, realmente, o ano começou!
Apesar de acontecerem em duas cidades diferentes e envolverem, de um lado, a elite política e judicial do país, e, do outro, servidores públicos, fardados ou não, os dois fatos derivam da mesma matriz: o baixo nível de respeito às instituições.
Não estou entrando no mérito se os policiais estavam acuados ou não. Isso não justifica a invasão de um templo religioso. Da mesma forma, não estou entrando no mérito da liminar do ministro do Supremo – que vem sendo duramente criticada por juristas pelo individualismo institucional. Isso não justifica o descumprimento de uma ordem judicial do STF.
O processo de impeachment (ou golpe ou granola, não importa o nome que você queira dar ao ocorrido) esgarçou instituições para se consumar e passou por cima de muita coisa. Era preciso retirar Dilma de lá e, para isso, tudo foi possível – de abraçar um notório corrupto que transformou a Câmara dos Deputados em seu playground particular até aceitar uma acusação frágil, baseada naquilo que todos os governos fizeram antes dela, ao invés de esperar pelos desdobramentos da Lava Jato.
Que seu governo estava ruim, isso é inegável – até ela deve concordar com isso. Mas a partir do momento que você joga fora as regras que construímos por um longo tempo para viver em mínima harmonia, reescrevendo-as diante de suas necessidades particulares e imediatas ou da opinião de seu grupo, isso abre uma ferida. Que não se fecha facilmente. Que infecciona.
Temos agora um conflito deflagrado entre o Poder Legislativo e o Poder Judiciário, mais Ministério Público. E Michel Temer não deve ter sucesso na mediação dessa situação porque não tem legitimidade para tanto. Sua legitimidade é o apoio dos patos amarelos que o ajudaram a chegar lá e esperam que ele entregue a fatura na forma da redução do tamanho do Estado.
Aliás, uma coisa é a reforma da Previdência surrar a dignidade de trabalhadores braçais dos mais baixos estamentos sociais ao impor uma idade mínima de 65 anos para a aposentadoria impactando a quem, não raro, começou a trabalhar antes dos 14. Outra coisa é a ''classe baixa com poder de consumo'' (que o governo Lula rebatizou despudoradamente de classe média baixa) se ligar que terá que trabalhar por, pelo menos, 49 anos para poder ter uma aposentadoria integral. Se a ficha desse povo cair de verdade, a legitimidade de Temer valerá menos que uma nota de três reais.
Mas a perda de respeito às instituições também já desceu ao nível da rua. Eu que não sou religioso, muito pelo contrário, fiquei consternado ao ver a polícia militar do Rio invadindo um local sagrado para milhões de pessoas e, a partir dali, lançar bombas em manifestantes. Isso não é sociopatia por parte de alguns policiais, mas sim sintoma dessa perda de respeito a instituições.
A imprensa, que já foi melhor ranqueada entre as instituições de respeito do país também anda em baixa. Jornalistas apanham sistematicamente da polícia e de manifestantes. Parte da sociedade não entende um ataque a um jornalista como um ataque à liberdade de expressão, um pilar da democracia, como na verdade é. Vê isso como uma manifestação do descontentamento ao estado das coisas. Incendiada por conteúdos superficiais distribuídos principalmente pelas redes sociais e não acostumada ao debate público de ideias, à aceitação da diferença de opinião e à empatia pelo outro, parte para a ignorância.
Isso sem contar que, em um ambiente de equilíbrio institucional e de bom funcionamento da democracia, não consigo imaginar um ministro de Estado gravando um presidente da República para se proteger de ataques do próprio governo e denunciar desvios de função. Muito menos um outro ministro de Estado usar seu cargo para tentar liberar um embargo de um prédio, no qual ele tem um apartamento de luxo, imposto pelo órgão de patrimônio histórico.
Iniciado, o processo de derretimento das instituições e do respeito da população a elas não pode ser freado do dia para a noite.
Demanda nova pactuação política e social, aliada a muito suor em articulações para a construção de consensos.
Ou seja, a dúvida que fica é se a reação em cadeia não é inevitável e nos levará inexoravelmente para o buraco.
A impressão, por enquanto, é que todo mundo representa a si mesmo e aos interesses do seu grupo, corporativo, econômico, político. O bem do país? Foda-se.
Leia-se por ''buraco'' a eleição, por vias democráticas, de uma figura antidemocrática em 2018 ou a busca por soluções autoritárias por parte de uma população cansada do clima de ''vale tudo'' e de ''ninguém e de ninguém''.
Eu diria ''Que Deus nos ajude''. Mas ele deve estar ocupado com o povo de farda que invadiu sua casa.
''Tem um lado meu que acha uma pena, obviamente, tudo isso que está acontecendo no Brasil'', lamenta a atriz Bianca Comparato quando pergunto se ela acha que há algum paralelo entre 3%, a primeira série que o serviço de vídeos Netflix produz no Brasil, e o momento político brasieiro atual. ''Mas tem um outro lado meu, que é mais otimista, que acha que é um processo de amadurecimento, que estamos podendo olhar para nós mesmos pela primeira vez, de verdade, sem ingenuidade. E esse embate faz parte. É uma pena o sofrimento que isso causa pra tanta gente. E a série fala muito disso, do sofrimento de quem não consegue. E quem disse quem é bom o suficiente? Quem definiu isso?''
A série, que estreia sua primeira temporada de uma vez só na próxima sexta-feira, dia 25, chega falando sério. O visual, a direção e as atuações instigam o espectador como qualquer outro seriado Netflix – e isso parece vir da fusão de experiências tanto da equipe quanto do elenco. A mistura veteranos como João Miguel, Zezé Motta e a própria Bianca Comparato com novatos desconhecidos (Michel Gomes, Vaneza Oliveira e Rodolfo Valente) foi dirigida pelo uruguaio César Charlone, ex-sócio de Fernando Meirelles e responsável pela fotografia de filmes como Cidade de Deus, O Jardineiro Fiel e Ensaio Sobre a Cegueira. Mas a premissa da série e sua narrativa foi desenvolvida e dirigida por seus criadores originais. ''Sou um showrunner de uma ideia alheia'', brinca o diretor uruguaio, que envolveu-se com a produção do seriado anos depois que seu criador, Pedro Aguilera, o estreasse no YouTube (assista aos três primeiros episódios da versão original aqui). Charlone entrou mais como um coordenador e supervisor, ajudando Aguilera e os três diretores originais, Jotagá Crema, Daina Giannecchini e Dani Libardi, a encontrar o rumo que queriam para o seriado, cujos oito primeiros episódios chegam de uma só vez.
Falada em português, a série de ficção científica se passa em um futuro próximo em que o Brasil divide-se em duas castas: grande parte da população mora numa região referida como Continente e quando completam vinte anos de idade têm a oportunidade de passar para onde reside uma elite financeira num lugar conhecido como Mar Alto, que abriga os 3% da população que batiza o seriado. Acompanhamos, portanto, um grupo de jovens que passa justamente pelo processo de seleção, uma série de jogos, entrevistas e atividades que vão definir quem pode passar para o outro lado. É uma alegoria que funciona como uma crítica à ditadura econômica mundial – e um de seus principais critérios de seleção, a chamada ''meritocracia''. ''Este tema faz parte da nossa sociedade e a gente tem mais ferramentas pra falar sobre isso e pra entender isso agora. São boas pra série também'', explica Aguilera.
''Quando o Pedro (Aguilera, criador e roteirista de 3%) pensou nisso lá atrás, ele havia se inspirado no vestibular, embora ele não quisesse falar diretamente de vestibular'', continua Bianca. ''A gente amadureceu muito essa ideia. Mantemos essa angústia juvenil, mas tem uma coisa mais política envolvida. Fala de uma sociedade onde, por mérito, você consegue as coisas e se você não for bom o suficiente acabou a vida pra você. Isso fala muito pra nossa sociedade, não só pra jovens. Se você for parar pra pensar, economicamente, não são nem 3% que detém a riqueza do Brasil – nem do mundo.''
''A ideia começou lá em 2009 e a inspiração vem de livros como Admirável Mundo Novo e 1984 – eu não conhecia Jogos Vorazes'', explica Pedro. Bianca já tinha assistido aos filmes: ''Acho a Jennifer Lawrence ótima. Vi os filmes da série Divergente e fiquei muito feliz com a quantidade de ator bom fazendo esse tipo de filme.'' Mas Charlone desconversa quando compara-se 3% com estes filmes recentes: ''A gente não vai competir com um produto desses. A nossa riqueza é a brasilidade'', explica, sublinhando que quis refletir uma brasilidade diferente daquela que vendemos. ''Gosto daquela coisa que, quando alguma coisa não funciona, vem alguém e dá uma porrada. Ou daquela sensação que sempre acontece em qualquer país do mundo quando você chega no aeroporto, mas quando chega no Brasil sempre tem alguém que fala 'tinha que ser no Brasil…''', explica o diretor, às gargalhadas.
Essa brasilidade, marca visual das produções de Charlone, foi perseguida com um olho no futuro e outro no presente. ''Gosto de dar muita ênfase em sotaques diferentes'', explica, enfatizando também que não quis entregar uma história de bandeja para o público. ''O Brasil tem essa fissura dos produtores com a bilheteria, essa coisa com a comédia, que querer agradar o público'', continua o uruguaio, explicando que o tom pessimista da série o atraiu. ''Isso abre um horizonte muito legal pra novas gerações contarem histórias'', continua.
Mas a frieza distópica da versão original ganhou pluralidade e cores no novo seriado. ''O tom original era muito sério, frio, policialesco'', lembra Aguilera, ao comentar as mudanças sofridas na série durante estes anos, que ainda ''tem elementos muito parecidos, mas outros muito diferentes. Mas a angústia dos jovens, que é a essência, ainda tá lá.'' ''É uma série essencialmente brasileira'', completa Bianca. ''Tem uma sujeira, cores, elementos rústicos. É futuro e é Brasil.''
Estive no set de gravação de 3% e além dessa brasilidade era possível notar a clara naturalidade nas atuações, sem afetações no texto ou diálogos que pudessem deixá-la caricata, claro reflexo da forma como Charlone gosta de deixar os atores, filmando-os livremente, quase em tom documental. Ele anima-se com o formato das séries, que diz ser ''o grande acontecimento audiovisual deste século.'' ''Eu sou assíduo frequentador da Santa Ifigênia e sempre vejo o pessoal vendendo DVDs piratas de filmes… Agora vendem séries'', conta, mencionando Sopranos e Mad Men como referências básicas inclusive para o cinema atual. Pedro também tem suas séries favoritas – House of Cards, The Wire, Breaking Bad -, que podem não se refletir na temática de 3% mas que estão presentes na forma como ele gostaria de segurar o espectador.
Bianca cita outro seriado do Netflix como referência. ''Black Mirror é uma experiência forte pra gente no 3%'', continua a atriz. ''É um futuro que é palpável, não é, sei lá… como o filme Prometheus… Black Mirror tem isso, tem uma coisa que tá mais pra frente, mas as primeiras cenas você nem entende em que época se passa…'' Ela concorda quando menciono que a ficção científica tem esse papel de metáfora para entender a realidade atual. ''Um dos motivos de eu topar fazer a série foi esse. A série é um alerta. Se a gente não parar, a gente vai chegar nisso. É uma catástrofe econômica. E não é só sobre o Brasil, é sobre um modelo econômico mundial, os poucos que têm, os muitos que não têm.''