segunda-feira, 14 de novembro de 2016

domingo, 13 de novembro de 2016

O ódio e a intolerância nas eleições do Brasil e dos Estados Unidos

Leonardo Sakamoto

Tanto a eleição presidencial brasileira de 2014 quanto o recente pleito que escolheu Donald Trump presidente dos Estados Unidos podem ser vistos como momentos nos quais a frágil costura dos plurais e contraditórios retalhos sociais de ambos os países se rompeu.
Como detesto esse linguajar de sociólogo de botequim, traduzo para o vernáculo: momentos que deu ruim.
O ódio e a intolerância não foram criados nessas horas, mas fermentam há muito tempo, talvez desde sempre, nessas que ''foram'' as duas maiores sociedades escravistas modernas. E que seguem seus genocídios de jovens pobres e negros pela ação direta ou pela anuência do Estado.
A incapacidade de colocar-se no lugar do outro e entender que ele merece a mesma dignidade que sonhamos pra nós mesmos esteve sempre presente. Mas não estava distribuída pela internet, conectada pelas redes sociais ou amplificada pela popularização de smartphones.
Na última campanha presidencial, PSDB e PT quase levaram o país às vias de fato, incitando a população e municiando-a para o confronto digital. Esse conflito deflagrado e fermentado pelo rancor do resultado das urnas (um susto para muita gente por desmentir o que a bolha do algoritmo da rede social vendia na timeline) foi apenas o início. Na sequência, a escalada de violência durante o processo que levou ao impeachment levou pessoas a apanharem na rua por usarem bicicletas ou camisas da ''cor errada''.
E vermelho se tornou a cor errada por um longo tempo. Da mesma forma, a perseguição ideológica de um certo ''macarthismo à brasileira'' se instalou, bem como um clima de caça às bruxas a toda ideologia que não seja aquela que não se afirma como ideologia e que, por isso, mais ideológica é. Debater história na sala de aula virou delito passível de demissão. A parte mais preconceituosa e discriminatória do politicamente incorreto se tornou revolucionária na voz de alguns autointitulados humoristas. Trabalhadores estrangeiros passaram a ser alvos de xenofobia explícita, como os haitianos alvejados com projéteis em São Paulo. Grupos extremistas pegaram carona nesse processo, usando o contexto para pautar suas ideias violentas e absurdas.
Ao mesmo tempo, muito chorume circulou nas eleições norte-americanas, principalmente aquele incitado pelo agora eleito presidente e seus discursos carregados de machismo, homofobia, xenofobia, racismo. E a campanha de sua adversária, se não destilou preconceito e ódio como fez Trump, também não pode ser inocentada pelo clima de conflito estabelecido. Se candidaturas são levadas como guerras, essa deixou mortos de todos os lados.
Agora, no rescaldo eleitoral, surgem aqui e ali histórias de continuidade do preconceito deflagrado, de gente que se sente mais à vontade do que nunca para colocar violência para fora. É difícil separar quais são os casos reais dos casos que foram inventados pelo lado perdedor a fim de aumentar a narrativa do terror diante dessa vitória – como se esse medo precisasse de amplificação… Mas, mesmo que se confirme apenas uma parte do que circula, já será uma tragédia.
Claro que prefiro que a realidade sobre nós mesmos venha à tona. Manter tudo no armário tem a vantagem de oferecer aos cidadãos uma tranquilidade forjada suficientemente ampla para que cada um toque sua vida. Mas como todo processo que não natural, uma hora essa construção se desfaz. Ou se desnuda.
Acho que os próximos tempos serão importantes para tanto o Brasil quanto os Estados Unidos olharem para suas entranhas e discutirem que tipo de sociedade querem ser. Devido à pluralidade de sua composição, não é possível imaginar que o melhor modelo não seja o de seguir a vontade da maioria, garantindo, contudo, o respeito à dignidade de todas as minorias. Para isso, será necessário pensar novas formas de fortalecer a esfera pública e trazer para dentro dela a própria população. Já ficou claro que a mídia, de lá e daqui, podem até formar opiniões, mas conhecem pouco sobre quem é, o que quer e o que pensa os cidadãos brasileiro e norte-americano.
Por fim, o discurso violento e opressor – mais palatável e que mexe com nossos sentimentos mais primitivos e simples – ecoa e repercute. Esse discurso basta em si mesmo. Não precisa de nada mais do que si próprio para ser ouvido, entendido e absorvido.
O problema é que não se qualifica o debate, para evitar a hegemonia desse discurso violento, apenas através de ações individuais. Você precisa de uma ação em escala, o que teríamos – na minha opinião – através do Estado – que é o espaço que regula a concepção de educação e os parâmetros educacionais. Ou seja, lá como aqui, precisamos repensar o ensino para melhorar esse debate público.

Como fazer isso em um tempo em que o Estado, aqui como lá, estará tomado por quem não vê a deflagração do tecido social como um problema, mas que surfa nesse medo e nessa insegurança, e que acha que o modelo de educação pública está fadado ao fracasso, é um desafio que teremos que responder. O mais rápido possível, se quisermos ter um futuro.

http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2016/11/12/o-odio-e-a-intolerancia-nas-eleicoes-do-brasil-e-dos-estados-unidos/ 

Aquarius: merecia indicação

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Quem precisa morrer para você rever a sua vida?

Ruth Manus
26 Outubro 2016 | 10h58

Nesse fim de semana perdi um amigo de faculdade. Rolou todo aquele processo: desacreditei, pedi para 5 pessoas diferentes confirmarem a notícia, chorei, fiquei transtornada, olhei as últimas mensagens que trocamos, sonhei que tinha sido só um pesadelo. Mas não, foi isso mesmo, nesse estranho ciclo da vida.

Na semana anterior, estava falando com as amigas mais próximas da faculdade para marcarmos um encontro do pessoal todo. Queríamos fazer isso por saudades de alguns, mas, sejamos sinceros, também para analisar muitos outros. Eu já sabia como seria esse encontro. Meia dúzia de sorrisos para cada duas dúzias de cochichos. Comentaríamos quem engordou, quem está ficando careca, quem está ganhando muito, quem se perdeu na carreira. Abraçaríamos alguns, criticaríamos tantos outros (sobretudo aqueles de quem guardamos pequenas mágoas ou outras merdinhas).

Até que esse amigo morreu, e eu percebi o quão ridículo era este espírito de reencontro. Será mesmo que nós somos tão pequenos? Que não somos capazes de nos encontrar de peito aberto, com um pouco mais de transparência? Que não somos capazes de desejar verdadeiramente que todos estejam bem e felizes? Que não somos capazes de abandonar ressentimentos tão insignificantes?

Na noite em que soube da perda desse amigo coloquei tudo em questão. Agi diferente. Olhei com mais cuidado para os lados antes de atravessar a rua. Não quis beber álcool no jantar. Mandei uma mensagem pacífica ao meu ex, que também era amigo dele. Liguei para a minha mãe. Olhei para o meu namorado dormindo e agradeci. Fiquei com os olhos abertos, estatelados em direção ao teto a madrugada toda, repensando coisas, revendo cenas e pensando, angustiada, no quão efêmera é essa vida na qual você curte a foto de um amigo instagram de manhã e à noite descobre que ele está morto.

Acordei, tomei meu remédio da tireoide e respeitei os 30 minutos de jejum, que costumo fingir que só precisam ser uns 10. Mandei uma mensagem no grupo dos meus amigos de infância, dizendo o quanto os amo e o quanto a distância me incomoda. Uma de nós morreu aos 19 anos e parece que, quase 10 anos depois, nós esquecemos parte da união e da incondicionalidade que isso nos proporcionou. Demos espaço às merdinhas. Mas naquela manhã eu sabia perfeitamente que merdinhas eram só merdinhas.

Marquei exame de sangue e dentista. Decidi pedir aos meus irmãos que não deixem minhas sobrinhas serem filhas únicas. Comprei frutas orgânicas. Pendurei os quadros novos e coloquei outras fotos nos porta-retratos. Joguei fora umas coisas meio velhas que estavam na despensa. Cortei folhas amareladas das plantas da varanda. Respondi mensagens pendentes. Pedi desculpas.

Marcamos o encontro do pessoal da faculdade em homenagem a ele. Acho que vamos todos sem máscaras.

Sigo sem entender bem o sentido destas perdas. Sigo um pouco confusa com estas estranhas decisões do destino. Sigo um pouco desnorteada. Parece que a única coisa que entendo, por enquanto, é que a gente não deveria precisar perder alguém querido para voltar a tentar ser o melhor que a gente pode.

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/quem-precisa-morrer-para-voce-rever-a-sua-vida/ 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Os diálogos inexistentes

IVAN MARTINS
02/11/2016 - 08h50 - Atualizado 02/11/2016 17h59

Em vez de anjo da guarda, eu queria ter nos bastidores da minha vida uma equipe de roteiristas profissionais, com poder de mudar minha história.
Cada vez que estivesse a ponto de fazer algo definitivo, a cena seria congelada ao meu redor – todos parados como estátuas, no meio de um gesto ou de uma palavra – e eu ouviria ponderações sobre a melhor maneira de agir.
“Se você disser isso, ela irá embora em uma semana”, avisaria o roteirista, de prancheta na mão, ajeitando os óculos de acetato azul. “É isso mesmo que você deseja?” Mesmo hesitando, eu diria, “sim”, ao que ele, sorrindo, falaria em voz alta, para alguém oculto atrás das paredes. “OK, deixa correr!” E a cena teria sequência, para o bem ou para o mal.
Imagine de quantas dores e arrependimentos seríamos poupados se a vida nos desse essa pequena oportunidade. Os roteiristas saberiam o que as alternativas de futuro nos reservam e ajudariam, com pequenas advertências e empurrões, a tomarmos o caminho mais divertido até o final feliz.
Só que as coisas não são assim.
A gente lida todos os dias com situações que vão afetar o resto da nossa vida, armados com limitada inteligência, pouca experiência e o nosso temperamento, que tanto ajuda quanto atrapalha. Sempre sob pressão do tempo.
Ninguém nos dá meia hora para reagir a um insulto ou responder a uma pergunta simples: você me ama? A resposta tem de vir na hora, precisa e certeira, ou adeus, pode esquecer. É duro tomar decisões com a realidade em movimento, mas é isso que nos cabe.
Por causa da pressa e do improviso, sinto que a minha vida é uma orgia de conversas inacabadas.
Outro dia, faz pouco, terminou um grande amor, e ainda acho que não disse tudo, que não expliquei o suficiente. Todos os dias me pego conversando com quem passou pela minha vida sem ouvir a frase verdadeira, o pedido sincero de desculpas, a confissão absoluta, a declaração arrebatada, a ironia cortante, o cala-boca contumaz.
Os diálogos inexistentes me perseguem como uma matilha de cachorros de rua.
Uma mulher que eu amei, e que já não me amava, disse que falava comigo todos os dias. Em silêncio, no trabalho. Em voz alta, em casa. Comigo acontecia o mesmo. Meus diálogos com ela se estendiam noite adentro, cheio de idas e vindas, labirínticos e nostálgicos. Eu precisava dizer coisas que não tivera coragem ou perspicácia de dizer ao seu tempo. E as dizia. Às vezes, no meio de um sonho, ainda digo. Até acordado penso em frases poderosas que refariam fatos e removeriam o tempo e os sentimentos. Frases que nunca serão ditas.
Outro dia, sentada no sofá de casa, alguém me lembrou de outras conversas que jamais ocorrerão: entre pai e filha, entre amiga e amigo, mesmo entre irmãos que se amam. No coração das relações mais íntimas moram palavras terríveis, que nunca serão pronunciadas. Para quê? A verdade tem o dom de destruir, revelando o oposto de nossos afetos. Melhor calar a boca.
No interior das relações amorosas, ocorre o contrário: o silêncio nos consome. As frases que não são ditas se acumulam e impedem a circulação dos sentimentos. As pessoas se deitam lado a lado, caladas, noite após noite, cheias de queixas e ressentimentos. As manchas de silêncio tornam a relação irrespirável.
É preciso falar, portanto. É preciso explicar, corrigir, alertar, reclamar, exigir. Soluçar, também. As conversas nos salvam de nós mesmos.
Morro de medo das pessoas que andam pelas ruas falando sozinhas. É como se as coisas não ditas tivessem se apossado delas. Algumas gritam nos viadutos na direção dos carros. Outras falam baixinho, numa espécie de monólogo delicado. Todas conversam, contam, argumentam com alguém que não está mais lá, mas segue presente de alguma forma. A mente dos malucos está presa aos diálogos e decisões passados.
Por isso eu queria uma equipe de redatores a minha disposição, permanentemente.
Se eu me calasse, permitindo por raiva ou teimosia que coisas boas se estragassem, eles diriam: pare com isso, não seja criança, acerte as coisas, já! Se eu agisse com indiferença pelos sentimentos dos outros, eles também congelariam a cena. Diriam: “Olhe, veja como ela está sofrendo, abrace-a!”. Quando eu me omitisse por medo, quando eu me calasse por cautela, quando eu resolvesse gritar na hora errada, com a pessoa errada, com o amor da minha vida, me interromperiam: “Não faça isso! Não seja covarde! Não despeje nos outros as suas frustrações!”.
Na falta dessa equipe de apoio, vou me virando sozinho. Falo com a analista, converso com os amigos, divago em voz alta na companhia de Carlota e Elizabeth, minhas gatas. Sempre depois dos fatos consumados, infelizmente. Sempre olhando o retrovisor. Esta é outra realidade imutável: podemos lidar apenas com o que já passou. A gente vive, erra, pensa e (quem sabe?) aprende a não se afogar novamente nas palavras: as ditas e as não ditas.

http://epoca.globo.com/sociedade/ivan-martins/noticia/2016/11/os-dialogos-inexistentes.html 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

sexta-feira, 28 de outubro de 2016