domingo, 13 de novembro de 2016

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Quem precisa morrer para você rever a sua vida?

Ruth Manus
26 Outubro 2016 | 10h58

Nesse fim de semana perdi um amigo de faculdade. Rolou todo aquele processo: desacreditei, pedi para 5 pessoas diferentes confirmarem a notícia, chorei, fiquei transtornada, olhei as últimas mensagens que trocamos, sonhei que tinha sido só um pesadelo. Mas não, foi isso mesmo, nesse estranho ciclo da vida.

Na semana anterior, estava falando com as amigas mais próximas da faculdade para marcarmos um encontro do pessoal todo. Queríamos fazer isso por saudades de alguns, mas, sejamos sinceros, também para analisar muitos outros. Eu já sabia como seria esse encontro. Meia dúzia de sorrisos para cada duas dúzias de cochichos. Comentaríamos quem engordou, quem está ficando careca, quem está ganhando muito, quem se perdeu na carreira. Abraçaríamos alguns, criticaríamos tantos outros (sobretudo aqueles de quem guardamos pequenas mágoas ou outras merdinhas).

Até que esse amigo morreu, e eu percebi o quão ridículo era este espírito de reencontro. Será mesmo que nós somos tão pequenos? Que não somos capazes de nos encontrar de peito aberto, com um pouco mais de transparência? Que não somos capazes de desejar verdadeiramente que todos estejam bem e felizes? Que não somos capazes de abandonar ressentimentos tão insignificantes?

Na noite em que soube da perda desse amigo coloquei tudo em questão. Agi diferente. Olhei com mais cuidado para os lados antes de atravessar a rua. Não quis beber álcool no jantar. Mandei uma mensagem pacífica ao meu ex, que também era amigo dele. Liguei para a minha mãe. Olhei para o meu namorado dormindo e agradeci. Fiquei com os olhos abertos, estatelados em direção ao teto a madrugada toda, repensando coisas, revendo cenas e pensando, angustiada, no quão efêmera é essa vida na qual você curte a foto de um amigo instagram de manhã e à noite descobre que ele está morto.

Acordei, tomei meu remédio da tireoide e respeitei os 30 minutos de jejum, que costumo fingir que só precisam ser uns 10. Mandei uma mensagem no grupo dos meus amigos de infância, dizendo o quanto os amo e o quanto a distância me incomoda. Uma de nós morreu aos 19 anos e parece que, quase 10 anos depois, nós esquecemos parte da união e da incondicionalidade que isso nos proporcionou. Demos espaço às merdinhas. Mas naquela manhã eu sabia perfeitamente que merdinhas eram só merdinhas.

Marquei exame de sangue e dentista. Decidi pedir aos meus irmãos que não deixem minhas sobrinhas serem filhas únicas. Comprei frutas orgânicas. Pendurei os quadros novos e coloquei outras fotos nos porta-retratos. Joguei fora umas coisas meio velhas que estavam na despensa. Cortei folhas amareladas das plantas da varanda. Respondi mensagens pendentes. Pedi desculpas.

Marcamos o encontro do pessoal da faculdade em homenagem a ele. Acho que vamos todos sem máscaras.

Sigo sem entender bem o sentido destas perdas. Sigo um pouco confusa com estas estranhas decisões do destino. Sigo um pouco desnorteada. Parece que a única coisa que entendo, por enquanto, é que a gente não deveria precisar perder alguém querido para voltar a tentar ser o melhor que a gente pode.

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/quem-precisa-morrer-para-voce-rever-a-sua-vida/ 

sexta-feira, 4 de novembro de 2016

Os diálogos inexistentes

IVAN MARTINS
02/11/2016 - 08h50 - Atualizado 02/11/2016 17h59

Em vez de anjo da guarda, eu queria ter nos bastidores da minha vida uma equipe de roteiristas profissionais, com poder de mudar minha história.
Cada vez que estivesse a ponto de fazer algo definitivo, a cena seria congelada ao meu redor – todos parados como estátuas, no meio de um gesto ou de uma palavra – e eu ouviria ponderações sobre a melhor maneira de agir.
“Se você disser isso, ela irá embora em uma semana”, avisaria o roteirista, de prancheta na mão, ajeitando os óculos de acetato azul. “É isso mesmo que você deseja?” Mesmo hesitando, eu diria, “sim”, ao que ele, sorrindo, falaria em voz alta, para alguém oculto atrás das paredes. “OK, deixa correr!” E a cena teria sequência, para o bem ou para o mal.
Imagine de quantas dores e arrependimentos seríamos poupados se a vida nos desse essa pequena oportunidade. Os roteiristas saberiam o que as alternativas de futuro nos reservam e ajudariam, com pequenas advertências e empurrões, a tomarmos o caminho mais divertido até o final feliz.
Só que as coisas não são assim.
A gente lida todos os dias com situações que vão afetar o resto da nossa vida, armados com limitada inteligência, pouca experiência e o nosso temperamento, que tanto ajuda quanto atrapalha. Sempre sob pressão do tempo.
Ninguém nos dá meia hora para reagir a um insulto ou responder a uma pergunta simples: você me ama? A resposta tem de vir na hora, precisa e certeira, ou adeus, pode esquecer. É duro tomar decisões com a realidade em movimento, mas é isso que nos cabe.
Por causa da pressa e do improviso, sinto que a minha vida é uma orgia de conversas inacabadas.
Outro dia, faz pouco, terminou um grande amor, e ainda acho que não disse tudo, que não expliquei o suficiente. Todos os dias me pego conversando com quem passou pela minha vida sem ouvir a frase verdadeira, o pedido sincero de desculpas, a confissão absoluta, a declaração arrebatada, a ironia cortante, o cala-boca contumaz.
Os diálogos inexistentes me perseguem como uma matilha de cachorros de rua.
Uma mulher que eu amei, e que já não me amava, disse que falava comigo todos os dias. Em silêncio, no trabalho. Em voz alta, em casa. Comigo acontecia o mesmo. Meus diálogos com ela se estendiam noite adentro, cheio de idas e vindas, labirínticos e nostálgicos. Eu precisava dizer coisas que não tivera coragem ou perspicácia de dizer ao seu tempo. E as dizia. Às vezes, no meio de um sonho, ainda digo. Até acordado penso em frases poderosas que refariam fatos e removeriam o tempo e os sentimentos. Frases que nunca serão ditas.
Outro dia, sentada no sofá de casa, alguém me lembrou de outras conversas que jamais ocorrerão: entre pai e filha, entre amiga e amigo, mesmo entre irmãos que se amam. No coração das relações mais íntimas moram palavras terríveis, que nunca serão pronunciadas. Para quê? A verdade tem o dom de destruir, revelando o oposto de nossos afetos. Melhor calar a boca.
No interior das relações amorosas, ocorre o contrário: o silêncio nos consome. As frases que não são ditas se acumulam e impedem a circulação dos sentimentos. As pessoas se deitam lado a lado, caladas, noite após noite, cheias de queixas e ressentimentos. As manchas de silêncio tornam a relação irrespirável.
É preciso falar, portanto. É preciso explicar, corrigir, alertar, reclamar, exigir. Soluçar, também. As conversas nos salvam de nós mesmos.
Morro de medo das pessoas que andam pelas ruas falando sozinhas. É como se as coisas não ditas tivessem se apossado delas. Algumas gritam nos viadutos na direção dos carros. Outras falam baixinho, numa espécie de monólogo delicado. Todas conversam, contam, argumentam com alguém que não está mais lá, mas segue presente de alguma forma. A mente dos malucos está presa aos diálogos e decisões passados.
Por isso eu queria uma equipe de redatores a minha disposição, permanentemente.
Se eu me calasse, permitindo por raiva ou teimosia que coisas boas se estragassem, eles diriam: pare com isso, não seja criança, acerte as coisas, já! Se eu agisse com indiferença pelos sentimentos dos outros, eles também congelariam a cena. Diriam: “Olhe, veja como ela está sofrendo, abrace-a!”. Quando eu me omitisse por medo, quando eu me calasse por cautela, quando eu resolvesse gritar na hora errada, com a pessoa errada, com o amor da minha vida, me interromperiam: “Não faça isso! Não seja covarde! Não despeje nos outros as suas frustrações!”.
Na falta dessa equipe de apoio, vou me virando sozinho. Falo com a analista, converso com os amigos, divago em voz alta na companhia de Carlota e Elizabeth, minhas gatas. Sempre depois dos fatos consumados, infelizmente. Sempre olhando o retrovisor. Esta é outra realidade imutável: podemos lidar apenas com o que já passou. A gente vive, erra, pensa e (quem sabe?) aprende a não se afogar novamente nas palavras: as ditas e as não ditas.

http://epoca.globo.com/sociedade/ivan-martins/noticia/2016/11/os-dialogos-inexistentes.html 

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

domingo, 16 de outubro de 2016

Por que meus amigos mudaram tanto?

De Ruth Manus

Houve um tempo em que tudo parecia muito estável e muito seguro. Tudo e todos. Eles eram todo dia os mesmos e nós achávamos graça nas mesmas piadas, assistíamos os mesmos programas na TV, gostávamos das mesmas bandas. Nossos tímidos planos de viagens eram conjuntos, nossos planos para o fim de semana harmonizavam perfeitamente. Esse tempo passou.

Hoje em dia é um pouco estranho. O tipos de humor mudaram. Cada um assiste uma série diferente- somente game of thrones ainda é capaz de unir parte de nós. Alguns ouvem Liniker enquanto outros elevam o volume ao máximo berrando sobre o cake by the ocean. Uns fumam, outros não comem carne, outros só sabem se divertir com muito destilado, outros insistem em propor restaurantes que cobram R$150 por cabeça. A gente acaba ficando confuso.

Poderia dizer que hoje tenho um rol muito mais rico e diverso de amigos. Opiniões diferentes, programas de vários estilos, trilha sonora variada. Mas eu não vou mentir: sinto falta de como tudo era antes. Sinto falta de quando a gente marcava um hamburger e pronto, chegava, ria, dividia a conta e estava tudo bem. Hoje tem que ter antecedência, tem debate sobre o lugar escolhido, tem uma leve sensação de que nossos velhos conhecidos, por vezes, se tornam novos desconhecidos- com hábitos, propostas e roteiros inéditos.

Talvez o sinal mais evidente seja o fato das nossas amizades terem passado a viver de lembranças. Nos encontramos e começamos a falar sobre aquele dia engraçadíssimo de 2001, sobre aquele namorado esquisito que a Ju tinha aos 15 anos, sobre o porre na viagem de formatura. Nos apegamos às nossas melhores memórias e parece que são só elas que ainda nos unem. Sentados numa mesa de restaurante, ruminamos o nosso delicioso passado e então eu me pergunto: o que estamos construindo para nos lembrarmos daqui outros 15 anos? Ou as memórias de escola e faculdade deverão perdurar até lá?

Dói bastante perceber os desencontros. Uma liga muito para a marca da roupa, outra só para a legenda partidária. Um milita contra a homofobia, outro ainda faz piada com homem que usa camisa cor de rosa. Uma namora um advogado e outra um artista plástico. É fácil entender porque encontramos refúgio tão seguro nas memórias. As diferenças do presente nos assustam e é mais fácil nos divertirmos com as semelhanças do passado.

Mas a parte mais difícil é assumir que a gente também mudou- e não foi pouco. É fácil culpar os outros, dizer que um era mais divertido antigamente, outro era mais maleável, o terceiro não namorava esse babaca de hoje, a quarta não era workaholic, o quinto não ficava citando filósofos no bar. Mas e a gente? A gente também não mudou? Também não frustra em certa medida as expectativas e as lembranças alheias? É claro que sim, o tempo não perdoa ninguém.

A única coisa que segue segura é o afeto. Só nos encontramos- quando as agendas permitem- por causa do afeto que perdura. É ele quem resiste às nossas divergências políticas, aos nossos cônjuges que não têm nada a ver um com o outro, aos nossos empregos que não dialogam, aos nossos interesses tão díspares. É o afeto que toma porrada, que vê aquela gente tão mudada, mas que permanece de pé e resiste, agarrando-as. É por ele que a gente insiste. É por ele que a gente não larga o osso.

E o afeto mora no melhor lugar possível: no outro. Aquela pessoa que mudou o corte de cabelo, o tipo de roupa e o discurso ainda é aquela na qual nosso afeto se instalou há tantos anos e se nega a ir embora. E talvez a gente precise entender que não é necessário usar o passado como escudo. Se o afeto ainda mora ali, nós ainda somos os mesmos. Todo o resto- bolsa, tom de voz, bebida e trabalho- é carcaça. A essência não mudou.

De fato é mais fácil culpar o outro, culpar a vida, maldizer o presente e vangloriar o passado do que trabalhar as diferenças com afeto. É chato chegar no bar e escolher carinhosamente, um assunto que agrade o outro. É mais fácil chegar e falar sobre o que nos interessa e reclamar que as conversas não fluem. Mas não tem jeito: todo amor dá trabalho. E, sabe? São eles. São os amigos da vida toda, ainda são eles. Eles valem a pena. Eles continuam sendo a base, mesmo que tenham mudado de cor. Não desistam de mim, queridos. Eu vou sempre insistir em nós.

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/por-que-meus-amigos-mudaram-tanto/ 

Amizades acabam por causa de política?

De Ruth Manus

Eu sou uma daquelas pessoas cujas mãos começam a coçar, cuja língua tenta fugir de dentro da boca, cujo peito não lida nada bem com o silêncio em época de eleições. Aliás, não apenas em época de eleições, mas sempre que algum tema relevante- acerca do qual eu tenha opinião formada- vem à tona.

Sou daquelas chatas que vai estudar, vai ler 20 reportagens de veículos de comunicação diferentes e depois conversa com 8 amigos, 5 parentes e 3 desconhecidos de opiniões diversas sobre esses assuntos polêmicos, tentando embasar o que pensa.

Pertenço a uma espécie que sofre: a que julga que silenciar é compactuar com o que está acontecendo, independente de sua posição política. Por isso nós nos manifestamos, discutimos, nos chateamos, chateamos os outros e nos desiludimos com o mundo. Não tenho dúvidas de que a minha vida seria mais fácil se eu me interessasse apenas sobre cores de batom e campeonato brasileiro.

Mas, enfim, cada um sente o que sente, cada um luta pelas suas razões.

Mas em meio a tantas razões e tanto sentimento, começam os embates. Opiniões divergentes, respostas ácidas, questionamentos, provocações. Pessoas queridas nos frustram, pessoas às quais somos indiferentes mostram-se necessárias. Arame farpado, rosas cheias de espinhos. E surge a polêmica pergunta: vai deixar que a amizade de vocês acabe por política?

Não. As amizades não acabam por política. Amizade de verdade, com gente boa, não acaba por pensarmos igual, muito menos por pensarmos diferente. Isso nunca. Não se rompe amizade por causa do número da legenda partidária, nem por visões distintas da economia, nem por prioridades políticas diferentes. O que pode acontecer é descobrirmos que certas pessoas simplesmente não são quem nós pensávamos que eram.

No momento em que nós descobrimos que pessoas que nos cercam utilizam argumentos racistas, a amizade realmente precisa acabar. Quando fica claro que alguns amigos se orgulham do próprio machismo, é preciso deixá-los para trás. Quando aquele velho conhecido do prédio revela seu discurso homofóbico de ódio, vá embora. Quando a amiga da sua mãe disser que pobre não devia ter direito a voto, corte relações.

Piadas com violência sexual. Ode à ditadura. Incitação à violência. Tratar animais melhor do que trata os empregados. Novas versões do fascismo. Xenofobia. Nós não podemos relativizar essas coisas. A gente precisa se posicionar, por mais dolorido que seja.

As amizades não acabam por causa de política, acabam porque a gente descobre que tem gente que era querida, mas que se revela nojenta. E quando elas se mostram assim, o afeto pega suas malas vai embora. Porque o afeto não se engana. Ele sabe que permanecer ao lado delas, conhecendo-as assim, seria uma nítida forma de compactuar com o ódio, a pequeneza e a miserabilidade dentro da qual residem as piores formas de segregação e violência.

As amizades não acabam por causa de política. Acabam porque a discussão política muitas vezes revela a verdadeira cara de muita gente. E essas caras não são, nem nunca serão caras amigas.

http://vida-estilo.estadao.com.br/blogs/ruth-manus/amizades-acabam-por-causa-de-politica/