sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Desaprender a amar

IVAN MARTINS
11/11/2015 - 08h45 - Atualizado 12/11/2015 11h07

Eu sentia falta dos pés dela. Toda vez que pensava na ex-namorada, lembrava dela deitada no sofá, com os pés no meu colo. Enquanto conversávamos ou víamos televisão, eu apertava  aqueles pés descalços e macios, numa massagem sem pressa e sem censura. Sempre soube que aquilo me dava prazer, mas não poderia antecipar que aquela cena doméstica, entre tantas outras, ficaria gravada como sinônimo de estar com ela – e me traria tanta saudade no futuro. Não poderia imaginar que essa era a imagem que não seria deletada.
As separações – agora eu sei - não se medem pelo tempo dos relógios ou dos calendários. Elas têm andamento próprio. Avançam e retrocedem ao sabor de eventos invisíveis. Num dia, parecemos prontos a recomeçar. No outro, mal conseguimos sair de casa. Em três meses, quem sabe, talvez já possamos namorar de novo. Mas pode ser que leve um semestre. Ou mais.
Não estamos no controle, percebem? Podemos decidir o que faremos nos próximos 10 anos, mas não o que iremos sentir nas próximas horas. O amor que um dia dividimos se recusa a morrer. Ou nós nos recusamos a permitir que ele morra, porque de alguma forma ele nos define. Dá na mesma.
Enquanto isso, experimentamos uma estranha vida dupla: a de dentro e a de fora. Na vida de fora, há festas, encontros, pessoas passam e sorriem e nós sorrimos de volta, encantados. Trocamos telefones, marcamos encontros, fazemos sexo e ouvimos confidências. Tudo parece avançar. Mas, na vida de dentro, a relação antiga se perpetua, congelada. Imagens do passado irrompem no meio de um beijo no presente. Durante a festa, há uma pontada irracional de ciúme: onde ela estará agora, com quem? Na hora de dormir, a vontade insidiosa de chamar, dizer, contar. Seria tão fácil, tão simples. Por que diabos inventaram o telefone, senão para nos atormentar com as possibilidades do impossível?

Faço drama? Naturalmente, mas pode chamar de literatura. A esta altura da vida – da minha vida, ao menos – está claro que as rupturas são assim. Depois da separação, há um longo período de sombra e turbulência. A gente não se desvincula instantaneamente, mas eventualmente se desvincula. A gente não deixa de gostar de uma hora para outra, mas acaba acontecendo. A gente não controla os sentimentos, mas domina gestos e atitudes – e, cedo ou tarde, os sentimentos se curvam às nossas decisões.
Lembre: as pessoas não viram monstros quando deixam de gostar da gente. De forma nenhuma. Mas tampouco se tornam deusas, heroínas, ou modelos internacionais de caráter e beleza. As qualidades das pessoas que a gente ama são, em larga medida, emprestadas pelo nosso olhar apaixonado. Com o tempo, se soubermos nos conter e esperar, o ex-parceiro será reduzido às suas humanas (e dignas) dimensões. Basta ter paciência e desejar que isso aconteça. Quem quiser passar anos de joelhos no altar do ex-amor passará. É mais fácil do que parece, embora doa.
Durante o longo intervalo do afeto adoecido, não haverá paixão alguma. Em terreno de incerteza e melancolia, novos sentimentos não prosperam. Enquanto a vida de dentro for uma, e a vida de fora for outra, nada importante vai acontecer. Por isso é preciso desaprender a amar. Sem pressa, mas com determinação. Esquecer os pés macios, os olhos amendoados, o cheiro dos cabelos, as piadas íntimas. Que tal dar um basta a isso tudo, solenemente? É possível. Talvez seja imprescindível. Nossa capacidade de amar não pode ser uma arma apontada contra o nosso peito, permanentemente.
As pessoas dizem que só um amor cura o outro. Eu acho o contrário. O novo amor, quando se revela, mostra que a transição foi concluída, que uma ponte foi erguida e que a gente atravessou em direção ao futuro. O novo amor sepulta o outro quando ele – ironicamente – já não precisa mais ser sepultado. Os pés que a a gente massageava viraram lembrança. E ao contrário da foto de Itabira na parede, já não doem.
http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2015/11/desaprender-amar.html 

Títulos barangos sempre são boa pedida!

Sobre as férias

(-) Miami é super bacana e quero ficar nadando eternamente!



(-) Orlando é tudo de bom, definitivamente!




sábado, 14 de novembro de 2015

Lenda!

Bombava nas aulas de inglês e no Disk MTV



sexta-feira, 6 de novembro de 2015

A mulher da foto

CAMILA PAVANELLI DE LORENZI
04/11/2015 - 08h48 - Atualizado 04/11/2015 09h52

Depois de um tempo, é fácil esquecer que as pessoas mortas foram vivas. As pessoas mortas sobrevivem como lembranças. Aquela vez que fomos a Paris. À venda da esquina. Ao simba safári. E vamos nos convencendo disso, que as pessoas mortas das nossas vidas são amálgamas de lembranças sem existência real que não em nossas cabeças, nas nossas e, no máximo, nas daqueles que compartilham conosco a pessoa morta em questão. É difícil, é difícil lembrar que aquele dia da venda da esquina em que ela me ensinou o que era broto de bambu, não era para ser uma lembrança, era para ser apenas mais um dia igual a todos os outros que se repetiriam pela vida afora. A Paris tudo bem, a Paris as pessoas vão para trazer lembranças, mas à venda da esquina vamos apenas para comprar os ingredientes do almoço.
E então de repente a pessoa morta existe como lembrança não apenas para mim meu pai minha avó minha tia mas também para dezenas, centenas de pessoas que não conheço, que não me conhecem, que só sabem de mim como a filha daquela moça que morreu, coitada.
Esta semana conheci uma mulher que conheceu minha mãe – só de longe, só de vista. A mulher nem sabia que minha mãe tinha morrido, mas minha mãe já sobrevivia como lembrança na cabeça dela.
“Era uma mulher elegantíssima”, disse.
Contei sobre o acidente. Minutos depois, ela volta com o marido. Perguntou se ele se lembrava de algum acidente fatal, há não sei quantos anos, na avenida tal e tal. Sim, ele lembrava. A vítima do acidente tinha sido professora de francês dele.
“Era uma mulher lindíssima”, disse.
Adorei a diferença no adjetivo. A mulher enfatizou o processo, percebeu ali uma inteligência em se vestir, se maquiar, se portar. O homem enfatizou o resultado do processo, a beleza final.
***
Uma amiga minha passou anos de sua vida bastante imersa e paralisada em um relacionamento amoroso naufragado. Fiquei com bastante aflição dessa amiga (não por acaso ela é e sempre será minha amiga). Eu, afundada no relacionamento amoroso primordial.
***
E tem as fotos. Uma foto, no caso. Não a foto que está na sala, esta é a foto para a qual se olha e não mais se vê. Mas uma foto 5×7, dessas de passaporte, com a diferença de que minha mãe está posicionada obliquamente em relação à câmera, o olhar firmemente centrado no além. Uma mulher tão diferente de mim. A pele tão mais escura, o cabelo tão mais crespo, o olhar mais expressivo, o nariz menos escandaloso, a boca menos desmesurada. E essa mulher que está lá, que não tem nada a ver comigo – existiu. Essa mulher abriu conta no banco. Tocou Chopin no piano. Virou a noite preparando aula. E eu não sei nada sobre essa mulher exceto esses detalhes. Exceto o que me contam. Exceto que, às vezes, sobrevém o horror.
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“Pouco tempo depois que ela morreu, a escola de francês fechou, né?”, comentei com o homem de quem minha mãe tinha sido professora. Foi sim, ele respondeu. “Ela era a alma do negócio”.
Elegantíssima, lindíssima, alma do negócio – qualificadores que me são estranhos, que não brotaram da minha cabeça, que jamais apliquei a ela, e que não obstante não são menos legítimos que os meus. Eles não se aplicam à minha mãe. Eles se aplicam à mulher da foto.
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O horror em nada se parece com a ausência da mulher da foto. É difícil ligar os pontos e acreditar que a mulher que existiu, a mulher da foto, é a mesma pessoa que mora na minha cabeça. Tenho muito mais intimidade com a pessoa que mora na minha cabeça. Convivo com ela há vinte e três anos.
Com a mulher da foto, convivi apenas dez.
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Camila Pavanelli de Lorenzi é psicóloga formada pela USP, doutoranda de psicologia social e ativista ambiental, responsável pelo Boletim da Falta D’água em São Paulo. Escreve a coluna de hoje como parte do projeto #AgoraÉQueSãoElas, pelo qual, nesta semana, os homens colunistas cedem seus espaços para que mulheres tratem dos temas que lhes pareçam relevantes

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

Por que os racistas estão soltos?

IVAN MARTINS
02/11/2015 - 19h38 - Atualizado 02/11/2015 19h38

Taís Araújo é linda. Eu a vi há duas semanas, no teatro, dividindo o palco com o marido, Lázaro Ramos. Não fiquei apaixonado pela peça – O topo da montanha, sobre o líder negro americano Martin Luther King – mas me emocionei ao ver Taís e Lázaro de perto, interpretando. Ele tenso e contido; ela, furiosa e sarcástica. Senti que me enchia de orgulho por eles. Por formarem um casal bonito e talentoso. Por usarem sua arte e sua notoriedade para falar de coisas importantes. Por serem brasileiros negros que abraçam sua identidade de forma tão natural. Acho que qualquer um que tenha sensibilidade para as questões raciais – como eu tenho – se sentiria tocado. Não há muitos casais como Taís e Lázaro no Brasil. Eles merecem admiração, respeito e carinho.
No entanto, abri a internet ontem e dei de cara com a notícia de que o perfil de Taís no Facebook fora vandalizado com comentários racistas. Coisa pesada. “Já voltou da senzala?”, “Quem postou a foto desse gorila no Facebook?”, “Crioula vadia”, “Não sabia que no zoológico tinha câmera”. Se a gente olha as imagens, percebe que todos os comentários foram feitos mais ou menos no mesmo horário. Pode ser trabalho de uma pessoa ou de um grupo organizado. De qualquer forma, uma hora depois de publicados, alguns dos comentários já tinham 250 Likes. Isso quer dizer que muita gente achou as ofensas bacanas.
O que dizer sobre isso? Três coisas.
1. Esse episódio demonstra que o racismo, embora socialmente moribundo, ainda existe entre nós. Os racistas se escondem atrás de perfis falsos do Facebook e do Twitter, não se atrevem a sair à luz do dia, mas estão aí - assim como es pessoas que apertam o botão de curtir para eles. Juntos, os racistas e seus simpatizantes constituem uma ínfima e doente minoria, gente que vive num gueto mental a cada dia menor e mais clandestino. A reação automática de apoio a Taís, que envolveu dezenas de milhares de pessoas, mostrou de novo que o país não quer nada com essa gente. Ainda assim, é preciso combatê-los. Num pais que sofreu mais de 300 anos de escravidão, que sequestrou 3 milhões de homens, mulheres e crianças na África para que trabalhassem até morrer, que produziu, em consequência disso, um dos modelos sociais mais desumanos e desiguais do mundo, racismo não é conversa de salão. A escravidão foi o nosso Holocausto e os racistas são o equivalente moral dos nazistas. Tolerá-los é uma forma suicida de leviandade.
2.  Por que a Polícia Federal e o Ministério Público não tratam esse assunto como prioridade? Em julho, houve ataques racistas contra a Maria Julia Coutinho, a Maju, que apresenta previsão do tempo do Jornal Nacional. Agora a vítima é a Taís Araújo. Talvez haja um grupo organizado de racistas se aproveitando do vale tudo ideológico que virou o Brasil para tirar as manguinhas de fora na internet. As pessoas comuns saem em defesa das vítimas de racismo, criam hashtags dizendo #eusouTaís e #eusouMaju, se solidarizam, mas cadê a lei para identificar e punir os criminosos? No caso da Maju, havia mais de 12 comentários racistas na página do JN do Facebook, mas a polícia, segundo eu consegui apurar, só achou um culpado:um adolescente de 15 anos de Carapicuíba, em São Paulo, inimputável. Cadê os outros? Será que o empenho em achar delinquentes e “passar o país a limpo” só vale para as grandes operações políticas? Os brasileiros negros e outras pessoas de bem que pagam os salários dos procuradores gostariam de ver os racistas da internet sendo conduzidos sob escolta da polícia federal para a carceragem. Afinal, racismo não é menos crime do que corrupção.
3. Quando o Facebook vai começar a agir de forma eficaz contra gente que usa suas páginas para cometar crimes? Se eu postar a foto de um peito feminino ou de uma índia nua na minha página do Face, serei tirado do ar, mas os caras que postam comentários racistas não são incomodados pelo sistema de vigilância automático da rede social. Por quê? Se aqui, no site da Época, eu publicar ofensas racistas, a revista será responsabilizada judicialmente. O Facebook, não. Serve de plataforma para bandidos e não arca com o custo moral ou legal desse comportamento. Embora fature US$ 15 bilhões por ano, a empresa de Mark Zuckerberg alega não ter como filtrar postagens escritas sem cometer erros e censura. Seus executivos dizem que a denúncia posterior é a única forma adequada de controle - mas ela já se mostrou grotescamente imperfeita, como nos casos de Taís e Majou. O Facebook dá a si mesmo 24 horas depois da denúnca para reagir a um ataque contra uma pessoa ou um grupo. E pode decidir que nem é o caso de tirar as agressões do ar. Não sei quanto a vocês, mas eu acho isso totalmente inadequado. Uma empresa tão rica e tão poderosa, que se tornou tão influente, tem de fazer melhor. Não pode dar palanque a gente que difunde o ódio e alegar que não há meio de barrá-los. Isso simplesmente não serve. Eu, você, a Maju e a Taís temos o direito de exigir mais. Que, na verdade, é o  mínimo

http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/ivan-martins/noticia/2015/11/por-que-os-racistas-estao-soltos.html 

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Enem: A meritocracia e outras fábulas para ninar adultos

Leonardo Sakamoto

Passando perto de um local de realização do Enem, neste sábado, parei um pouco para ver o pessoal que seguia, cheio de pensamentos, para as salas de prova. Perto de mim, dois pais conversavam sobre o futuro de suas filhas e, claro, sobre o país. Não consigo reproduzir exatamente as palavras, mas a conversa foi mais ou menos esta:
– Nunca poupamos investimento na minha família para a educação. Educação sempre em primeiro lugar. A Paulinha, desde cedo, frequentou os melhores colégios, teve todos os livros que pediu, viajou para fora para ampliar a cultura…
– Se o Brasil fosse justo, um lugar em que o mérito fosse levado a sério, nossas filhas estariam com vaga garantida. Mas essas cotas distorcem tudo.
– É. Acaba entrando quem não merece, quem não se esforçou o bastante.
Sempre acho que essas coisas são pegadinha. Olho em volta, procuro câmeras escondidas, fico esperando surgir o Sérgio Mallandro e gritar “Rá! Te peguei!''. Mas, não. Ele nunca aparece.
Deu até vontade de, educadamente, perguntar se eles acreditam mesmo que a meritocracia é hereditária. E se crêem que suas filhas saíram do mesmo ponto de partida que outras pessoas às quais foram negadas todas as condições para poderem conseguir o melhor de si.
Pois, desse ponto de vista, quem tem o mérito maior: quem saiu do zero e, apesar das adversidades, conseguiu estar na média ou quem sempre teve todos os recursos à mão, mas avançou muito pouco, ficando um pouco acima da média?
Pois, se por um lado, as cotas garantem um acréscimo de condições para o candidato pobre, negro e/ou indígena, por outro a desigualdade social garante um acréscimo de condições para os candidatos mais ricos.
Contudo, reclamar do primeiro é “justiça'' e, do segundo, “inveja''.
A “meritocracia'' funciona em um debate como um coringa num jogo de buraco: quando falta carta para bater, ela aparece para salvar uma sequência incompleta. Não fica lá a coisa mais bonita do mundo, mas resolve sua vida porque todo mundo aceita que aquela carta pode preencher um vazio de sentido.
Não sou contra que competência e experiência individuais sejam parâmetros de avaliação. Mas muitas vezes não é o “mérito'' que está sendo avaliado em um contexto que desconsidera fatores externos. Além do mais, uma coisa é o mérito em si e, outra, um sistema de poder criado em torno dele como justificativa para manutenção do status quo.
O problema é que o uso dessa palavra como verdade suprema acaba servindo a quem ignora que as pessoas não tiveram acesso aos mesmos direitos para começarem suas caminhadas individuais e que, portanto, partem de lugares diferentes. Uns mais à frente, outros bem atrás.
Há muita gente contrária a conceder benefícios para tentar equalizar as condições de quem recebeu menos sorrisos da sorte. Acreditam que a única forma de garantir Justiça é tratar desiguais como iguais e aguardar que as forças do universo façam o resto.
E esse discurso é tão bem contado que, não raro, são apoiados por pessoas que, apesar de largarem em desvantagem, venceram. “Tive uma infância muito pobre e venci mesmo assim. Se pude, todos podem.'' Parabéns para você. Mas ao invés de pensar que todos têm que comer o pão que o diabo amassou como você, não seria melhor pensar que um mundo melhor seria aquele em que isso não fosse preciso?

Espero que ambas as filhas tenham ido bem no exame, se tiverem se dedicado para isso, claro. Mas, olhando como não conseguimos compreender os outros, pensamos primeiro em nossos umbigos e consideramos que sucesso diz respeito apenas ao esforço individual, penso que falta muito para deixarmos de ser uma espécie com tamanho nível de mesquinharia.
http://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/2015/10/25/enem-a-meritocracia-e-outras-fabulas-para-ninar-adultos/