quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Economistas afirmam que governo superestimou benefícios da Copa

Vinicius Konchinski
Do UOL, no Rio de Janeiro

Geração de 720 mil empregos, atração de 600 mil turistas estrangeiros e impactos econômicos de até R$ 142 bilhões. Esses são alguns dos benefícios citados por representantes do governo brasileiro para justificar a realização da Copa do Mundo de 2014 no país. Os números constam de estudos feitos por consultorias renomadas, a Ernest & Young e a Value Partners, que estimaram em 2010 os efeitos do Mundial da Fifa sobre a economia nacional.
Três anos depois, entretanto, esses dados estão sendo contestados por economistas de importantes universidades brasileiras. Dois trabalhos, um feito na Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e outro na UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), debruçaram-se sobre as projeções otimistas já divulgadas e chegaram a uma conclusão comum: os benefícios da Copa de 2014 foram superestimados.
Isso é o que diz um artigo assinado pelo professor do Instituto de Economia da Unicamp, Marcelo Proni, publicado ainda em 2012. O trabalho foi feito em parceria com o economista Leonardo Oliveira da Silva, que também estudou na Unicamp. Segundo o texto, "estudos [usados pelo governo] introduzem hipóteses que simplificam demais as projeções e ignoram preceitos econômicos" com a intenção de "alimentar altas expectativas em relação aos efeitos positivos da Copa".
Em entrevista ao UOL Esporte, Proni explicou que há diversas "limitações na metodologia" usada pelas consultorias que fizeram projeções sobre a Copa. Ele disse que não foram consideradas possibilidades de mudanças no cenário econômico ou mesmo uma queda na confiança de empresários com relação à economia nacional. Por isso, todos os dados apresentados acabam não sendo realistas.
"De 2011 em diante, o ritmo de crescimento da economia brasileira caiu. Nenhum estudo previa isso. Com a mudança no cenário, os investimentos privados na Copa diminuíram. Muitos projetos de hotéis foram adiados, por exemplo", disse ele, lembrando que a redução do interesse de empresários pelo Mundial é um dos motivos pelo qual o torneio não será tão benéfico à economia quanto o esperado.
Proni ainda afirmou que as estimativas sobre a geração de emprego também são "limitadas", pois não consideram um ganho de produtividade de trabalhadores. Segundo ele, uma obra que demandava mil funcionários em 2010, por exemplo, hoje pode ser feita por menos pessoas, já que a tecnologia na construção evoluiu.
"Se o estudo não leva isso em consideração, tende a superestimar as contratações", afirmou. "Parece que essas projeções mais otimistas são usadas como parte de um discurso para legitimar todo o investimento público em um evento como a Copa do Mundo", completou.
Segundo a última lista de projetos da Copa, os preparativos para o torneio custarão R$ 25,5 bilhões. Aproximadamente 85% disso serão custeados pelo Poder Público ou com financiamento concedido por bancos estatais. Menos de 15% serão pagos diretamente pelo setor privado.
O estudo da UFMG, assinado por Edson Paulo Domingues, Ademir Antonio Betarelli Junior e Aline Souza Magalhães ainda acrescenta que a atração de turistas também terá um efeito colateral. Segundo o artigo, "um megaevento como a Copa apenas substitui turistas usuais por 'turistas-copa'". Portanto, não eleva consideravelmente os ganhos do país-sede, diferentemente do estimado por consultorias.
Por causa disso e de outros fatores, o artigo da UFMG ratifica que é impossível mensurar quanto efetivamente o Mundial da Fifa trará de benefícios para o Brasil. O artigo lembra, contudo, que diversos estudos econômicos feitos sobre eventos esportivos antes de sua realização superestimaram seus benefícios. Isso, inclusive, é uma conclusão comum de estudiosos de vários países, que avaliaram vários eventos.
O Ministério do Esporte foi procurado nesta terça-feira pelo UOL Esporte para comentar as conclusões dos pesquisadores de universidades. Não se pronunciou.
Na semana passada, porém, o órgão divulgou um balanço positivo sobre a realização da Copa das Confederações de 2013 no Brasil. De acordo com o órgão, o torneio movimentou mais R$ 740 milhões em turismo no Brasil. 
Ao todo, 230 mil brasileiros viajaram pelo país para assistir a jogos do torneio, segundo a Embratur. Outros 20 mil estrangeiros vieram ao Brasil. Cada estrangeiro que veio ao país gastou em média R$ 4.854, contra R$ 1.042 dos turistas brasileiros.
O Ministério do Esporte calcula que foram criados 24,5 mil empregos nos seis estádios usados na Copa das Confederações, a qual gerou R$ 100 milhões em novos negócios para micro e pequenas empresas brasileiras. Só em artesanato, foram vendidos R$ 2,7 milhões.

Órgãos para transplantes terão prioridade no embarque aéreo

JOHANNA NUBLAT
DE BRASÍLIA

Um acordo entre governo federal e empresas aéreas vai dar prioridade de embarque nos aviões para órgãos doados.

Pelo acordo, que será assinado nesta quarta-feira (4), as principais empresas aéreas se comprometem a dar prioridade ao transporte do órgão doado e da pessoa que o transporta --o que significa ceder dois lugares no avião.

Em caso de voo lotado, as empresas se comprometem a convidar passageiros a cederem os lugares para embarcar no voo seguinte. Não haverá obrigatoriedade, porém.
Segundo o Ministério da Saúde, os órgãos já são transportados de graça, mas não há uma organização nem compromisso firmado.

Os voos que carregam órgãos terão prioridade em pousos e decolagens.
O governo espera ampliar em 10% o número de órgãos transportados. Em 2012, foram 1.296; e, em 2013, até o momento, foram 3.514.

O acordo também prevê que equipes do sistema nacional de transportes se revezem para monitorar, de uma base no Rio de Janeiro, os melhores voos para fazer o transporte de cada órgão doado.

Antes que a morte nos separe

Enterros, velórios e missas de sétimo dias são ocasiões que nos fazem pensar, inevitavelmente. Estamos ali, vivos, na presença física ou espiritual da morte. Em geral, ligados a ela por alguém amado ou conhecido que se foi. Não dá para evitar a filosofia nessas horas – e um pouco de medo.

Dias atrás, despedi-me de um conhecido que partiu antes da hora. Entrei sereno na igreja, reconheci velhos colegas e me sentei entre eles para esperar a missa. A cerimônia transcorreu sem sobressaltos até o final, quando o padre deu a palavra à companheira do morto. Emocionada, mas firme, ela leu umas poucas palavras ao microfone. Essencialmente, disse que ele talvez não soubesse o quanto o admiraram, quanto o queriam aqueles que ele deixara para trás. Foi o que bastou para me inquietar.
Por causa das companhias de seguro, que vivem nos lembrando da fragilidade da existência, somos levados a pensar, de vez em quando, sobre o estado material da nossa vida. Se eu morresse amanhã, o que deixaria para trás? Está tudo certo, estão todos amparados, os papéis estão em dia? Gente muito jovem não se preocupa com isso, mas basta ter filhos para que essas ideias, insidiosamente, nos visitem. É natural e até saudável. Só quem se acha eterno está isento de preocupações. Os outros temem.

Mas não foi isso que me inquietou na igreja.

O que as palavras da viúva evocavam era algo diferente, imaterial. Ela falava do legado emocional e afetivo do morto. Ela aludia, em seu breve discurso de despedida, ao que ele deixara sentimentalmente para trás – de forma incompleta - com os amigos, com a família, com a mulher. Suas palavras faziam pensar nas relações rompidas pela morte e no estado das relações com os que ficam. Se morrêssemos amanhã, o que restaria sem ter sido dito? Muito, eu imagino.

Nossas vidas estão repletas de relações pendentes.

Há o amigo, a ex-namorada, a prima com quem você não fala há muito tempo, embora isso o inquiete. Questões grandes ou pequenas esperaram ser resolvidas com o irmão, com o tio, com a amiga com quem você, talvez, não tenha agido direito. Dentro do círculo mais íntimo, mesmo ali, persiste a sensação de que nem tudo foi dito entre pai e filho, entre marido e mulher, entre namorados de longa data. Na avalanche estúpida das horas que se esvaem, tendemos a adiar conversas e encontros. Eles não são urgentes, nos parece. Temos todo o tempo do mundo, nos iludimos. É natural que seja assim.

Tudo o que está vivo é incompleto. Não é diferente com as relações humanas. Apenas o que acabou emocionalmente está concluído e encerrado. O resto segue nos assombrando com vírgulas, reticências e interrogações. Aquilo que está vivo é uma possibilidade. Somente a morte coloca o ponto final em algumas relações. Naquelas que mais importam, eu diria. Naquelas que nos inquietam e das quais nos cabe cuidar.
Ao contrário das coisas materiais, é impossível resolver relações vivas. Elas podem ser cultivadas, saboreadas, vividas, mas não resolvidas. Elas prosseguem. Nunca haverá a conversa definitiva com aqueles que a gente ama. Talvez haja a última, mas isso não se sabe. Sabemos da conversa mais recente, da próxima. Dessas deveríamos cuidar. Sempre haverá outro programa de televisão, outro filme, outro amigo chamando ao telefone – mas o momento deste encontro não se repete. As palavras que trocamos aqui (ou não trocamos) fazem diferença.
O que podemos fazer – e que talvez devamos fazer – é manter nossas relações em dia. Se alguma coisa trágica ocorrer, teremos rido juntos ontem, ou falado na semana passada sobre o filme. Talvez tenhamos discutido ao telefone – é inevitável – mas dormimos abraçados, conversando baixinho. Lembrei de comprar o presente no dia certo, liguei aquela noite como prometido, tomamos um porre medonho na sexta-feira, conversamos longamente no carro durante a viagem. Andávamos na rua quando a chuva começou. Estivemos felizes, estivemos bravos, estivemos juntos. Foi bom.

Será que me faço entender?
As coisas materiais têm o poder de nos obrigar a agir. Os nossos sentimentos, estranhamente, não. Saímos todas as manhãs para o trabalho, ligamos para o advogado, trocamos emails com gente chata sobre o projeto que nos interessa. Mas não gastamos uma fração dessa energia para cuidar de coisas que nos são intimamente caras: o amigo de quem temos saudades, a ex-namorada que está na pior, a tia de que gostamos tanto. O cotidiano dos sentimentos e a rotina das relações são negligenciados. Ou tratados com menos importância do que deveriam. Ao contrário do que parece, isso não constitui uma traição aos outros, mas a nós mesmos.

Por isso fiquei inquieto com as palavras da missa.

Tive a impressão de que minhas pendências são grandes. As contas e os impostos estão pagos, mas a vida emocional está atrasada. Se eu sumisse hoje, se eu morresse, muitas palavras ficariam por serem ditas, muitos abraços ficariam no ar. Pessoas queridas ficariam sem respostas. Tive a impressão, na missa, de que há muito há fazer antes que a morte nos separe – e que o tempo, afinal, não é tão longo.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

Antes que a morte nos separe

Enterros, velórios e missas de sétimo dias são ocasiões que nos fazem pensar, inevitavelmente. Estamos ali, vivos, na presença física ou espiritual da morte. Em geral, ligados a ela por alguém amado ou conhecido que se foi. Não dá para evitar a filosofia nessas horas – e um pouco de medo.

Dias atrás, despedi-me de um conhecido que partiu antes da hora. Entrei sereno na igreja, reconheci velhos colegas e me sentei entre eles para esperar a missa. A cerimônia transcorreu sem sobressaltos até o final, quando o padre deu a palavra à companheira do morto. Emocionada, mas firme, ela leu umas poucas palavras ao microfone. Essencialmente, disse que ele talvez não soubesse o quanto o admiraram, quanto o queriam aqueles que ele deixara para trás. Foi o que bastou para me inquietar.
Por causa das companhias de seguro, que vivem nos lembrando da fragilidade da existência, somos levados a pensar, de vez em quando, sobre o estado material da nossa vida. Se eu morresse amanhã, o que deixaria para trás? Está tudo certo, estão todos amparados, os papéis estão em dia? Gente muito jovem não se preocupa com isso, mas basta ter filhos para que essas ideias, insidiosamente, nos visitem. É natural e até saudável. Só quem se acha eterno está isento de preocupações. Os outros temem.

Mas não foi isso que me inquietou na igreja.

O que as palavras da viúva evocavam era algo diferente, imaterial. Ela falava do legado emocional e afetivo do morto. Ela aludia, em seu breve discurso de despedida, ao que ele deixara sentimentalmente para trás – de forma incompleta - com os amigos, com a família, com a mulher. Suas palavras faziam pensar nas relações rompidas pela morte e no estado das relações com os que ficam. Se morrêssemos amanhã, o que restaria sem ter sido dito? Muito, eu imagino.

Nossas vidas estão repletas de relações pendentes.

Há o amigo, a ex-namorada, a prima com quem você não fala há muito tempo, embora isso o inquiete. Questões grandes ou pequenas esperaram ser resolvidas com o irmão, com o tio, com a amiga com quem você, talvez, não tenha agido direito. Dentro do círculo mais íntimo, mesmo ali, persiste a sensação de que nem tudo foi dito entre pai e filho, entre marido e mulher, entre namorados de longa data. Na avalanche estúpida das horas que se esvaem, tendemos a adiar conversas e encontros. Eles não são urgentes, nos parece. Temos todo o tempo do mundo, nos iludimos. É natural que seja assim.

Tudo o que está vivo é incompleto. Não é diferente com as relações humanas. Apenas o que acabou emocionalmente está concluído e encerrado. O resto segue nos assombrando com vírgulas, reticências e interrogações. Aquilo que está vivo é uma possibilidade. Somente a morte coloca o ponto final em algumas relações. Naquelas que mais importam, eu diria. Naquelas que nos inquietam e das quais nos cabe cuidar.
Ao contrário das coisas materiais, é impossível resolver relações vivas. Elas podem ser cultivadas, saboreadas, vividas, mas não resolvidas. Elas prosseguem. Nunca haverá a conversa definitiva com aqueles que a gente ama. Talvez haja a última, mas isso não se sabe. Sabemos da conversa mais recente, da próxima. Dessas deveríamos cuidar. Sempre haverá outro programa de televisão, outro filme, outro amigo chamando ao telefone – mas o momento deste encontro não se repete. As palavras que trocamos aqui (ou não trocamos) fazem diferença.
O que podemos fazer – e que talvez devamos fazer – é manter nossas relações em dia. Se alguma coisa trágica ocorrer, teremos rido juntos ontem, ou falado na semana passada sobre o filme. Talvez tenhamos discutido ao telefone – é inevitável – mas dormimos abraçados, conversando baixinho. Lembrei de comprar o presente no dia certo, liguei aquela noite como prometido, tomamos um porre medonho na sexta-feira, conversamos longamente no carro durante a viagem. Andávamos na rua quando a chuva começou. Estivemos felizes, estivemos bravos, estivemos juntos. Foi bom.

Será que me faço entender?
As coisas materiais têm o poder de nos obrigar a agir. Os nossos sentimentos, estranhamente, não. Saímos todas as manhãs para o trabalho, ligamos para o advogado, trocamos emails com gente chata sobre o projeto que nos interessa. Mas não gastamos uma fração dessa energia para cuidar de coisas que nos são intimamente caras: o amigo de quem temos saudades, a ex-namorada que está na pior, a tia de que gostamos tanto. O cotidiano dos sentimentos e a rotina das relações são negligenciados. Ou tratados com menos importância do que deveriam. Ao contrário do que parece, isso não constitui uma traição aos outros, mas a nós mesmos.

Por isso fiquei inquieto com as palavras da missa.

Tive a impressão de que minhas pendências são grandes. As contas e os impostos estão pagos, mas a vida emocional está atrasada. Se eu sumisse hoje, se eu morresse, muitas palavras ficariam por serem ditas, muitos abraços ficariam no ar. Pessoas queridas ficariam sem respostas. Tive a impressão, na missa, de que há muito há fazer antes que a morte nos separe – e que o tempo, afinal, não é tão longo.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

Antes que a morte nos separe

Enterros, velórios e missas de sétimo dias são ocasiões que nos fazem pensar, inevitavelmente. Estamos ali, vivos, na presença física ou espiritual da morte. Em geral, ligados a ela por alguém amado ou conhecido que se foi. Não dá para evitar a filosofia nessas horas – e um pouco de medo.

Dias atrás, despedi-me de um conhecido que partiu antes da hora. Entrei sereno na igreja, reconheci velhos colegas e me sentei entre eles para esperar a missa. A cerimônia transcorreu sem sobressaltos até o final, quando o padre deu a palavra à companheira do morto. Emocionada, mas firme, ela leu umas poucas palavras ao microfone. Essencialmente, disse que ele talvez não soubesse o quanto o admiraram, quanto o queriam aqueles que ele deixara para trás. Foi o que bastou para me inquietar.
Por causa das companhias de seguro, que vivem nos lembrando da fragilidade da existência, somos levados a pensar, de vez em quando, sobre o estado material da nossa vida. Se eu morresse amanhã, o que deixaria para trás? Está tudo certo, estão todos amparados, os papéis estão em dia? Gente muito jovem não se preocupa com isso, mas basta ter filhos para que essas ideias, insidiosamente, nos visitem. É natural e até saudável. Só quem se acha eterno está isento de preocupações. Os outros temem.

Mas não foi isso que me inquietou na igreja.

O que as palavras da viúva evocavam era algo diferente, imaterial. Ela falava do legado emocional e afetivo do morto. Ela aludia, em seu breve discurso de despedida, ao que ele deixara sentimentalmente para trás – de forma incompleta - com os amigos, com a família, com a mulher. Suas palavras faziam pensar nas relações rompidas pela morte e no estado das relações com os que ficam. Se morrêssemos amanhã, o que restaria sem ter sido dito? Muito, eu imagino.

Nossas vidas estão repletas de relações pendentes.

Há o amigo, a ex-namorada, a prima com quem você não fala há muito tempo, embora isso o inquiete. Questões grandes ou pequenas esperaram ser resolvidas com o irmão, com o tio, com a amiga com quem você, talvez, não tenha agido direito. Dentro do círculo mais íntimo, mesmo ali, persiste a sensação de que nem tudo foi dito entre pai e filho, entre marido e mulher, entre namorados de longa data. Na avalanche estúpida das horas que se esvaem, tendemos a adiar conversas e encontros. Eles não são urgentes, nos parece. Temos todo o tempo do mundo, nos iludimos. É natural que seja assim.

Tudo o que está vivo é incompleto. Não é diferente com as relações humanas. Apenas o que acabou emocionalmente está concluído e encerrado. O resto segue nos assombrando com vírgulas, reticências e interrogações. Aquilo que está vivo é uma possibilidade. Somente a morte coloca o ponto final em algumas relações. Naquelas que mais importam, eu diria. Naquelas que nos inquietam e das quais nos cabe cuidar.
Ao contrário das coisas materiais, é impossível resolver relações vivas. Elas podem ser cultivadas, saboreadas, vividas, mas não resolvidas. Elas prosseguem. Nunca haverá a conversa definitiva com aqueles que a gente ama. Talvez haja a última, mas isso não se sabe. Sabemos da conversa mais recente, da próxima. Dessas deveríamos cuidar. Sempre haverá outro programa de televisão, outro filme, outro amigo chamando ao telefone – mas o momento deste encontro não se repete. As palavras que trocamos aqui (ou não trocamos) fazem diferença.
O que podemos fazer – e que talvez devamos fazer – é manter nossas relações em dia. Se alguma coisa trágica ocorrer, teremos rido juntos ontem, ou falado na semana passada sobre o filme. Talvez tenhamos discutido ao telefone – é inevitável – mas dormimos abraçados, conversando baixinho. Lembrei de comprar o presente no dia certo, liguei aquela noite como prometido, tomamos um porre medonho na sexta-feira, conversamos longamente no carro durante a viagem. Andávamos na rua quando a chuva começou. Estivemos felizes, estivemos bravos, estivemos juntos. Foi bom.

Será que me faço entender?
As coisas materiais têm o poder de nos obrigar a agir. Os nossos sentimentos, estranhamente, não. Saímos todas as manhãs para o trabalho, ligamos para o advogado, trocamos emails com gente chata sobre o projeto que nos interessa. Mas não gastamos uma fração dessa energia para cuidar de coisas que nos são intimamente caras: o amigo de quem temos saudades, a ex-namorada que está na pior, a tia de que gostamos tanto. O cotidiano dos sentimentos e a rotina das relações são negligenciados. Ou tratados com menos importância do que deveriam. Ao contrário do que parece, isso não constitui uma traição aos outros, mas a nós mesmos.

Por isso fiquei inquieto com as palavras da missa.

Tive a impressão de que minhas pendências são grandes. As contas e os impostos estão pagos, mas a vida emocional está atrasada. Se eu sumisse hoje, se eu morresse, muitas palavras ficariam por serem ditas, muitos abraços ficariam no ar. Pessoas queridas ficariam sem respostas. Tive a impressão, na missa, de que há muito há fazer antes que a morte nos separe – e que o tempo, afinal, não é tão longo.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Se a gente tiver sorte

IVAN MARTINS
27/11/2013 09h17

No começo, a gente só compartilha o corpo. Eu ofereço o meu e recebo o seu, cheio de novidades. O que vem depois, logo depois, é compartilhar ideias e sentimentos. Eles parecem vir do corpo como o suco vem da fruta. Decorre disso, claro, que a gente passe a partilhar o mais essencial – o tempo – que se transforma, rapidamente, em partilhar a vida. Só então, quando tudo está posto, passamos a dividir as nossas propriedades. Elas entram no fim, como lhes cabe na ordem de importância das coisas, mas tendem a tornar-se mais relevantes. Às vezes, quando tudo acabou, é sobre as propriedades que se fala, obsessivamente. Se o corpo, os sentimentos e o tempo comum se esgotaram, elas resistem, a nos ligar e nos dividir.

A cronologia das relações tende a ser assim, mas isso não significa que seja fácil.

Nossa natureza, tão pródiga em produzir afeto, resiste a compartilhar. Quer dizer, há coisas mais fáceis que outras de oferecer. Há degraus de relevância e dificuldade. Partilhar nosso corpo, por exemplo, ao contrário do que diz a lenda moralista, é fácil – e pode ser irrelevante. Frequentemente não deixa vestígios. Sexo pode ser feito com estranhos e, frequentemente, se faz. Bem mais difícil é compartilhar ideias e sentimentos. Isso exige afinidade. Somente quando ela é profunda – o que nem sempre acontece – as pessoas se dispõem a partilhar o tempo. As manhãs, os sábados, os verões. Tempo, afinal, é sinônimo de vida. Não é o tipo de coisa que se divida com qualquer um.
Há um aprendizado no processo de compartilhar, sobretudo para os homens. As mulheres fazem isso com mais naturalidade. Talvez sejam menos egoístas. Os homens parecem apegados a si mesmos e às suas necessidades, têm mais dificuldade em se oferecer. Leva algum tempo (às vezes no interior da relação, outras vezes na vida) para que as pessoas aprendam a se dividir. Entre os homens esse tempo parece maior. Afinal, somos voltados a nós mesmos. Ocupamos o centro da nossa vida de uma maneira radical e às vezes exclusiva. É difícil sair da posição de protagonista e partilhar nossa atenção com as realizações e as necessidades do outro. A gente aprende, mas exige esforço. Exige amor também, e talvez alguma maturidade. Anos.

Isso tudo me ocorre porque tive o privilégio, faz alguns dias, de conversar longamente com um casal apaixonado. Recém apaixonado. Bateu, de instantâneo, aquela ponta de inveja diante da felicidade dos outros. Todo mundo sabe como é bom esse começo, a sensação de completude e a fome que emana do outro. Mas a gente sabe que passa. A paixão passa e, dentro dela, se a gente tiver sorte, se engendra a capacidade de compartilhar - o corpo, as ideias, o tempo.

Se a gente tiver sorte, vai se acostumar ao outro corpo sem perder o interesse por ele. Os pés descalços, a pinta nas costas, a dor que reaparece e precisa ser combatida com massagens. Se a gente tiver sorte, vai se acostumar às ideias e a personalidade do outro, se apegar a elas. As descobertas e decepções da outra alma se tornam parte da nossa vida, compartilhadas. Se a gente tiver sorte, e alguma generosidade, vai receber o outro na nossa existência. Vai se acostumar a dividir com ele o tempo precioso, vai observá-lo mudar e amadurecer. Com sorte, a vida dela ou dele vai se tornar também a nossa vida. Por quanto tempo, nunca se sabe. A gente pode ter mais ou menos sorte. O importante é deixar-se tocar pela existência do outro e fazer parte dela. Deixar também que o outro faça parte. Essa é a grande experiência que fica, compartilhada.

"Mamãe, ter filho dá trabalho?"

ISABEL CLEMENTE
01/12/2013 10h47 - Atualizado em 02/12/2013 11h10

- Mamãe, filho dá trabalho?

Enquanto eu tentava manter a pequena de 4 anos sentada quieta no meu colo, sem vomitar, escrutinei o rosto da filha mais velha atrás de algum traço de deboche. Não encontrei.

Estávamos engarrafadas, dentro de um táxi, havia mais de uma hora. Minhas filhas já tinham brigado para não botar o cinto, tirar o cinto, pelo lugar do meio, pela janela, pelo meu colo e porque uma não queria que a outra cantasse a mesma música que uma estava cantando. Eu não percebia nenhum esboço de simpatia ou solidariedade do taxista pelo retrovisor, o que me deixava preocupada.

“Vai nos expulsar, a qualquer momento“, eu pensava.

“Quando eu crescer NUNCA vou ser taxista. É muito chato“, disse a menor, num rompante de futurologia enquanto observava o engarrafamento.

“Agora danou-se“, pensei. “Vai nos botar pra fora“.

Mas ele não nos expulsou e a coisa ainda piorou quando a pequena ameaçou vomitar.

“Se ela vomitar, eu vomito também“ - disse a maior.

E agora ela queria saber se filho dá trabalho. Ironia. Só pode ser.

“Só dá trabalho no táxi“, respondi.

Letícia deu pra isso aos 8 anos de idade. Volta e meia me pergunta, no meio de uma confusão, se filho dá trabalho. Eu não sei se ela está querendo me fazer rir para aliviar a tensão ou se de forma deliberada testa minha sinceridade no meio do caos.

>> Mais colunas de Isabel Clemente

Numa outra vez, estávamos jantando num shopping, a família toda. Fui solicitada a acompanhá-la ao banheiro. Quando deixávamos o restaurante, a caçula foi acometida da mesma urgente necessidade e correu atrás de nós. É contagioso, não sei se vocês sabem isso. Lá fomos as três para o banheiro família, enquanto meu marido guardava os pratos pela metade.

No caminho, ouvi reclamações de "tá frio", "meu pé tá doendo", “quero colo“. Levantei a menor do chão umas três vezes, enquanto a outra pedia urgência.

- Carol, você não estava apertada? Quer sair do chão?

Mesmo com pressa, elas andavam em zigue-zague e implicavam uma com a outra.
No banheiro, forrei primeiro o vaso sanitário para a maior enquanto dava ordens expressas para a pequena.

- Não en-cos-ta em na-da.

Bastou um minuto, e ela resolveu limpar com a mãozinha uma sujeirinha na tábua.

- CAROL!!! Eu disse pra não encostar, que porcaria! Vai-lavar-a-mão!

Enquanto eu forrava, ela tentou me ajudar, jogando sem querer metade dos papéis dentro da privada. Ai.

- Filhinha...não precisa, vailavarasmãosporfavor? - digo, segurando a irritação.

E lá foi ela lavar as mãos, os braços, a camiseta...

- Molhou um pouco, mamãe...

Foi a vez da mais velha perguntar:

- Mamãe, ter duas filhas dá muito trabalho? - quis saber Letícia, depois de assistir ao circo todo.

Minha mente esqueceu por um instante essa aventura recorrente em banheiro público e me transportou para aquelas manhãs em que eu nunca sei se é melhor me arrumar para trabalhar e arrumá-las para a escola depois, correndo o risco de terminar toda essa faina suada. Ou, pensando bem, se é melhor deixá-las prontas primeiro, indo me arrumar, sabendo que terei pelo menos um penteado para refazer. E fazer um penteado é um exercício aeróbico com alta queima de caloria. Requer destreza e paciência, sobretudo com cabelos finos e lisos.

- Só dá trabalho para ir ao banheiro do shopping e pentear os cabelos - respondi, piscando um olho e apontando para a irmã meio molhada meio prestando atenção na nossa conversa.
Numa outra noite, depois de uma hora tentando fazer a caçula jantar, percebi o olhar inquisidor pra cima de mim.

- Já sei, você quer saber se filho dá trabalho.
- Não quero não. Filho dá muito trabalho!
- Mas me faz rir também - comentei - antes de propor uma terapia  coletiva do abraço para eu sublimar uma hora e meia de criança cansada chorando no meu ouvido.

Deu certo. O abraço dissipou a nuvem pesada do cansaço que nos rodeava, a pequena começou a rir da mais velha e vice-versa e eu respirei fundo. Quando meu marido chegou do trabalho, meus ouvidos estavam enxovalhados, mas ele nem percebeu. Eu voltava ao normal.

- Nas últimas duas horas, Carol deve ter chorado por uma hora e meia. Só parou quando eu deixei ela ficar chapada no carrinho dormindo.
- Chorou tanto por quê?
- Começou porque queria comprar chocolate na cantina daí...consigo me lembrar de uns seis motivos. Você quer que eu liste todos?
Num certo domingo de noite, quando a irritação, esta impostora de véspera de segunda-feira, ainda circulava pela casa, quando o cansaço, aliado e inimigo, era o rei da situação, e a caçula já tinha dormido, me ajoelhei do lado da cama da mais velha.

- Você tem me perguntado muito se filho dá trabalho.
- Eu sei.
- Dá trabalho, você sabe, mas eu ganho muito mais em troca, entendeu?
- Hum?
- Olha, trabalhar dá trabalho. Manter a casa arrumada dá trabalho e fazer a nossa comida no fim de semana também dá trabalho. Para citar três exemplos. Sabia que dá trabalho escrever?
- Sabia.
- Dá trabalho ensinar você e aceitar quando não consigo te convencer de algo.

Percebi um olhar solidário.

- As crianças pequenas costumam dar mais trabalho porque, como sua irmã, são muito sem noção ainda, né?

Ela riu e concordou.

- Quase tudo na nossa vida vai exigir esforço da gente, esforço para se manter calma quando todo mundo estiver nervoso, esforço para encontrar a resposta certa quando você tiver dúvida. Esforço para mandar a tristeza embora quando ela insistir em ficar. Mas eu não trocaria o trabalho que vocês me dão por nada nesse mundo, entendeu? Seu pai pensa igual.

O diálogo foi curto, mas nas entrelinhas eu pensava em todas as pessoas que criam seus filhos sem ajuda, pais que sumiram, mulheres que não assumiram, gente que lida com crianças muito diferentes, cercada de outros sacrifícios.

Eu pensava nas histórias alheias, porque na nossa vida não cabem todas as experiências do mundo. Resta-nos aprender com o outro, esse que enriquece a humanidade com altos e baixos que não são os nossos mas deixam lições para todos. Precisamos recarregar constantemente as baterias da nossa consciência para não se deixar levar pelo desimportante, como essa história de que tudo dá trabalho.

A conversa com minha filha terminou com um pequeno grande abraço que tudo regenera dentro de mim. Cada célula cansada se refaz, o tecido esgarçado da paciência se recupera. A gratidão agora líquida percorre minhas veias, levando até o coração o combustível que meu corpo precisa. Falo de amor, o verdadeiro oxigênio da vida.