sexta-feira, 11 de outubro de 2013

Roma oferece passeios turísticos grátis para aventureiros e casais

Ver construções do Império Romano misturadas a palácios medievais e renascentistas, fazer passeios de caiaque ou bicicleta e receber a bênção do Papa Francisco são alguns dos programas "na faixa" disponíveis na capital italiana para turistas e moradores.
Todos os domingos, ao meio-dia, o pontífice faz a oração do Ângelus na Praça São Pedro, no Vaticano, e abençoa os visitantes. Nesses dias, logo pela manhã, peregrinos e romanos se concentram no local para ver o Papa, da janela, falando à multidão – faça chuva ou sol.
Como a aparição de Francisco dura apenas 15 minutos, em média, é importante não se atrasar. Além disso, o sol e o calor em meio a tanta gente demandam o uso de chapéu e a ingestão de bastante água.
Via Ápia
Outra opção gratuita é caminhar pelas ruínas da Via Ápia, a primeira grande estrada da Roma Antiga, que ligava a capital ao sul do país. O caminho foi aberto no século IV a.C. e recebeu esse nome em homenagem ao político e censor Appius Claudius, responsável pela construção.
O lugar é muito procurado por turistas que desejam ver as primeiras catacumbas cristãs – mas esse passeio cobra entrada. Para os que procuram algo de graça, uma boa opção é caminhar ou andar de bicicleta pela própria Via Ápia e "sentir o passado da cidade sob os pés".
A primeira parte da estrada não tem calçada e, por isso, não é indicada para pedestres. Um bom ponto de partida é o túmulo de Cecilia Metella, filha de um cônsul do primeiro século a.C. Nos 4 km seguintes, a Via Ápia é pavimentada com os ainda originais blocos de basalto e ladeada por fragmentos de túmulos antigos, estátuas e mausoléus.
Nesse lugar, é possível se sentir como no campo. É raro ver carros, pois a área é fechada aos domingos para o tráfego, e há ovelhas pastando em áreas próximas. No verão, é até possível colher amoras ao longo do caminho. Há, ainda, casas de alto padrão pelo caminho, que entre os anos 1950 e 1960 serviram de moradia de estrelas do cinema. Atualmente, essas residências abrigam festas exclusivas aos finais de semana.
Mexa-se
Os fãs de atividade física que vão à Itália com pouco dinheiro têm, ainda, algumas alternativas. É possível conhecer o parque do bairro residencial e comercial EUR (Exposição Universal de Roma), na região sul da cidade. Dali, dá para ver a Basílica de São Pedro e Paulo, além de andar de caiaque no lago ou simplesmente deitar na grama.
A arquitetura racionalista – que prioriza o espaço interno, materiais diferentes (como vidro, madeira, ferro e outros metais), estrutura aparente, cobertura plana e ausência de ornamentos – presente no bairro, da década de 1930, também contrasta com os prédios da época da Roma Antiga, da Idade Média e do Renascimento que cobrem o centro da cidade. O EUR é ligado por largas avenidas e concentra vários museus, além de edifícios da era fascista.
Fórum Romano fica todo iluminado à noite (Foto: Michele Barbero/AP)Fórum Romano fica todo 'colorido' à noite e é um
chamariz para os casais (Foto: Michele Barbero/AP)
Passeio romântico
Para os casais que querem economizar, à noite as ruínas do Fórum Romano se transformam em um local romântico, com vigas iluminadas de azul, branco e verde. Namorados abraçados são vistos com frequência no local, entre as construções e árvores.
O Caminho dos Fóruns Imperiais, rua que vai da Praça Veneza até o Coliseu, é um dos lugares mais conhecidos da capital romana. Seus arcos, templos e estátuas de imperadores caracterizam bem a grandeza da civilização romana de 2 mil anos atrás .
Pelo buraco da fechadura
Já os que preferem andar à luz do dia têm a opção de registrar uma visão inusitada da cúpula da Basílica de São Pedro, através do buraco da fechadura da porta de entrada da Ordem de Malta, que dá para um jardim. Ao fundo, é possível visualizar a construção do Vaticano.
Essa vila é comandada pelos cavaleiros de Malta no topo do antigo Monte Aventino, uma das sete colinas de Roma.
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Turistas espiam pelo buraco da fechadura da Ordem de Malta e têm visão inusitada da Basílica de São Pedro (Foto: Michele Barbero/AP e Gregorio Borgia/AP)Turistas espiam pelo buraco da fechadura da Ordem de Malta, em Roma, e têm visão inusitada da cúpula
da Basílica de São Pedro, que aparece ao fundo do jardim (Foto: Michele Barbero/AP e Gregorio Borgia/AP)
Papa Francisco dá a bênção do Angelus no dia 11 de agosto (Foto: Andrew Medichini/AP)Papa Francisco dá bênção do Ângelus na Praça São Pedro, no dia 11 de agosto (Foto: Andrew Medichini/AP)
A Via Ápia em imagem de 7 de setembro (Foto: Michele Barbero/AP)Jovens caminham tranquilamente pela Via Ápia, em imagem de 7 de setembro (Foto: Michele Barbero/AP)
Fãs de esportes também podem andar de bicicleta pela Via Ápia (Foto: Beatrice Larco/AP)Fãs de esportes também podem andar de bicicleta pela Via Ápia, em Roma (Foto: Beatrice Larco/AP)
À noite, o Fórum Romano fica iluminado e ganha um ar mais romântico (Foto: Michele Barbero/AP)À noite, região do Fórum Romano fica iluminada, ganha ar romântico e atrai casais (Foto: Michele Barbero/AP)

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

O bilhete em braile

IVAN MARTINS
09/10/2013 08h26

As duas caminhavam à minha frente, conversando. Quando eu me preparava para ultrapassá-las, a mais alta se inclinou na direção da amiga e disse a frase devagar, com raiva: “Juro, no dia em que eu for embora, vou deixar para ele um bilhete em braile. O cara é cego!”
Se eu fosse metade do jornalista que eu gostaria de ser, teria parado naquele instante, girado 180 graus, e perguntado à moça, sem hesitação, quem era o tal sujeito e o que ele fizera para merecer uma jura tão triste, e tão bonita.
Mas não. Eu apenas atrasei o passo e prossegui, lentamente, com olhos e ouvidos voltados para trás, na esperança de ouvir o resto da história. Não adiantou. A moça alta se calou com ar resignado e a amiga dela, que não tinha olhos de poeta, pareceu aliviada com o silêncio. Amores tristes, nós sabemos, podem ser infinitamente chatos.
A frase da moça, porém, ficou comigo. Mesmo sem um enredo que lhe desse substância, aquela imagem – o bilhete em braile - teve a força de despertar em mim a memória de uma dezena de situações em que eu poderia ter dito o mesmo.
Todos que já foram deixados, ignorados, enganados ou simplesmente esquecidos sabem como pode ser doloroso enxergar quando o outro se recusa a abrir os olhos.
(A pessoa que você mais quer no mundo está ali, trocando você por uma roubada, ou agindo da maneira mais escrota, e não há o que dizer. Ela não percebe. Está cega. Age como se você não existisse. Mudou inteiramente de lealdades. Não é mais a pessoa que costumava ser. Tornou-se distante e fria. Você sabe que ela está fazendo uma bobagem, você a conhece. Sabe, ou imagina saber, que dentro de algum tempo ela se dará conta, enxergará, mas então será tarde. Você tem seu orgulho, afinal. A vida é breve, a fila anda, corações lastimosos encontram amparo e futuro. Então, a pessoa que você mais quis no mundo estará lá, pedindo, e você não terá nada a dizer. Sinto muito, talvez. Talvez nem isso.) 
Não há nada que cegue tanto quando o cotidiano. 
Ver alguém um milhão de vezes é como deixar de ver. As retinas preguiçosas recusam novidades. Aos olhos de hoje, aquela pessoa é a mesma de ontem, de uma semana atrás, de um ano. Estranhamente, não é mais aquela criatura fascinante dos primeiros dias. A beleza já não impressiona, a inteligência não surpreende, o temperamento não comove. Aquilo que todos enxergam o cego de convívio nem percebe. Está tudo lá, mas ele não vê, miseravelmente. Talvez seja preciso um pé na bunda. Ou talvez baste um bilhete em braile.
Somos assim, eu acho. Não há culpa. De quando em quando deixamos de ver o outro, embora ele esteja lá, ou talvez por isso o mesmo. É necessário redescobri-lo. Às vezes o colírio de uma briga faz o milagre. Outras vezes é preciso vestir os óculos do abandono para enxergar.
Nada disso é certo, porém.
Alguns amores perderão contorno com o tempo, irremediavelmente. Com outros, teremos logo cedo a sensação aborrecida de ter visto tudo. Poucos nos manterão de olhos arregalados e queixo caído. Um número ainda menor entrará no nosso universo e fará parte dele - sem fogos de artifício e sem holofotes girando no céu da madrugada. Apenas estará lá, como um pedaço discreto e irremovível da nossa vida. Até que uma cegueira nos separe.
Você sabe, não há garantias contra isso.
Somos presunçosos e bobos. Acreditamos, sem qualquer razão, que amanhã será melhor que hoje, mesmo que hoje seja um dia lindo. A esperança está na nossa natureza e ela é cega. A esperança cega. Ela nos põe com os olhos no futuro, a esperar, enquanto a vida acontece agora, em sua plenitude casual. Você acorda numa manhã chuvosa de primavera e ao seu lado há um ser humano adormecido. Você o conhece, você o deseja, o dia será longo e bom ao redor dele. Mas os olhos insistem em não ver o óbvio.
Por isso eu gostaria de conversar com a moça da rua. Saber a razão da mágoa dela. Entender aquilo que o cego não percebe. Enxergar por ele, talvez. Me redimir do tanto que deixei de ver. Me confortar por tantas vezes em que deixei de ser visto. Sabendo, como eu sei, que há um quê de inexorável na escuridão dos sentimentos. Elas acontecem e voltarão a acontecer. Se ao menos pudéssemos contá-las, sairiam das sombras onde moram as tristezas invisíveis. Daríamos voz ao que não se vê.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

terça-feira, 8 de outubro de 2013

Como achar o trabalho da sua vida

MARCOS CORONATO, GRAZIELE OLIVEIRA E RAFAEL CISCATI
07/10/2013 07h00
Aos 17 anos, a paulistana Thais Roland decidiu estudar ciência da computação. Naquele momento, pensava que a profissão atenderia a seu gosto por equipamentos eletrônicos e renderia um bom salário. Não foi uma escolha ruim, dadas as informações e a maturidade de que dispunha então. Hoje, aos 33 anos, Thais continua a gostar de eletrônicos e a se preocupar com dinheiro. Mas sabe outras coisas importantes sobre si mesma, que melhoram muito suas escolhas ao pensar em trabalho. Ela gosta de física, de ter autonomia, de poder mostrar o bom humor, de ser transparente quando bem entende e – não menos importante – de receber parabéns efusivos pelo que faz direito. Além disso, morre de amores por carrões como o Corvette Stingray 1969 ou o Maverick 1975 SL, que vem consertando aos poucos. Todas essas engrenagens que formam a personalidade de Thais não cabiam nas empresas em que ela trabalhara antes, mas encaixam-se com perfeição quando ela abre o capô de um carro, mergulha na graxa do motor e explica, pacientemente, o que faz. Ao se tornar mecânica, em 2011, dona de um canal no YouTube e autora de um blog sobre automóveis, Thais encontrou o trabalho da vida dela. Você já encontrou o seu?

Ao se levantar para trabalhar, pela manhã, todos enfrentamos, sentados na beira da cama, a mesma questão: eu seria mais feliz e satisfeito fazendo outra coisa? O sujeito extremamente sortudo depara com essa angústia uma única vez, no fim da adolescência, ao escolher uma profissão. O mais normal é que essa pergunta se repita regularmente, à medida que se alternam períodos bons e ruins no trabalho.
Thais Roland (Foto: ÉPOCA)
Thais Roland (Foto: ÉPOCA)
Recentemente, dois intelectuais de peso dedicaram-se ao assunto. Por caminhos diferentes, eles chegaram à mesma conclusão, resumida em forma de conselho: busque satisfação no trabalho de forma agressiva. Seja faminto, ambicioso, corajoso e aberto a mudanças radicais. Um deles, o sociólogo, palestrante e escritor australiano Roman Krznaric (pronuncia-se “Crisnáric”), é incisivo. “Mesmo num ambiente de crise, como a Europa, cada vez mais gente pensa que não basta apenas ter emprego. As expectativas com a vida continuam crescendo e há possibilidades abertas para quem quiser arriscar”, disse ele a ÉPOCA. Doutor em sociologia política pela Universidade de Essex, na Inglaterra, Krznaric esteve no Brasil neste mês para dar uma palestra organizada pela School of Life, um centro de estudos filosóficos com sede em Londres, dedicado a produzir palestras, aulas e livros úteis para a vida dos adultos modernos. Krznaric lançou, no ano passado, o livro Como encontrar o trabalho da sua vida (Editora Objetiva).
>> Como se preparar para um período sabático

Outro que tenta empurrar os que hesitam em mudar de carreira é o economista americano Edmund Phelps. Ele ganhou o Prêmio Nobel de Economia em 2006, por seus estudos sobre mercado de trabalho, salário e inflação. Em seus mais de 50 anos de pesquisa, concluiu que americanos e europeus tornaram-se, coletivamente, uns molengas acomodados. Estão conformados em fazer trabalhos confortáveis e medíocres, com medo de se arriscar em busca de projetos profissionais realmente satisfatórios. Phelps acredita em correr riscos e lutar pelas próprias ideias e tenta promover esses valores. “Quando alguém é jovem e não tem dinheiro, é natural que pense mais em ganhos materiais. Conforme envelhecemos, os ganhos não materiais passam a ressoar profundamente em cada um de nós. Precisamos ter vidas interessantes”, disse a ÉPOCA.
Aos que sonham mudar sua vida profissional, o livro de Krznaric oferece exemplos e sugere caminhos. Procurar um trabalho empolgante, afirma, lembra menos o início de uma obra e mais o começo de um namoro. O encanto pode vir de onde menos se espera. Só depois que a paixão aparece deve-se pensar em relacionamento sério. O caminho tradicional para a transição de carreira – similar ao início de uma obra – prevê mais ou menos o seguinte roteiro:

▪ reflita antes de agir. Defina as prioridades na nova fase. Podem ser, entre outras, ganhar mais dinheiro, passar mais tempo com a família ou reduzir o nível de estresse;

▪ estude o mercado, converse com profissionais com experiência útil para sua transição e escolha a sua atividade futura;

▪ defina os passos da transição, com prazos. Ela pode exigir que você adquira novas habilidades, que procure um sócio ou que engorde as economias para atravessar períodos sem renda;

▪ inicie a transição, de preferência gradualmente.
O que queremos do batente (Foto: ÉPOCA)
Se você gosta desse tipo de plano, sirva-se à vontade. Krznaric duvida da eficácia. Para ele, estratégias assim facilitam o adiamento indefinido da mudança e não ajudam ninguém a se encantar com um novo trabalho. O roteiro dele seria assim:

▪ aja antes de refletir. Comece a levantar informações sobre trajetórias profissionais muito diferentes das suas e procure oportunidades para fazer coisas diferentes;

▪ há três abordagens diferentes para partir para a prática: entrevistar sistematicamente pessoas com trabalhos interessantes; experimentar atividades paralelas em horas livres (que ele chama de “projetos de ramificação” – foi a tática de Krznaric para passar de professor a palestrante e escritor); e, por fim, para quem pode, tirar um ano – “um sabático radical” – para experimentar o máximo possível de trabalhos. Vale passar por empregos temporários, acompanhar profissionais em ação como assistente ou apenas observador, fazer coisas de graça;

▪ fique atento a como você se sente em cada atividade. A satisfação pode surgir por diferentes meios, como o “fluxo” – trata-se de um estado de concentração no presente, quase zen, que sentimos ao fazer algo desafiador, mas não assustador nem exaustivo. Pode-se imergir no fluxo ao cuidar do jardim, fazer comida, escrever um texto ou operar um cérebro; n depois de agir, reflita. Qual será seu novo trabalho?

Krznaric propõe vários exercícios para detectar a fonte da insatisfação atual com o emprego e organizar os passos seguintes.

Quando pensam em trabalho, as pessoas tendem a se concentrar em alguns poucos motivos de realização, como o dinheiro graúdo pago aos executivos ou a paixão que move os artistas. A verdade é que há outros elementos de motivação. O economista Phelps considera um bom trabalho aquele que permite autonomia, expressão, criatividade e crescimento pessoal. Insiste que essas características podem ser encontradas na maior parte das funções e nas mais diversas atividades. Não é preciso ser um Picasso ou um Steve Jobs para sentir-se realizado. Em condições adequadas, diz Phelps, qualquer trabalhador pode se arriscar a criar modos diferentes e mais eficientes de produzir – segundo Phelps, uma condição essencial para sentir-se satisfeito no trabalho.

A gaúcha Ana Virgínia de Oliveira, de Alvorada, na Grande Porto Alegre, mostra como isso é possível. Ela tinha um trabalho tipicamente feminino, como auxiliar de uma nutricionista. Considerava sua rotina chata e pobre em desafios. Hoje, depois de ser treinada como azulejista, Ana Virgínia coordena uma equipe de 20 mulheres operárias nas obras do Estádio Beira Rio. “Agora, todos os dias tenho reconhecimento por meu trabalho e pelo trabalho das mulheres que estão comigo”, diz ela. Ana Virgínia está feliz também porque ganha o dobro do que recebia da nutricionista.

Mas dinheiro, lembre, não é tudo.

Krznaric diz que autonomia e possibilidade de criar são grandes fontes de satisfação em qualquer atividade. E cita outras fontes: a descoberta de um propósito, a possibilidade de ajudar quem precisa, de seguir uma paixão ou de usar um talento. Nada disso está diretamente relacionado à remuneração. “Não acredito que alguém possa trabalhar a vida inteira motivado apenas por dinheiro”, afirma. Isso é diferente do que estamos acostumados a pensar. Em nossas queixas diárias, repetimos que, se tivéssemos mais dinheiro, poderíamos nos arriscar em busca da realização pessoal. Ou que, se ganhássemos mais, seríamos mais satisfeitos. O dinheiro parece ser o começo e o fim da questão. Gente que estuda felicidade no trabalho, como Krznaric e Phelps, pensa de outra forma. Para eles, o dinheiro não ocupa um lugar tão importante. Não é preciso ter muito dinheiro para aventurar-se na mudança, nem é preciso ganhar muito mais dinheiro para ser feliz depois. Por incrível que pareça, a famosa “questão financeira” pode ser uma falsa questão, como sugerem os vários exemplos que ilustram esta reportagem. Motivações subjetivas, que nada têm a ver com salário ou rendimento, são determinantes na satisfação profissional de gente que parece muito realizada.

O economista e administrador Safiri Felix de Souza, de 30 anos, mudou de vida completamente, sem abrir mão de sua profissão. Começou a carreira como estagiário e trainee nas áreas de investimento de grandes bancos. Ficou atormentado com sua opção a partir da crise de 2008. Deixou o emprego e fez um curso de formação de pessoal para negócios sociais – empresas que trabalham com fins lucrativos e sociais ao mesmo tempo. Era a Usina de Ideias, da organização de apoio a negócios sociais Artemísia. “Foi um marco na minha vida”, diz. Deixou de lado a ideia inicial de abrir um negócio próprio e, hoje, trabalha na Konkero, empresa que oferece orientação profissional e financeira a pessoas de baixa renda. “Agora vejo sentido no que faço. Meu tempo e meu conhecimento são mais bem empregados”, afirma.

Segundo quem estuda o assunto, Souza acertou ao se manter naquilo que faz bem feito e ao dar a seu trabalho um novo propósito. Cal Newport, professor de ciência da computação na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, vem estudando a surpreendente concentração de recém-formados das melhores universidades americanas em algumas poucas áreas de atuação, como o mercado financeiro. Como é improvável que todos os alunos tenham as mesmas habilidades, ele conclui que os jovens vêm se guiando por um único fator – dinheiro. Newport os estimula a cultivar novas habilidades, a descobrir seus talentos e a encontrar um trabalho alinhado com o estilo de vida desejado. Há um outro roteiro possível: muitos jovens que se atiram ao mercado financeiro sonham trabalhar duro por alguns anos para obter, precocemente, sua independência financeira. Depois, com muito dinheiro no bolso, às vezes antes dos 30 anos, partem para uma segunda carreira. Em geral, se tornam empreendedores em áreas com que já tinham afinidade, diferentes daquelas em que fizeram fortuna. “Esse não é um plano de carreira incomum”, afirma o jornalista Alexandre Teixeira, autor do livro Felicidade S.A., que discute a realização profissional no interior das empresas. “A segunda carreira costumava ser coisa de pessoas próximas da aposentadoria. Agora começa muito mais cedo.” 
Como achar o trabalho da sua vida (Foto: Filipe Redondo/ÉPOCA(2) e Rodrigo Lima/Nitro/ÉPOCA)
As histórias e os estímulos à mudança de atividade seriam inúteis se apenas uma minoria estivesse insatisfeita com seu trabalho. Numa leitura superficial das pesquisas, essa parece ser a situação da população brasileira em geral. Três em cada quatro brasileiros se dizem felizes ou muito felizes com o trabalho, segundo um levantamento de 2012 do Datafolha. A parcela de satisfeitos cresceu de 61% para 75% entre 2001 e 2012. Incluem-se aí, porém, milhões de brasileiros muito pobres empolgados com ganhos básicos obtidos ao longo da década passada. O autônomo que passou a vender mais, o desempregado que conseguiu trabalho, o sujeito que vivia de bicos e conquistou a carteira assinada. Os maiores beneficiados pela expansão econômica do passado recente foram os trabalhadores educados até o ensino médio. Quem nasceu na velha classe média, ou chegou a ela há mais tempo, tem outras aspirações.

Se observarmos somente as grandes empresas, há fortes indicadores de insatisfação. No Brasil, segundo a consultoria Mercer, a fatia dos que consideram deixar a companhia em que trabalham saltou de 12%, em 2004, para 56%, em 2011. Nos EUA, medida pela mesma consultoria, com a mesma metodologia, essa parcela cresceu de 23% para 32%, entre 2005 para 2010. Se a pesquisa está correta, os brasileiros estão 23 pontos percentuais de insatisfação acima dos americanos. Certamente, a frustração com o emprego no Brasil não é um problema menor.

Uma objeção natural a esse tipo de debate decorre das expectativas em relação ao trabalho. Seria realmente razoável buscar felicidade durante o expediente? Nossos avós e bisavós, que trabalhavam no campo ou enfrentavam regimes de trabalho sub-humanos em fábricas ou minas de carvão, ouviriam de olhos arregalados nossas queixas sobre rotina e falta de realização. Do ponto de vista deles, levamos vida de fidalgos. Felizmente, os anseios nesse campo mudaram muito.

“Vivemos uma fase de questionamento em torno do trabalho. Muitos, principalmente os mais jovens, recusam a lógica de obedecer, ser infeliz e ganhar dinheiro. Eles precisam de autonomia e propósito no que fazem”, diz Teixeira. Na outra ponta da carreira, um contingente enorme de profissionais mais velhos, que ainda viverão muito, chega às portas da aposentadoria com vontade de recomeçar e obter a satisfação protelada por décadas. Krznaric diz que várias sociedades ocidentais demoraram a elevar as expectativas com relação ao trabalho por causa da ética protestante, que glorifica o esforço e o sacrifício. Lançada no século XVI, ela conquistou corações e mentes do norte da Europa e nos Estados Unidos. Beneficiou o mundo, ao fundamentar a expansão do capitalismo. Mas tornou difícil associar felicidade à labuta diária. A vida terrena não deveria realmente ser um mar de rosas. O gozo viria depois. Krznaric sugere que os trabalhadores de macacão, camiseta e paletó simplesmente esqueçam esse tipo de lógica – e corram atrás da felicidade no trabalho, aqui e agora.
CHEGOU SUA HORA DE MUDAR (Foto: ÉPOCA)

Tinder: apenas um jogo, num álbum de figurinhas

ROGÉRIO SIMÕES
08/10/2013 07h02

A busca pelo amor ou uma companhia para uma noite fria deste começo de Primavera voltou a ser assunto na mídia e nas mesas de bar. A edição da semana passada de ÉPOCA trouxe uma reportagem de Júlia Korte sobre o aplicativo para celulares Tinder, uma nova ferramenta para quem deseja conhecer alguém. Popularizado meses atrás na Europa e nos Estados Unidos, é um brinquedinho que parece funcionar como um atalho para sexo sem compromisso ou uma vida feliz a dois. Na prática, é muito mais, ou menos, que isso. O Tinder é essencialmente um jogo, divertido e popular, porque se adéqua perfeitamente a esta nossa vida moderna e digital, cada vez mais próxima do século XXII do que do XX. O Tinder reduz a vida social a um álbum de figurinhas, descartadas no hiperespaço ao mero deslize de um dedo – com pouco espaço para o mundo real.
Com esse novo aplicativo, cada possível pretendente recebe a atenção típica que a vida em uma cidade como São Paulo permite: alguns segundos. Na última década, ficaram famosos entre europeus e americanos os speed datings, eventos em que mulheres ficavam sentadas em uma mesa, enquanto homens se revezavam à sua frente. Cada um ganhava três, quatro ou cinco minutos de sua atenção, tempo em que deveriam dizer e fazer tudo o que pudesse despertar o interesse da moça. O rapaz, claro, também construía a sua opinião. Ao final, se houvesse interesse mútuo, aqueles “matches”, podiam se encontrar posteriormente. O Tinder radicaliza, ao reduzir esses poucos minutos a um olhar. Tudo se resume a uma rápida observação de uma ou poucas fotos, seguida de um movimento com o dedo que aprova ou descarta uma pessoa. Que até então ainda nem é uma pessoa, mas sim uma fantasia, uma imagem – ou mesmo uma miragem. Se você não gostar de uma foto, nos poucos segundos em que você se deparar com ela, você a descartará. Nunca saberá se aquela foto que lhe chamou a atenção representava mesmo uma pessoa. Poderia ser apenas um truque, um perfil inexistente do Facebook (fonte de todos os perfis do Tinder), uma fase de um jogo eletrônico alimentada por cenas criadas por computador. Como um típico videogame, o Tinder oferece essencialmente imagens, não pessoas.
Qualquer um que já esteve em um bar, festa ou outro evento social sabe que a primeira impressão nem sempre fica. A imagem pode ser enganosa. A garota que por segundos parece linda transforma-se, numa mera virada de rosto, em algo esteticamente desagradável aos olhos do observador. Isso mesmo antes das primeiras cervejas. Julgar alguém pela primeira impressão visual geralmente resulta em equívocos, mesmo que o único fator de julgamento seja a estética. Como o Tinder resolve isso? Não resolve. Na verdade, elimina o problema. Um segundo depois de descartar uma garota ou um rapaz quase na velocidade da luz, o usuário pode se arrepender e desejar uma segunda observação. O Tinder não deixa. Essa imagem, que ainda não é pessoa nem tem identidade, perdeu-se para sempre. O que fica é apenas a esperteza do aplicativo, que brinca com a capacidade do usuário de julgar uma foto apenas pelo olhar, lançado sobre a minúscula tela de um telefone celular. Fica fácil imaginar a tonelada de equívocos cometidos por alguém que selecione candidatos no Tinder na madrugada, no meio de um bar, com várias doses de álcool na cabeça.
Uma das características do Tinder, apontada pelos especialistas do setor como uma das razões do seu sucesso, é permitir que o usuário faça o que quiser com a imagem diante de si, sem que o seu dono saiba. A não ser que haja um “match”, você pode gostar ou descartar uma foto sem informar seu dono. É o fim do constrangimento associado tanto ao interesse como ao desprezo. Como um jovem que coleciona fotos de modelos nuas, que pode se excitar ou ridicularizar as formas da moça sem que ela esteja ouvindo, o usuário do Tinder está desobrigado de dar explicações, assumir as consequências de seus atos ou imaginar o que o outro possa estar pensando. Estamos nos tempos da individualização extrema, em que todos querem fazer o que quiser sem dar satisfação a ninguém – e o Tinder colabora com a realização desse prazer. Se seu objetivo fosse mesmo facilitar o encontro entre pessoas, o aplicativo aproximaria o admirado de seu admirador. Afinal, nada melhor para quebrar o gelo de um coração reticente e cético do que saber que ele acelerou a batida de outro. Mas não: como um jogo acima de tudo, o Tinder não se preocupa em reparar uma avaliação apressada e equivocada. Alguém interessante foi descartado de forma precipitada? Siga jogando, centenas de outros virão. Na tela do Tinder, pessoas são transformadas em figurinhas de um álbum, expostas para receber afagos ou tomates de um usuário em busca de divertimento.
Em algum momento, a brincadeira pode ter alguma consequência, no caso de interesse mútuo. Uma moça gostou de um rapaz – ou vice-versa ou ambos podem ser do mesmo sexo, não importa –, que também gostou dela. Os dois são então avisados de que houve um “match”. Pronto, aparece uma janela de comunicação, e eles podem dialogar. O jogo ganha um pé na realidade, como se dentro de um ou outro pacote de figurinhas viesse um “vale-conversa”, um bônus que lhe dá a chance de interagir com uma das pessoas por trás do álbum. A realidade recebe, enfim, uma chance no mundo da fantasia digital. É o momento em que se acorda de um sonho inconsequente e divertido – para o qual a maioria voltará minutos depois.
As pessoas acreditam ter hoje tão pouco tempo para interagir com outros seres humanos que um aplicativo colocou centenas de milhares de homens e mulheres enlatados em fotos 3x4, para que sejam escolhidas ou descartadas a cada três segundos. É a Revolução Industrial da relação amorosa. Como prêmio por se engajar em um formato tão intenso e massificado de paquera, todos ganham uma conversa aqui e outra ali, por meio de teclas do seu celular, sem ter a mínima ideia de como se move o sorriso de quem está do outro lado. Enquanto isso, centenas de pessoas de carne e osso trabalham, bebem, comem e dançam em torno dos usuários do Tinder. A elas, fica cada vez mais rara a chance de uma troca de olhares sequer. Afinal, não passaram por um processo de seleção digital em série. São apenas pessoas – e delas, cada vez mais, muitos parecem querer distância.

Somos fracos, mas os filhos nos fazem fortes

ISABEL CLEMENTE
06/10/2013 10h00 - Atualizado em 06/10/2013 13h10

Certa vez, tive que me submeter a uma ressonância magnética com contraste, um exame que me foi prescrito como parte de uma nova rotina de prevenção. Para quem nunca fez, uma rápida descrição: você entra num tubo com um minicatéter na veia por onde será aplicado o contraste.
Dentro daquele túnel um tanto apertado, você ficará na mesma posição por 20 minutos, tirintando de frio se for friorento como eu porque uma máquina como aquela requer um ar condicionado capaz de reproduzir o clima do ártico. O barulho que ela emite é ensurdecedor, entrecortado por paradas breves, rápidos silêncios que só servem para aumentar a expectativa em relação ao próximo estrondo. Tampões de ouvido reduzem o desconforto, mas minha alma claustrofóbica precisa mais do que isso para não surtar dentro de um túnel gelado sem ninguém em volta para dar apoio moral.
Controlar o medo era o meu desafio porque o frio parecia não ter jeito, apesar do cobertor sobre minhas pernas e a camisolinha de hospital. A meu favor, contava a vergonha. Só a vergonha me impediria de apertar sem querer a campainha que só deve ser acionada em caso de emergência. "Se a senhora sentir alguma coisa", explicou a enfermeira.
Eu estava sentindo frio e medo, mas acho que frio e medo, mesmo sendo "alguma coisa", não caracterizam situação de emergência. Havia também apreensão com o resultado, sabe lá. Ninguém passa sem ficar um pouco tenso por um escrutínio desses. Vai que, no detalhe, aparece um defeito no meu corpo? O que farei? Também não era o caso de parar o exame por causa disso e eu fora bem orientada pela gentil enfermeira. Não mexe para não atrapalhar o exame. Diga isso para minhas pernas que não param de tremer de frio.
Só que o tempo, esse inimigo implacável dos ansiosos, não passava. Na minha cabeça, aquela revolução em torno do meu campo magnético - mesmo restrita à sala do exame - estava destrambelhando todos os relógios da clínica. Era a única explicação para o tempo, esse traidor, não passar.
As marteladas e as sirenes me soavam como as trombetas do apocalipse. O mundo vai acabar comigo aqui dentro, eu tinha certeza. Eu tinha que me acalmar. Eu precisava sobretudo voltar inteira para minha família, meu marido e minhas filhas, o trio que dá sentido à minha vida. Tratei de dizer coisas boas para mim. Que privilégio fazer um exame tão detalhado. Que honra, pensei, ter médicos tão atentos, não é verdade? Essa era eu, não mais Isabel, mas Polyanna.
Foi quando me ocorreu uma ideia mais elevada. Imagina se fosse uma criança? Antes eu do que minhas filhas. Antes eu, antes eu. Mas e se uma delas estivesse no meu lugar? O que eu faria para acalmá-la? Iria cantar, cantaria tão alto que minha voz calaria a máquina e a mente da gente. E quem sabe assim, melodia, versos e poesia viriam nos salvar das trombetas irritantes.
Eu iria também fantasiar. Porque fantasia é um lugar para onde podemos ir toda vez que a realidade parecer assustadora de mais. Estamos no meio de uma potente demonstração de tecnologia, pura ficção-científica, quem sabe dentro de um foguete em reparos. Ou prestes a decolar. Percebe o barulho da engrenagem?
Para resistirmos à viagem, precisamos de vitamina. Ir para a lua não é para qualquer um. Esse líquido geladinho entrando pela veia nos dará superpoderes no espaço, eu posso sentir, e você? Estranho, mas genial! Ele passeia pelo meu corpo agora.
Àquela altura, com gadolínio circulando nas veias, eu já era uma mulher mais forte, uma mutante, com garras de Wolverine e poderes da Tempestade. Nunca mais serei a mesma. Vou fazer chover e relampejar quando sair daqui.
Esse frio todo vem da lua, lugar inóspito onde, dizem, poucos pisaram. Os próximos seremos nós, comemorei com ar de vitória. Minha mente inquieta decidida a acalmar uma criança imaginária entoou todas as músicas preferidas das minhas filhas na viagem rumo ao espaço. As canções embalaram os minutos finais do exame. E o tempo, um rebelde resistente já dominado, voou.
Esqueci os barulhos do lado de fora. A vida dentro de mim estava mais divertida. Se a ressonância captasse pensamentos e reproduzisse imagens dos meus sentimentos, imprimiria depois uma pauta musical colorida com versos infantis, falando de natureza, de lagarta e borboleta, de Léo e Bia, de dias brancos, piratas e princesas.
Para tirar minha mente daquele tubo gelado, eu ficava apenas imaginando o sorriso inocente das duas crianças. Sem nada saber do que tinha me acontecido, elas apenas me saudariam em casa com um oi embrulhado em sorrisos, prontas para viajar comigo nas nossas aventuras interplanetárias.
É isso o que os filhos fazem pela gente. Mesmo longe, continuam presentes. As minhas filhas transformaram uma menina cheia de medos numa mulher um pouco mais valente.
P.S: esta coluna é minha contribuição pessoal à campanha Outubro Rosa, pela conscientização sobre o papel dos exames preventivos no combate ao câncer de mama. Você já fez o seu?

Amar não é para todos

IVAN MARTINS
02/10/2013 08h35

O filósofo e escritor francês Albert Camus disse uma vez que o único tema filosófico que valia a pena era o suicídio. Às vezes, por outras razões, me ocorre que o único tema relevante sobre os relacionamentos cabe numa única pergunta: você é capaz de amar alguém que retribua os seus sentimentos?
A resposta automática a essa pergunta, em quase 100% dos casos, é afirmativa. “Claro que sim”. Mas, espere um pouco. Aproveite o momento solitário em frente desta tela e considere, sem risco de ser descoberto: você já gostou de alguém a ponto de deixar algo de lado por ele ou por ela? Já se percebeu duradouramente conectado a outro ser humano, de forma que ele deixasse de ser um estranho? Já sentiu que vida de alguém o preocupava – e o atingia - quase como se fosse a sua própria vida?
Quem consegue dizer sim a isso tudo e não está numa relação imaginária – ou platônica – com a pessoa do andar de cima, parabéns. Ao contrário do que diz a lenda, esse negócio de amor não é para todo mundo.
Se houvesse um teste emocional capaz de medir nossas emoções, acredito que ele mostraria que boa parte da humanidade não consegue estabelecer relações românticas profundas e duradouras.
Penso no sentimento geral de que é bom estar na companhia da sua pessoa, em vez de estar com qualquer outra. Penso em passar um dia, uma semana, um mês, sem cogitar em cair fora. Imagino um período, qualquer que ele seja, sem que os sentimentos e as sensações se voltem para fora da relação, em busca de horizontes que não estão lá. Quando eu falo em amor, penso em satisfação, ainda que temporária.
Quem passa no teste? Não muitos, imagino. O que nos leva de volta ao primeiro parágrafo e à capacidade de amar, que raramente é confrontada.
Por alguma razão inexplicável, estamos acostumados a atribuir o sucesso ou fracasso dos nossos relacionamentos apenas aos outros. Ela não me quer, não corresponde meus sentimentos, não é constante. Ou talvez seja algo na atitude dele, na maneira como fala, toma sopa ou ganha a vida que fez com que eu me afastasse. Em poucas palavras, nossos sentimentos parecem depender apenas do que o outro faz ou é, não de nós.
Isso acontece desde o início.
Aos 13 ou 14 anos, quando nos apaixonamos pela primeira vez, a “causa” da paixão é o outro. Sua beleza, seu comportamento, seu sorriso. Achamos que vem tudo de fora. Nem reparamos na elaboração interna do nosso sentimento. Não perguntamos o quê, na nossa personalidade, faz o outro tão atraente. Damos de barato que aquela pessoa é responsável pelo que sentimos, embora os sentimentos emanem de nós.
Essa exteriorização prossegue pelo resto da vida.
Quando as coisas não dão certo – no casamento, no namoro, no caso – rapidamente culpamos o outro e partimos para a reposição, sem investigar nossos sentimentos. Trata-se apenas de procurar com afinco até encontrar a pessoa certa. Mas existe pessoa certa para quem não consegue transpor a barreira de si mesmo e criar uma conexão duradoura com o outro?
Temo que não.
Minha impressão é que aprender a amar é trabalho para a vida inteira. Exige abrir mão do egoísmo, que é imenso. Supõe a capacidade de se encantar com aquilo que não é apenas um reflexo de nós. É essencial, sobretudo nos homens, superar o fascínio boçal pela aparência, que em muitos casos funciona como um sinal de trânsito indicando o caminho para a pessoa errada.
Ao final, como tantas outras coisas na vida, também essa precisa de tempo e de atenção. Tempo para se conhecer e perceber suas próprias dificuldades. Atenção para não se perder em falsas questões. No frigir dos bolinhos, o problema não deve ser apenas a imperfeição do outro, que existe e é imensa. O problema talvez seja a sua, a minha, a nossa incapacidade de superá-la. De amar, apesar dela.
(Ivan Martins escreve às quartas-feiras)

terça-feira, 1 de outubro de 2013

Ricordo

Bologneses desde 2007! O trio "ao"